Damyang é o refúgio verde do sudoeste da Coreia: um condado rural, tranquilo e muito querido pelos coreanos, que vêm até aqui para caminhar entre bambus gigantes, passear sob uma avenida de metassequoias altíssimas e comer arroz cozido dentro de um gomo de bambu. É a 'terra do bambu' por excelência, e um daqueles lugares onde a Coreia se mostra calma, arborizada e elegante, bem longe da correria das grandes cidades.
Mas Damyang não é só natureza fotogênica. É também um lugar com uma densidade cultural surpreendente: durante a dinastia Joseon, sábios e poetas que se afastavam da política construíram aqui jardins e pavilhões para viver em contato com a natureza, e compuseram uma forma de poesia em coreano chamada 'gasa'. O jardim de Soswaewon, do século XVI, é um dos jardins privados mais bonitos e famosos de toda a Coreia, e a região é considerada o berço da literatura gasa.
Este guia percorre Damyang com um olhar prático: como chegar fácil a partir de Gwangju, o que ver em um ou dois dias entre florestas de bambu, metassequoias e jardins clássicos, como se locomover entre atrações um pouco espalhadas e o que comer da sua famosa cozinha do bambu. É a escapada perfeita para somar natureza e cultura tradicional a uma viagem pelo sul da Coreia.
Damyang tem uma longa história rural ligada ao bambu e à cultura dos sábios. Durante a dinastia Joseon (1392-1897), tornou-se um refúgio para eruditos confucianos que, desiludidos ou afastados das lutas políticas da corte, se retiravam para o campo para viver o ideal do 'anbinnakdo' (encontrar prazer em uma vida honesta e simples). Eles construíram jardins e pavilhões de uma beleza serena, como o jardim de Soswaewon — erguido por volta de 1530 pelo letrado Yang San-bo após a morte de seu mestre em um expurgo político — e o pavilhão de Sikyeongjeong. Em torno desses espaços floresceu a literatura 'gasa', um tipo de poesia escrita em coreano (e não em chinês clássico), o que deu a Damyang o título de 'coração da poesia gasa'. O cultivo do bambu, tradicional na região, virou com o tempo a grande marca de identidade do condado, base do seu artesanato, da sua cozinha e, hoje, do seu turismo. A história completa, dos jardins dos sábios à terra do bambu, está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The cradle of the Joseon dynasty and the country's granary, a land of peasant revolts and the struggle for democracy: from Jeonju to the Gwangju of 1980.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Há lugares cuja história se lê na paisagem, e Damyang é um deles. Este condado rural do sudoeste da Coreia, encaixado entre montanhas suaves e banhado pelo riacho Damyangcheon, tem uma identidade tão clara que cabe numa só palavra: bambu. Desde tempos antigos, o clima temperado e úmido e os solos da região se mostraram ideais para o cultivo do bambu, que virou a base da vida local.
Durante séculos, os moradores de Damyang viveram do bambu: com ele fabricavam cestos, esteiras, leques, móveis, chapéus, utensílios e artesanatos que eram vendidos por toda a Coreia. O condado chegou a ser o grande centro nacional do artesanato de bambu e até hoje conserva um mercado tradicional de produtos de bambu e um museu dedicado a esse material. Essa relação íntima com a planta moldou não só a economia, mas também a culinária (o arroz cozido dentro do bambu, o chá e o licor feitos com suas folhas) e a própria estética do lugar.
Mas a história de Damyang tem outra camada, mais erudita e surpreendente, que a diferencia de qualquer outro canto rural da Coreia: a dos jardins e da poesia dos sábios da dinastia Joseon.
Durante a dinastia Joseon (1392-1897), a ideologia oficial do Estado era o neoconfucionismo, e a vida dos letrados (os 'seonbi') girava em torno do estudo, da virtude e do serviço ao Estado. Mas a política da corte também era um terreno perigoso, sacudido por 'expurgos' (sahwa) em que facções inteiras de funcionários eram destituídas, exiladas ou executadas. Diante desse perigo, muitos sábios preferiram se retirar da vida pública e se refugiar no campo, onde cultivavam um ideal muito coreano: o 'anbinnakdo', encontrar paz e prazer numa vida simples e honesta, longe da ambição e em harmonia com a natureza.
Damyang, com seus vales tranquilos e seus bambus, virou um dos destinos preferidos desse retiro. O caso mais famoso é o de Yang San-bo (1503-1557), que abandonou a carreira depois que seu mestre e mentor, o reformista Jo Gwang-jo, foi executado no expurgo de 1519. Yang se retirou para um vale de Damyang e construiu ali o jardim de Soswaewon, por volta de 1530: um jardim íntimo onde um riacho cristalino desce entre bambus, salta numa cascata e forma lagos junto a pavilhões com telhado de palha. Soswaewon não domina a natureza, mas se integra a ela com delicadeza, e hoje é considerado um dos jardins particulares mais bonitos e representativos de toda a era Joseon.
Ao seu redor surgiram outros pavilhões e jardins de contemplação, como o Sikyeongjeong e o Myeonangjeong, transformando essa área de Damyang numa espécie de comunidade de sábios retirados, uma paisagem cultural única na Coreia.
Aquele retiro dos sábios nos jardins de Damyang não foi só contemplativo: foi também extraordinariamente fértil do ponto de vista literário. Nesses pavilhões, à beira dos riachos, nasceu e floresceu uma das formas mais importantes da literatura clássica coreana: a poesia 'gasa'.
Para entender seu valor, é preciso lembrar que, durante séculos, a língua da alta cultura na Coreia foi o chinês clássico; escrever em coreano era considerado impróprio para um letrado sério. A gasa rompeu em parte com essa norma: eram longos poemas líricos e narrativos escritos em língua coreana, que cantavam a beleza da paisagem, a vida retirada, a lealdade ao rei ou os sentimentos pessoais. Ao usar a língua do povo, a gasa abriu a literatura a um público mais amplo e se tornou um tesouro da identidade cultural coreana.
Damyang é reconhecida como o 'coração' desse gênero. Aqui compuseram alguns de seus maiores mestres, e desses vales saíram obras célebres como o 'Gwandong Byeolgok', o 'Samiin-gok' e o 'Seongsan Byeolgok', estudadas até hoje nas escolas coreanas. Para preservar e divulgar esse legado, Damyang abriga o Museu da Literatura Gasa da Coreia, ao lado dos jardins que inspiraram aqueles versos. Poucos lugares rurais do país podem se gabar de uma densidade literária parecida.
A história de Damyang não é feita só de jardins de lazer: também há obras nascidas da necessidade, que com o tempo viraram patrimônio. O melhor exemplo é a floresta de Gwanbangjerim. Em 1648, para proteger a população das frequentes enchentes do riacho Damyangcheon, as autoridades locais mandaram plantar fileiras de árvores ao longo de suas margens, como um dique verde que segurasse a terra e freasse a força da água nas cheias.
Aquela obra de engenharia ecológica, à frente do seu tempo, cumpriu sua função durante séculos. E as árvores, ao crescer, formaram uma alameda magnífica de exemplares centenários que hoje se estende por uns dois quilômetros e é protegida como Monumento Natural da Coreia. É um belo exemplo de como uma solução prática de quase quatro séculos atrás se transformou, com a paciência do tempo, numa das paisagens mais queridas do condado.
Na época contemporânea, já na segunda metade do século XX, Damyang ganhou outra plantação famosa: a avenida das metassequoias. Essas árvores, de crescimento rápido e silhueta cônica, foram plantadas dos dois lados de uma estrada na década de 1970, dentro das campanhas de reflorestamento da época. Décadas depois, transformadas em gigantes, formaram o famoso túnel arborizado que hoje é uma das imagens mais reconhecíveis da Coreia. Mais uma vez, a paisagem de Damyang é fruto da mão humana e da passagem do tempo.
A Damyang de hoje soube transformar toda essa herança — o bambu, os jardins, a poesia, as florestas — num destino turístico encantador, sem perder seu jeito rural e tranquilo. A criação, em 2003, do jardim público de Juknokwon, a floresta de bambu mais famosa do país, atraiu multidões de visitantes coreanos e transformou a economia local, cada vez mais voltada para o turismo verde e a gastronomia do bambu.
O condado também abraçou a filosofia do movimento internacional 'Slow City' (Cittaslow), que promove um ritmo de vida mais humano e sustentável: a vila tradicional de Changpyeong, com seus muros de barro e seus doces artesanais, recebeu esse título e virou símbolo da Coreia rural que resiste à pressa. Damyang se apresenta hoje com orgulho como uma 'cidade lenta', um antídoto contra a vertigem de Seul e das grandes metrópoles.
Assim, este condado do sudoeste oferece ao viajante uma viagem de ida e volta no tempo: caminhar entre bambus que sussurram, passear sob metassequoias plantadas há meio século, sentar num pavilhão onde, cinco séculos atrás, um sábio escrevia poemas em coreano, e comer arroz cozido dentro de um bambu. Damyang mostra que às vezes a história mais rica não está nos palácios nem nas batalhas, mas na relação paciente e harmoniosa de uma comunidade com sua terra, seu rio e suas árvores.