A ilha Bruny (Bruny Island, lunawuni para o povo nuenonne) é o passeio gourmet e selvagem do sul da Tasmânia: na verdade são duas ilhas — Norte e Sul — unidas por um istmo de areia estreito e espetacular, The Neck, coroado por dunas onde os pinguins fazem ninho. Em um único dia dá para combinar queijos, ostras, uísque e chocolate artesanais com falésias castigadas pelo vento, faróis históricos e observação de fauna marinha.
Bruny Norte é mais suave e agrícola, com produtores gourmet ao longo da estrada; Bruny Sul é mais agreste, com o Parque Nacional South Bruny, o farol de Cape Bruny, de 1836, e alguns dos litorais mais dramáticos da Tasmânia. Entre as duas, The Neck tem um mirante com escadaria de onde se vê a ilha inteira e, ao anoitecer na temporada, dá para ver os pinguins voltando para as suas tocas.
É um destino que combina natureza, história e sabor. Os cruzeiros de vida selvagem contornam falésias e cavernas marinhas entre focas, golfinhos e aves; a rota gastronômica é uma das melhores da Austrália; e a história — a do povo nuenonne e de Truganini, uma de suas figuras mais conhecidas — dá uma profundidade que vai muito além do cartão-postal. Chega-se em um ferry confortável que sai de perto de Hobart.
A ilha é Country do povo nuenonne, parte dos aborígines tasmanianos do sudeste; Mangana, pai de Truganini, era o seu líder quando os europeus chegaram. Abel Tasman a avistou em 1642, Furneaux ancorou em Adventure Bay em 1773 (e lhe deu o nome do seu navio) e, em 1792, o francês Bruni D'Entrecasteaux confirmou que era uma ilha e lhe deu o seu nome. Mais na página de história da ilha Bruny.
Ler a história completa ↓The island south of the mainland, once Van Diemen's Land: home to one of the most feared penal colonies of the empire and the scene of the tragic Black War against the Palawa people. Today it is a haven of wild nature, with more than a third of its area protected as a World Heritage Site.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de levar o nome de um navegador francês, a ilha era lunawuni, lar do povo nuenonne, um dos grupos aborígenes do sudeste da Tasmânia. Os nuenonne viviam na ilha e nas margens do canal havia milênios, como caçadores-coletores adaptados a um ambiente de mar, floresta e montanha. Os aborígenes tasmanianos formavam uma das populações humanas mais isoladas do planeta. Ficaram separados do continente australiano há cerca de 10.000 anos, quando se formou o estreito de Bass, e tinham cultura, tecnologias e línguas próprias.
A ilha oferecia fartura: mariscos, focas, aves marinhas e seus ovos, além de plantas e animais terrestres. Os nuenonne circulavam por lunawuni conforme as estações e os recursos disponíveis, e mantinham laços de troca e parentesco com os grupos vizinhos da terra firme próxima. Como no resto da Tasmânia, o fogo era uma ferramenta central para manejar a paisagem, manter os espaços abertos e favorecer a caça.
Quando os primeiros europeus chegaram, o líder dos nuenonne era Mangana. A filha dele, nascida por volta de 1812, se tornaria uma das figuras mais conhecidas e trágicas da história aborígene australiana: Truganini. Hoje o nome dela está gravado no mirante do istmo de The Neck. É um lembrete de que a beleza turística da ilha se apoia sobre uma história humana profunda e dolorosa.
Poucos lugares da Austrália receberam tantos grandes navegadores quanto esta ilha. O primeiro europeu a avistá-la foi o holandês Abel Tasman, em novembro de 1642, mas ele não chegou a perceber que se tratava de uma ilha. Mais de um século depois, em março de 1773, o britânico Tobias Furneaux, que tinha se separado da expedição de Cook, foi o primeiro europeu a desembarcar ali. Ele ancorou numa baía que batizou de Adventure Bay, em homenagem ao seu navio, o Adventure.
O próprio James Cook passou por Adventure Bay em 1777, na sua terceira e última viagem. Em 1788 e 1792 chegou o capitão William Bligh, o do famoso motim do Bounty, que plantou em Adventure Bay as primeiras macieiras da Austrália. Foi um prenúncio da vocação para a fruticultura que a Tasmânia teria mais tarde. Assim, Adventure Bay virou parada frequente das expedições que exploravam essas águas do sul.
O nome definitivo da ilha veio em 1792, com o explorador francês Bruni D'Entrecasteaux, que confirmou que lunawuni era mesmo uma ilha, separada do resto da Tasmânia por um canal. Tanto a ilha quanto o canal (D'Entrecasteaux Channel) levam o nome dele. Com o tempo, 'Bruni' foi anglicizado para 'Bruny'. Por trás desses nomes europeus ficaram o nome e a história dos nuenonne, silenciados durante muito tempo.
A história de Truganini resume a tragédia dos aborígenes tasmanianos. Ela nasceu em Bruny por volta de 1812, filha do líder nuenonne Mangana, e viveu a infância e a adolescência em meio à chegada brutal da colonização. Antes de completar vinte anos, já tinha perdido a mãe, assassinada por marinheiros. As irmãs foram raptadas por caçadores de focas e o tio foi morto a tiros por um soldado. Em apenas uma geração, o mundo nuenonne desmoronou sob o peso da violência, do sequestro de mulheres pelos caçadores de focas (os sealers) e das doenças trazidas pelos colonos.
Nas décadas de 1820 e 1830, o conflito entre colonos e aborígenes em toda a Tasmânia se agravou até a chamada 'Guerra Negra' (Black War). Truganini acabou ligada às campanhas de George Augustus Robinson, que queria 'reunir' os aborígenes sobreviventes e transferi-los para assentamentos em ilhas do estreito de Bass. Um deles era Wybalenna, em Flinders Island, onde muitos morreram de doença e de desenraizamento. Truganini sobreviveu a quase todo o seu povo e morreu em Hobart em 1876.
Por muito tempo ela foi apresentada, de forma falsa, como 'a última aborígene tasmaniana', e com ela se espalhou o mito da 'extinção' do povo tasmaniano. É uma mentira histórica. Os descendentes das comunidades aborígenes sobreviveram e mantiveram sua identidade. Muitos deles descendem das mulheres levadas pelos caçadores de focas para as ilhas do estreito. Hoje eles formam a comunidade palawa, que defende sua continuidade e sua ligação com lugares como lunawuni. O mirante de The Neck leva o nome de Truganini justamente para que essa história não seja esquecida.
O próprio destino dos restos mortais dela mostra quanto tempo o respeito demorou a chegar. Ela tinha pedido expressamente que seu corpo fosse lançado ao mar no canal D'Entrecasteaux. Mesmo assim, depois de sua morte em 1876, o esqueleto foi exumado e ficou exposto durante décadas no museu de Hobart. Só em 1976, cem anos depois, os restos foram finalmente cremados e as cinzas espalhadas nas águas do canal, perto da sua ilha natal, como ela queria. Esse gesto tardio virou símbolo do longo caminho até o reconhecimento da dignidade e da continuidade do povo aborígene tasmaniano.
Hoje a ilha Bruny é um dos destinos mais queridos do sul da Tasmânia, famosa pela combinação de natureza selvagem e gastronomia artesanal. Bruny Norte, mais tranquila e agrícola, abriga a famosa rota gourmet, com queijos, ostras, uísque, chocolate e mel de leatherwood. Bruny Sul, mais rústica, guarda o Parque Nacional South Bruny, o histórico farol de Cape Bruny, de 1836, e praias e falésias castigadas pelo oceano. Entre as duas, The Neck tem seu istmo de areia, seus pinguins e seu mirante carregado de memória.
A economia da ilha gira em torno do turismo, da produção de alimentos e da conservação. Os cruzeiros de vida selvagem percorrem a costa sul entre focas, golfinhos, aves e baleias, e viraram uma das experiências de fauna costeira mais conhecidas da Austrália. Ao mesmo tempo, a ilha é frágil e serve de habitat para espécies como o raro wallaby branco de Bruny, por isso exige um turismo cuidadoso.
Como em toda a Tasmânia, em Bruny também avança o reconhecimento da história aborígene. A recuperação dos nomes originais, a memória de Truganini e dos nuenonne e o trabalho da comunidade palawa fazem parte de uma leitura mais honesta do passado. Esta ilha de queijos e faróis foi lunawuni, lar de um povo milenar cuja tragédia e cuja sobrevivência continuam presentes. Saber disso transforma um passeio gastronômico num encontro com as camadas mais profundas da história australiana.