Hobart é uma das capitais mais encantadoras e surpreendentes da Austrália: pequena, histórica e, ao mesmo tempo, sede de um dos museus mais ousados do mundo. Às margens do largo rio Derwent e sob o paredão do monte kunanyi/Mount Wellington, a cidade preserva um centro de arenito georgiano, cais de pedra e um clima descontraído de porto do fim do mundo. É a segunda capital mais antiga do país, com um passado de condenados, baleeiros e comerciantes que se sente em cada rua de Battery Point e nos armazéns de Salamanca.
Mas o que colocou Hobart no mapa do turismo mundial foi o MONA (Museum of Old and New Art), o maior museu privado da Austrália, escavado na rocha às margens do Derwent e cheio de arte provocadora, estranha e genial, criado pelo excêntrico David Walsh. O 'efeito MONA' transformou a cidade, e hoje Hobart combina essa vanguarda cultural com um mercado de sábado imperdível, uma gastronomia baseada nos melhores produtos de clima frio do planeta (ostras, salmão, queijos, uísque, vinhos de clima frio, sidra) e uma natureza selvagem logo ali na esquina.
Este guia percorre Hobart com um olhar prático e curioso: como visitar o MONA (e chegar no seu ferry), como aproveitar o mercado de Salamanca, subir ao monte kunanyi pelas vistas de tirar o fôlego, passear pelo histórico Battery Point e pela orla, conhecer a cervejaria mais antiga da Austrália e usar a cidade como base para passeios a Port Arthur, Bruny Island e à natureza da Tasmânia. É uma cidade pequena de grandes prazeres: arte, história, boa mesa e montanha, tudo às margens de um rio espetacular.
Hobart é território tradicional (Country) do povo muwinina, um dos clãs aborígenes da Tasmânia (palawa), que habitou esta terra por cerca de 35.000 anos e a chamava de nipaluna. A colonização europeia foi precoce e traumática: em 1803 foi fundado um posto em Risdon Cove e, em 1804, o vice-governador David Collins transferiu o assentamento para Sullivans Cove, dando origem a Hobart, a segunda capital mais antiga da Austrália. A cidade cresceu como colônia penal e porto baleeiro, enquanto a chamada 'Guerra Negra' (Black War) e as doenças dizimavam tragicamente a população aborígene da Tasmânia. Nos séculos XX e XXI, Hobart passou de porto tranquilo a capital cultural, sobretudo depois da abertura do museu MONA em 2011. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The island south of the mainland, once Van Diemen's Land: home to one of the most feared penal colonies of the empire and the scene of the tragic Black War against the Palawa people. Today it is a haven of wild nature, with more than a third of its area protected as a World Heritage Site.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de chegar o nome inglês 'Hobart', esta terra de água salgada entre o rio Derwent e a montanha tinha outro nome e outros donos. Ela se chamava, e se chama, nipaluna, na língua reconstruída palawa kani, e era Country do povo muwinina, um dos clãs dos aborígenes da Tasmânia (palawa ou pakana). A ocupação aborígene da Tasmânia é antiquíssima: estima-se que os Primeiros Povos habitem a ilha há cerca de 35.000 anos, desde a época em que a Tasmânia estava ligada ao continente por uma ponte de terra que depois o mar cobriu, deixando-os isolados durante milênios.
Esse longo isolamento fez da cultura aborígene da Tasmânia uma das mais singulares do mundo. Os muwinina e os outros clãs viviam da caça, da pesca e da coleta, deslocando-se conforme as estações por um território que incluía a montanha que hoje chamamos de kunanyi/Mount Wellington, as margens do Derwent e o litoral. Eles tinham uma relação espiritual profunda com a terra, a água e o fogo, e um conhecimento refinado da paisagem que lhes permitiu prosperar no clima frio do extremo sul.
Hoje o nome nipaluna é usado cada vez mais, muitas vezes ao lado do colonial Hobart, como um gesto de reconhecimento aos Primeiros Povos. Instituições, universidades e eventos abrem suas cerimônias com um 'Acknowledgement of Country' que homenageia os muwinina como guardiões tradicionais desta terra. Reconhecer que Hobart foi erguida sobre nipaluna, terra muwinina, é o ponto de partida indispensável para entender sua história com honestidade, inclusive a parte mais dolorosa que viria com a colonização.
A colonização europeia do sul da Tasmânia começou cedo, e seu início foi marcado pela violência. O primeiro assentamento foi estabelecido em 1803 como um acampamento militar em Risdon Cove, na margem leste do rio Derwent. Esse posto precário foi palco, em 3 de maio de 1804, do chamado Massacre de Risdon Cove: soldados, colonos e condenados abriram fogo contra um grupo de 100 a 300 aborígenes que caçavam na região, num dos primeiros episódios de derramamento de sangue da ocupação britânica da ilha.
Nesse mesmo ano de 1804, o capitão David Collins, primeiro vice-governador, concluiu que Risdon Cove não era o melhor lugar e transferiu o assentamento para a margem oeste, um ponto de porto profundo e abrigado chamado Sullivans Cove: onde fica hoje o centro de Hobart. Com ele chegaram também militares, colonos e condenados do assentamento abandonado de Port Phillip (no continente). Collins batizou o novo povoado de 'Hobart Town' (ou 'Hobarton') em homenagem a Lord Hobart, então secretário de Estado britânico para a Guerra e as Colônias.
Hobart nasceu, portanto, como colônia penal, e é a segunda capital mais antiga da Austrália, depois de Sydney. Durante décadas foi o destino de condenados enviados da Grã-Bretanha, cuja mão de obra forçada ergueu boa parte dos prédios de arenito que hoje admiramos em Salamanca, Battery Point e no waterfront. Ao mesmo tempo, seu porto excepcional logo a transformou no principal porto baleeiro do Oceano Austral, com uma indústria que, brutal com as baleias, atraiu navios, dinheiro e aventureiros para o jovem assentamento.
A expansão da colônia trouxe consigo um dos capítulos mais sombrios da história australiana: a chamada 'Guerra Negra' (Black War), um conflito violento entre colonos britânicos e aborígenes da Tasmânia que se estendeu de meados da década de 1820 até 1832. À medida que os colonos ocupavam terras para a pecuária e a agricultura, os aborígenes, expulsos de seu Country e privados de suas fontes de alimento, resistiram. A guerra foi travada em grande parte como uma guerrilha pelos dois lados, com emboscadas, represálias e massacres. Morreram cerca de 200 colonos e entre 600 e 900 aborígenes, números que, somados às doenças trazidas de fora e ao desenraizamento, levaram a população aborígene da Tasmânia à beira da extinção.
Em 1830, o governo colonial chegou a organizar a 'Black Line', uma corrente humana de colonos e soldados que varreu a ilha tentando encurralar os aborígenes restantes. Pouco depois, o funcionário George Augustus Robinson iniciou expedições para convencer os sobreviventes a se renderem, com a promessa de proteção, e acabou exilando-os na ilha Flinders, onde muitos morreram. Uma figura central e trágica desse processo foi Truganini (c. 1812-1876), uma mulher do povo nuenonne de Bruny Island que, ainda adolescente, viu quase todo o seu povo morrer ou se dispersar, atuou como guia de Robinson e, com o tempo, foi descrita (erroneamente) como 'a última aborígene tasmaniana pura'.
É fundamental dizer isso com clareza: os aborígenes da Tasmânia NÃO desapareceram. A ideia de que Truganini foi 'a última' é um mito colonial. A comunidade palawa/pakana sobreviveu, sobretudo por meio de descendentes de mulheres aborígenes e caçadores de focas nas ilhas do estreito de Bass, e hoje é uma comunidade viva e ativa que reivindica seus direitos, recupera sua língua (o palawa kani) e homenageia seus ancestrais. Lembrar a Guerra Negra e Truganini não é se deleitar com a tragédia, e sim reconhecer uma história real que o visitante precisa conhecer para entender a Tasmânia de hoje.
Ao longo do século XIX, Hobart Town se consolidou como capital da colônia de Van Diemen's Land (o antigo nome colonial da Tasmânia, rebatizada de Tasmânia em 1856, em parte para deixar para trás sua fama sombria de terra de condenados). O envio de condenados para a ilha continuou até a década de 1850, e seu legado ficou gravado na pedra: os armazéns de Salamanca, as igrejas, os prédios públicos e as mansões georgianas que fazem de Hobart uma das cidades com melhor patrimônio colonial da Austrália foram construídos em boa parte com trabalho forçado.
A economia girava em torno do porto: a caça de baleias e focas, a exportação de lã, madeira, frutas (a Tasmânia ganhou o apelido de 'Apple Isle' por causa de suas maçãs) e outros produtos. Com o fim do envio de condenados e o esgotamento das baleias, Hobart foi se transformando numa capital provinciana tranquila, um pouco afastada do ritmo frenético das grandes cidades do continente. Durante boa parte do século XX foi vista, até mesmo dentro da Austrália, como um lugar remoto, bonito mas adormecido, mais conhecido pela natureza e pelo patrimônio do que pelo dinamismo.
Essa tranquilidade tinha seu charme: o waterfront com seus barcos de pesca, o mercado de Salamanca (que virou uma instituição), Battery Point com seus cottages, a sombra protetora do monte kunanyi e a chegada, todo fim de ano, da épica regata Sydney-Hobart, cujos veleiros atracam no Constitution Dock em meio a comemorações. Mas faltava a Hobart algo que a colocasse de novo no mapa do mundo. Esse algo chegaria, de forma totalmente inesperada, no século XXI.
A grande transformação da Hobart contemporânea tem data e autor: em 21 de janeiro de 2011 abriu suas portas o MONA (Museum of Old and New Art), o maior museu de financiamento privado do hemisfério sul, criado por David Walsh, um milionário tasmaniano e jogador profissional que fez fortuna com sistemas de apostas. Walsh construiu, escavado na rocha da península de Berriedale, ao lado de sua vinícola Moorilla, um museu subterrâneo e labiríntico para abrigar sua coleção de arte antiga, moderna e contemporânea, deliberadamente provocadora, que ele mesmo descreveu como uma 'Disneylândia subversiva para adultos'.
O impacto foi tão grande que surgiu uma expressão: o 'efeito MONA'. Da noite para o dia, a tranquila e remota Hobart virou um destino artístico internacional, atraindo viajantes do mundo inteiro que vinham especificamente pelo museu. O MONA não mudou só a economia turística da cidade, mas também sua autoestima e sua energia: trouxe festivais como o sombrio e ritualístico Dark Mofo, em pleno inverno (com seu famoso banho nu ao amanhecer do solstício), e o Mona Foma, no verão, e contagiou Hobart com uma cena criativa, gastronômica e de bares que ela não tinha antes.
Hoje Hobart, com cerca de 250.000 habitantes em sua região metropolitana (quase metade da população da Tasmânia), combina o melhor de suas duas almas: a histórica — Salamanca, Battery Point, a cervejaria Cascade de 1824, o patrimônio colonial — e a de vanguarda, encarnada no MONA. Some-se a isso uma gastronomia baseada nos produtos de clima frio mais cobiçados do planeta (ostras, salmão, uísque, queijos, vinhos de clima frio, sidra) e uma natureza selvagem logo ali. E, cada vez mais, um reconhecimento honesto de sua história: a de uma cidade erguida por condenados sobre nipaluna, terra muwinina, cujos Primeiros Povos, longe de terem desaparecido, continuam aqui, reivindicando seu lugar.