Calama é a 'capital mineira do Chile': uma cidade em pleno deserto do Atacama que vive do cobre, marcada pela presença de Chuquicamata, uma das maiores e mais famosas minas a céu aberto do mundo. É um oásis e um grande entroncamento de comunicações no meio da imensidão do deserto, a mais de 2.200 metros de altitude, onde o sol castiga durante o dia e a noite esfria de repente.
Para muitos viajantes, Calama é antes de tudo a porta de entrada para San Pedro de Atacama: é aqui que o avião pousa e daqui sai o transfer para o coração do Atacama turístico, com seus gêiseres, salares, lagoas e céus estrelados. Mas a cidade tem seus próprios atrativos, ligados sobretudo à epopeia do cobre: o tour pela mina de Chuquicamata e pelo antigo acampamento, hoje abandonado, é uma experiência única para entender como a mineração moldou o norte do Chile.
Este guia percorre o essencial de Calama com um olhar prático: como organizar a visita a Chuquicamata, o que ver na cidade e nos arredores, como fazer a conexão com San Pedro de Atacama e como se locomover e se aclimatar à altitude. Uma parada-chave em qualquer viagem pelo Norte Grande chileno.
A região de Calama foi, desde tempos pré-hispânicos, um oásis na bacia do rio Loa, habitado por povos atacamenhos (likanantai) que cultivavam os vales e faziam parte das redes de caravanas do deserto, mais tarde sob influência do Império Inca. Na época colonial e no início da vida republicana, este território pertencia à Bolívia. Durante a Guerra do Pacífico, em março de 1879, foi travado aqui o combate de Calama (lembrado pela resistência do boliviano Eduardo Abaroa, herói nacional da Bolívia), e a região passou depois à soberania chilena. O grande salto de Calama veio no século XX com a exploração industrial do cobre de Chuquicamata, iniciada em grande escala por volta de 1915 por capitais norte-americanos (a Chile Exploration Company / Anaconda) e nacionalizada em 1971 durante o governo de Salvador Allende, junto com o restante da grande mineração de cobre. Chuquicamata foi durante décadas um enorme acampamento mineiro com vida própria; com o tempo, seus moradores foram transferidos para Calama, que cresceu até se tornar a principal cidade de serviços da mineração de cobre do país. Hoje é a capital da província de El Loa e a grande porta de entrada para San Pedro de Atacama. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The mining heart of Chile in the Atacama Desert, the driest in the world: copper and lithium, the oasis and the skies of San Pedro de Atacama, the El Tatio geysers, the Paranal and ALMA observatories, and a history of territorial conquest at Bolivia's expense.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de o cobre torná-la famosa, a região de Calama já era um ponto de vida no deserto mais árido do mundo, graças ao rio Loa. O Loa, o rio mais longo do Chile, nasce na cordilheira e atravessa o deserto do Atacama desenhando um fio verde no meio da imensidão seca. Desde tempos remotos, suas águas permitiram a existência de oásis agrícolas e de povoados numa região onde, de outro modo, seria quase impossível viver.
Esses oásis foram habitados pelos povos atacamenhos, também chamados likanantai (ou lican antai). Eram agricultores e pastores que cultivavam milho, quinoa e outros produtos em terraços, criavam lhamas e faziam parte das grandes redes de caravanas que ligavam a costa do Pacífico aos vales e ao altiplano andino. Povoados próximos, como Chiu Chiu e o Pukará de Lasana (uma fortaleza pré-hispânica de pedra sobre uma ravina), são testemunhas dessa ocupação antiga do vale do Loa.
Com o tempo, a região ficou sob a influência do Império Inca (Tawantinsuyu), que integrou esses oásis à sua rede de caminhos (o Qhapaq Ñan) e à sua economia. Assim, muito antes da chegada dos espanhóis, Calama e seus arredores já eram uma encruzilhada no deserto: um ponto de troca onde se encontravam os produtos do mar, dos vales e das terras altas.
Com a chegada dos espanhóis no século XVI, a região do Loa foi integrada ao vasto domínio colonial, mas sempre como uma zona marginal e de passagem, por causa da dureza do deserto. A marca mais visível dessa época na região de Calama são as pequenas igrejas coloniais andinas, como a Igreja de San Francisco de Chiu Chiu, uma das mais antigas do Chile. Ela foi construída com a técnica tradicional de paredes de adobe, telhado de madeira de cacto (cardón) e vigas de algarrobo, misturando o catolicismo espanhol com a arquitetura e a mão de obra atacamenha.
Depois das independências sul-americanas, no começo do século XIX, esse território não ficou com o Chile: passou a fazer parte da Bolívia. Calama era então um modesto oásis boliviano no deserto do Atacama, dentro do departamento do Litoral, que dava à Bolívia sua saída para o mar. A região continuava pouco povoada, com uma economia local baseada na agricultura e na pecuária, ainda longe de imaginar a transformação que a mineração industrial traria.
O fato de o Atacama pertencer à Bolívia, somado à riqueza mineral escondida no deserto (salitre, prata e cobre), transformaria toda essa região, Calama incluída, no centro de um conflito que mudaria as fronteiras da América do Sul: a Guerra do Pacífico.
Quando a Guerra do Pacífico estourou, em 1879, Calama foi palco de um de seus primeiros combates terrestres. Depois da ocupação chilena de Antofagasta, em fevereiro de 1879, as forças chilenas avançaram para o interior do deserto para assumir o controle dos oásis e das rotas. Em 23 de março de 1879 foi travado o combate de Calama, no qual um pequeno grupo de defensores bolivianos enfrentou as tropas chilenas, muito superiores em número.
Desse combate surgiu uma figura central da memória boliviana: Eduardo Abaroa, um civil que, segundo a tradição, resistiu até o fim na ponte do Topáter e respondeu à intimação de rendição com uma frase que ficou famosa na Bolívia. Abaroa morreu em combate e se tornou herói nacional boliviano. O 23 de março, dia do combate, é lembrado na Bolívia como o Dia do Mar, ligado à reivindicação de uma saída para o oceano. A atual Plaza 23 de Marzo, em Calama, recorda essa data.
O combate de Calama foi mais uma vitória chilena no avanço sobre o litoral, e a região ficou sob controle do Chile. Ao fim da guerra, pelo Pacto de Trégua de 1884 e, mais tarde, pelo tratado definitivo de 1904 entre Chile e Bolívia, todo o antigo litoral boliviano, incluindo Calama e Antofagasta, foi incorporado ao Chile, e a Bolívia perdeu de forma permanente seu acesso soberano ao mar.
O destino de Calama mudou por completo no século XX com a exploração industrial do cobre. A poucos quilômetros da cidade havia uma jazida gigantesca: Chuquicamata, conhecida e explorada de forma artesanal desde tempos pré-hispânicos, mas cuja verdadeira riqueza só pôde ser aproveitada em grande escala com a tecnologia de mineração moderna. Por volta de 1915, capitais norte-americanos (a Chile Exploration Company, ligada ao grupo Guggenheim e depois à Anaconda Copper) começaram a exploração industrial do cobre a céu aberto.
Chuquicamata se tornou uma das maiores minas de cobre do mundo, uma cava colossal escavada no deserto. Em volta da mina cresceu um enorme acampamento mineiro, o povoado de Chuquicamata, com milhares de habitantes, casas, escolas, hospital, cinema, clubes e vida própria: uma verdadeira cidade do cobre construída pela empresa. Enquanto isso, Calama, o oásis vizinho, foi crescendo como cidade de apoio e serviços.
Em 1971, durante o governo de Salvador Allende, a grande mineração do cobre, incluindo Chuquicamata, foi nacionalizada com amplo apoio político e passou para as mãos do Estado chileno por meio do que mais tarde seria a Codelco, a maior empresa estatal do país. O cobre se consolidou como o 'salário do Chile', e Chuquicamata como um de seus símbolos. A era do cobre transformou toda a região e colocou Calama no centro da economia mineira nacional.
Durante décadas, o acampamento de Chuquicamata foi um povoado mineiro cheio de vida, onde nasceram e cresceram gerações de famílias ligadas ao cobre. Mas, no começo do século XXI, por razões ambientais (a poluição causada pela própria mina) e pela necessidade de expandir a operação, a empresa decidiu transferir toda a população de Chuquicamata para a vizinha Calama. A mudança foi concluída por volta de 2007 e deixou para trás uma cidade fantasma, carregada de memória e nostalgia: o antigo acampamento despovoado que hoje é visitado nos tours.
Calama absorveu essa população e cresceu até se tornar a principal cidade de serviços da mineração de cobre do país, a 'capital mineira do Chile'. É uma cidade funcional, pujante e com grande circulação de trabalhadores, que vive no ritmo das minas e tem toda a estrutura de uma cidade média: aeroporto, comércio, saúde, educação e conexões com o resto do país.
Nas últimas décadas, Calama somou ao seu papel mineiro uma função turística fundamental: é a grande porta de entrada para San Pedro de Atacama, o destino estrela do norte do Chile. O Aeroporto El Loa recebe os viajantes que vêm atrás dos gêiseres, salares, lagoas e céus estrelados do Atacama, e é de Calama que sai o transfer para esse universo de paisagens. Assim, a cidade combina hoje duas identidades: a epopeia industrial do cobre e o papel de trampolim para um dos desertos mais fascinantes do planeta.