Kata Tjuta — as antigas Olgas — é a irmã monumental e menos visitada de Uluru: um conjunto de 36 cúpulas de conglomerado vermelho, arredondadas e gigantescas, agrupadas a 50 quilômetros a oeste da rocha. O nome significa 'muitas cabeças' em pitjantjatjara, e é exatamente isso: caminhar entre elas é se sentir minúsculo diante de paredes de até 546 metros de altura, mais altas até que Uluru.
Enquanto Uluru é uma massa sólida e compacta, Kata Tjuta é um labirinto de gargantas, vales e desfiladeiros por onde o vento assobia e muda de temperatura. A caminhada estrela, o Vale dos Ventos (Valley of the Winds), serpenteia entre as cúpulas e oferece mirantes que estão entre os mais espetaculares do Red Centre. É um lugar mais físico e selvagem que Uluru, com menos gente e uma energia diferente.
Kata Tjuta é um local profundamente sagrado para os homens anangu, com histórias do Tjukurpa que não são compartilhadas publicamente; por isso há trechos onde se pede para não fotografar. Está incluída no mesmo passe de três dias de Uluru, então colocá-la no roteiro não custa nada a mais e transforma a visita ao parque em algo muito mais completo.
Kata Tjuta é, junto com Uluru, o coração do Country anangu há dezenas de milhares de anos, com histórias sagradas do Tjukurpa reservadas aos iniciados. O explorador Ernest Giles avistou as cúpulas em 1872 e as chamou de The Olgas, em homenagem à rainha Olga de Württemberg. Assim como Uluru, foi devolvida aos seus donos tradicionais no Handback de 1985. Mais na página de história de Uluru.
Ler a história completa ↓The red, tropical heart of Australia: the territory with the highest proportion of Aboriginal people in the country, home to the rock art of Kakadu and to the sacred monolith of Uluru, handed back to its Anangu owners in 1985. From Darwin, bombed in 1942, to the Red Centre of Alice Springs.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de ser 'The Olgas' no mapa colonial, este conjunto de 36 cúpulas vermelhas tinha — e tem — um nome próprio na língua de seus donos: Kata Tjuta, 'muitas cabeças' em pitjantjatjara. Para os anangu, os povos pitjantjatjara e yankunytjatjara que habitam o deserto central há dezenas de milhares de anos, Kata Tjuta é um local sagrado tão importante quanto Uluru, mas de outra natureza: enquanto muitas histórias de Uluru podem ser compartilhadas, boa parte do conhecimento do Tjukurpa ligado a Kata Tjuta é reservada aos homens iniciados e não é contada publicamente.
Essa reserva não é capricho: na cultura anangu, o conhecimento tem níveis e responsáveis. Certos relatos, cantos e lugares pertencem a determinadas pessoas de acordo com o gênero, a idade e a iniciação, e divulgá-los fora de contexto seria uma falta grave. Por isso, em alguns trechos de Kata Tjuta, as placas pedem que não se fotografe nem se filme: não é uma restrição turística arbitrária, e sim o respeito a um sistema de conhecimento vivo.
Geologicamente, as cúpulas são um conglomerado — seixos de granito e basalto cimentados por areia e lama — depositado há cerca de 500 milhões de anos, dobrado e erodido até se transformar nessas cabeças monumentais. A mais alta delas, o monte Olga, se ergue 546 metros acima da planície, uns 200 metros a mais que Uluru. Para os anangu, porém, a explicação de suas formas não está na geologia, e sim nos atos dos seres ancestrais do Tjukurpa.
Essa reserva sobre o conhecimento sagrado convive com uma generosidade seletiva: os anangu compartilham com os visitantes o suficiente para que entendam que estão em um lugar especial e saibam como se comportar, sem expor aquilo que não deve ser divulgado. É um equilíbrio delicado, que aparece em cada placa do parque e na formação dos guias, e que convida o viajante a um outro tipo de olhar: não o de quem quer saber e fotografar tudo, mas o do hóspede que aceita que há coisas que não lhe cabe ver nem contar.
O primeiro europeu a deixar registro de Kata Tjuta foi o explorador Ernest Giles, que avistou as cúpulas em 1872, um ano antes de William Gosse chegar a Uluru. Giles, financiado pelo barão Ferdinand von Mueller — um influente botânico de origem alemã radicado na Austrália —, batizou o conjunto de Mount Olga, em homenagem à rainha Olga de Württemberg, esposa do rei Carlos I e patrona das ciências. Daí veio o nome popular no plural, 'The Olgas', que se impôs por quase um século.
Giles ficou fascinado com a escala do lugar, que descreveu com admiração em seus diários de expedição. Mas, como em tantos outros cantos do interior australiano, o olhar do explorador viu uma paisagem 'vazia' e à espera de um nome: não reconheceu que estava diante de um território habitado, mapeado e carregado de significado por seus donos desde tempos imemoriais. O nome europeu apagou dos mapas oficiais a denominação anangu, que só voltaria a aparecer muito tempo depois.
Hoje o nome oficial duplo é Kata Tjuta/Mount Olga, e, na prática turística e na sinalização do parque, prevalece 'Kata Tjuta', uma mudança que acompanha o reconhecimento mais amplo da propriedade e da cultura anangu sobre toda a região.
A história colonial de Kata Tjuta corre paralela à de Uluru, do qual está separado por apenas 50 quilômetros dentro do mesmo parque. Em 1920, grande parte do deserto central foi incluída em uma extensa reserva aborígine; mas, ao longo do século XX, o Estado recortou porções desse território para o turismo e outros usos, sem consultar seus habitantes. Em 1958, a área de Uluru e Kata Tjuta foi separada da reserva para criar um parque administrado pelo governo, deixando os anangu de fora das decisões sobre seu próprio Country.
O impacto do turismo foi crescendo: estradas, acampamentos e um fluxo cada vez maior de visitantes que chegavam para ver 'Ayers Rock and The Olgas' como um combo, sem noção de que pisavam em locais sagrados. A maré começou a virar com o movimento pelos direitos territoriais aborígines nos anos 1970 e com a aprovação do Aboriginal Land Rights (Northern Territory) Act de 1976, que abriu o caminho legal para reivindicar a terra.
Em 26 de outubro de 1985, no mesmo ato histórico do Handback, os títulos de propriedade de todo o parque — Uluru e Kata Tjuta juntos — foram entregues aos anangu pelo governador-geral Sir Ninian Stephen. Os donos tradicionais arrendaram imediatamente o parque ao serviço nacional de parques por 99 anos, sob um modelo de gestão conjunta com maioria anangu no conselho diretor. Desde então, Kata Tjuta é administrado como aquilo que sempre foi: parte inseparável do território e da cultura anangu.
Integrado ao Parque Nacional Uluṟu-Kata Tjuṯa — Patrimônio Mundial da Unesco por seus valores naturais (1987) e culturais (1994) —, Kata Tjuta recebe hoje uma fração dos visitantes de Uluru, o que lhe dá um ar mais íntimo e selvagem. A trilha do Vale dos Ventos, entre as cúpulas, e o desfiladeiro de Walpa viraram experiências imperdíveis para quem quer ir além do cartão-postal da rocha.
A gestão conjunta entre os anangu e a Parks Australia rege cada aspecto da visita: os horários das trilhas, os fechamentos por calor extremo, as áreas onde não se pode fotografar e as informações culturais que são compartilhadas e as que são preservadas. As operadoras de turismo que trabalham no parque precisam respeitar protocolos combinados com a comunidade, e uma parte cada vez maior da interpretação busca transmitir o olhar anangu sobre a paisagem.
Visitar Kata Tjuta com consciência é, no fundo, aceitar uma inversão de papéis: o viajante deixa de ser um conquistador que 'descobre' uma paisagem vazia para se tornar um hóspede que caminha, com permissão, por um lugar sagrado de uma das culturas vivas mais antigas do mundo. As 36 cabeças de pedra vermelha, silenciosas sob o sol do deserto, guardam histórias que existiam muito antes de existirem os mapas, e que vão continuar existindo muito depois.