Arica é a ponta norte do Chile: a cidade mais ao norte do país, debruçada sobre o Pacífico e a um passo das fronteiras com o Peru e a Bolívia. É chamada de 'a cidade da eterna primavera' porque quase nunca chove e o sol aparece nos 365 dias do ano, o que a torna um destino de praia acessível quando o resto do país está tremendo de frio. Mas Arica é muito mais do que sol e mar: é história, fronteira e altiplano.
Sobre a cidade se ergue o Morro de Arica, o rochedo que domina a baía e que foi palco da batalha decisiva da Guerra do Pacífico, em 1880. Aos seus pés, o centro histórico guarda joias inesperadas, como a Catedral San Marcos e o antigo edifício da Alfândega, ambos atribuídos à oficina do engenheiro francês Gustave Eiffel. E no vizinho Vale de Azapa repousam as múmias Chinchorro, as mais antigas do mundo, testemunho de um povo que viveu neste litoral há milhares de anos.
Este guia percorre o essencial de Arica com um olhar prático: como subir ao Morro, quais praias escolher, onde ver as múmias Chinchorro, como organizar um passeio ao altiplano e ao Parque Nacional Lauca, e como se deslocar nesta cidade de fronteira, ensolarada e tranquila, que funciona como grande porta de entrada para o norte profundo do Chile.
A região de Arica é habitada há milhares de anos, desde a época da cultura Chinchorro, pescadores e coletores do litoral que praticaram a mumificação artificial mais antiga conhecida no mundo (muito antes dos egípcios). Mais tarde, o Vale de Azapa e o litoral ficaram sob influência das culturas andinas e do Império Inca. Depois da conquista espanhola, Arica se tornou um porto-chave para escoar a prata do cerro de Potosí (Bolívia) rumo à Europa, o que a transformou em alvo de ataques de piratas e corsários. Durante a época republicana, Arica foi território peruano. Tudo mudou com a Guerra do Pacífico (1879-1883): em 7 de junho de 1880, o exército chileno tomou o Morro de Arica numa batalha célebre pela violência e rapidez. Pelo Tratado de Ancón (1883) e, finalmente, pelo Tratado de Lima (1929), Arica ficou definitivamente sob soberania chilena (enquanto Tacna voltou ao Peru). No século XX, a cidade cresceu como porto, zona franca e polo da tríplice fronteira, e hoje é a capital da região de Arica e Parinacota, criada em 2007. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The far north of Chile, Aymara land pressed up against Peru and Bolivia: the 'city of eternal spring', the Morro headland that decided a battle of the War of the Pacific, the altiplano of Lauca National Park beside Lake Chungará, and the Chinchorro mummies, the oldest in the world.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de existir qualquer cidade, o litoral onde hoje fica Arica foi habitado por um dos povos mais fascinantes da pré-história americana: a cultura Chinchorro. Eram comunidades de pescadores, caçadores e coletores que viveram no litoral do extremo norte do Chile e do sul do atual Peru durante milhares de anos. Eles aproveitavam a riqueza do mar e os oásis costeiros no meio de um dos desertos mais áridos do planeta.
O que torna os Chinchorro únicos é o jeito como tratavam seus mortos. Eles desenvolveram a mumificação artificial mais antiga de que se tem notícia na história da humanidade, uma prática que começou milhares de anos antes dos egípcios. As técnicas incluíam desmembrar os corpos e depois reconstruí-los sobre estruturas de varas e fibras, preenchê-los, recobri-los com pastas de cinza ou argila e modelar máscaras sobre o rosto. Era um trabalho funerário de enorme complexidade e carga simbólica. Eles mumificavam todos os membros da comunidade, inclusive crianças e fetos, o que sugere uma visão muito particular da morte e do pertencimento coletivo.
Grande parte desse legado é conservada e exibida hoje no Museu Arqueológico San Miguel de Azapa, no vale de mesmo nome, perto de Arica. Em 2021, a Unesco inscreveu o 'Assentamento e mumificação artificial da cultura Chinchorro na região de Arica e Parinacota' na lista do Patrimônio Mundial. Com isso, reconheceu seu valor universal excepcional e colocou Arica no mapa dos grandes sítios da pré-história mundial.
Depois dos Chinchorro, a região de Arica viu florescer outras culturas que aproveitaram os vales férteis que descem dos Andes em direção ao mar, como o Vale de Azapa e o de Lluta. Esses oásis agrícolas, irrigados por rios que atravessam o deserto, permitiram o cultivo de milho, pimenta, algodão e, mais tarde, a produção que até hoje caracteriza a região. Nas encostas dos morros do caminho para Azapa ficaram gravados geoglifos, enormes figuras de animais e caravanas desenhadas nas encostas. Eles são testemunho da passagem das caravanas de lhamas que ligavam o litoral ao altiplano.
Com o tempo, a região ficou sob a influência das grandes culturas andinas e, por fim, do Império Inca (Tawantinsuyu). Os incas integraram esses vales costeiros à sua vasta rede de caminhos e à sua economia de troca entre o litoral, os vales e o altiplano. O litoral de Arica funcionava como um ponto de ligação entre o mundo marítimo dos pescadores e o mundo andino das terras altas.
Depois da conquista do Peru pelos espanhóis, no século XVI, Arica ganhou uma importância estratégica enorme por um motivo bem concreto: virou o porto de saída da prata extraída do Cerro Rico de Potosí, no Alto Peru (atual Bolívia). A prata descia em caravanas das montanhas até o porto de Arica e, de lá, seguia para Lima e para a Europa. Essa riqueza fez de Arica um porto cobiçado e, por isso mesmo, um alvo frequente de ataques de piratas e corsários durante os séculos coloniais.
Com a independência das nações sul-americanas no começo do século XIX, Arica passou a fazer parte do Peru republicano, dentro do departamento de Tacna. Durante boa parte daquele século, Arica foi um porto peruano de relevância regional. Ela mantinha seu antigo papel de saída natural para o mar dos territórios do sul do Peru e do Alto Peru, a nova república da Bolívia, que dependia muito desse porto para seu comércio exterior.
A vida da cidade também foi marcada pela geografia e seus riscos. O litoral do extremo norte é uma zona de alta atividade sísmica, e Arica sofreu ao longo de sua história terremotos e tsunamis devastadores, que destruíram boa parte de suas construções. Um dos mais lembrados é o grande terremoto e tsunami de 1868, que arrasou o porto. É justamente a reconstrução depois desses desastres que explica por que, nas décadas seguintes, foram erguidos edifícios de ferro pré-fabricado, mais resistentes e rápidos de montar. É o caso da Catedral San Marcos e do edifício da Alfândega, atribuídos à oficina do engenheiro francês Gustave Eiffel.
No fim do século XIX, a disputa crescente entre Chile, Peru e Bolívia pelo controle dos recursos do deserto do Atacama, especialmente o salitre, colocaria Arica no centro de um dos conflitos mais importantes da história sul-americana.
A Guerra do Pacífico (1879-1883) colocou o Chile contra a aliança entre Peru e Bolívia pelo controle dos ricos territórios de salitre do deserto do Atacama. Durante a campanha de Tacna e Arica, o exército chileno avançou para o norte. Depois de vencer a batalha de Tacna, voltou sua atenção para o último grande bastião que defendia a cidade de Arica: o Morro, o imponente rochedo que domina a baía, fortemente fortificado e armado com artilharia pelas forças peruanas.
O assalto ao Morro de Arica aconteceu na madrugada de 7 de junho de 1880. As tropas chilenas, num ataque de infantaria com baionetas, escalaram e tomaram a posição num combate brevíssimo e extraordinariamente violento, de apenas alguns minutos. Ali morreu o coronel peruano Francisco Bolognesi, que tinha jurado defender a praça 'até queimar o último cartucho' e que se tornou herói nacional do Peru. A tomada do Morro foi uma das ações mais lembradas de toda a guerra, tanto pela ferocidade quanto pela rapidez, e selou o destino de Arica.
O resultado da guerra mudou para sempre o mapa da região. Pelo Tratado de Ancón (1883), o Peru cedeu ao Chile a província de Tarapacá e deixou Tacna e Arica sob administração chilena por um prazo que depois seria resolvido por meio de um plebiscito. A Bolívia, por sua vez, perdeu sua saída para o mar. A questão de Tacna e Arica continuou sendo um conflito diplomático em aberto durante décadas.
Depois da Guerra do Pacífico, a situação de Tacna e Arica ficou em suspenso. O Tratado de Ancón, de 1883, estabeleceu que as duas cidades ficariam sob administração chilena por um tempo, ao fim do qual um plebiscito decidiria sua soberania definitiva. Esse plebiscito, porém, nunca chegou a acontecer. Durante décadas, a 'questão de Tacna e Arica' foi um dos conflitos diplomáticos mais espinhosos entre Chile e Peru, com períodos de tensão e tentativas de 'chilenização' da população dos territórios em disputa.
A solução só veio em 1929, com a mediação dos Estados Unidos. O Tratado de Lima de 1929, assinado entre Chile e Peru, dividiu os territórios: Tacna voltou para o Peru, enquanto Arica ficou definitivamente sob soberania chilena. O acordo incluiu compensações e disposições especiais, entre elas facilidades portuárias e de trânsito para o Peru em Arica. Com esse tratado, finalmente se fechou a fronteira norte do Chile tal como a conhecemos hoje.
Ao longo do século XX, já totalmente chilena, Arica se desenvolveu como cidade portuária e polo industrial e comercial. A criação de regimes especiais, como a condição de porto livre e depois de zona franca, e os acordos que dão à Bolívia, que não tem litoral, acesso ao mar através de Arica marcaram sua economia. A histórica Ferrovia de Arica a La Paz reforçou esse papel de saída para o Pacífico do comércio boliviano.
Ao longo do século XX e no começo do XXI, Arica consolidou seu perfil de cidade fronteiriça, ensolarada e estratégica. Sua localização, quase no ponto onde Chile, Peru e Bolívia se encontram, fez dela um nó de comércio, migração e contato cultural no extremo norte do país. Por aqui passam mercadorias de e para a Bolívia, que tem em Arica uma de suas principais saídas para o mar. E milhares de pessoas cruzam todos os dias a fronteira com Tacna, numa das passagens mais movimentadas da América do Sul.
No plano administrativo, durante grande parte do século XX Arica pertenceu à região de Tarapacá, com capital em Iquique. Isso mudou em 2007, quando foi criada a nova Região de Arica e Parinacota, com Arica como capital regional. A nova região reconheceu a identidade própria do extremo norte, que une a cidade litorânea ao altiplano andino da província de Parinacota (Putre, os povoados aimarás, o Parque Nacional Lauca).
Hoje Arica tem várias faces. É o balneário da eterna primavera, com suas praias e clima bom o ano inteiro. É cidade histórica, com o Morro, o centro histórico e os edifícios de Eiffel. É capital arqueológica, com as múmias Chinchorro reconhecidas pela Unesco. E é porta de entrada para o altiplano e para a cultura aimará. Essa mistura de mar, deserto, história de guerra e mundo andino é o que dá a Arica seu caráter único no mapa do Chile.