Melbourne é a capital cultural da Austrália: uma cidade de vielas (laneways) forradas de arte de rua e cafés especiais, bondes que cruzam avenidas art déco, mercados históricos, uma cena gastronômica e de bares reconhecida no mundo inteiro e uma obsessão por esporte que se vive no mítico MCG. Eleita durante anos uma das cidades mais habitáveis do planeta, tem aquele raro equilíbrio entre metrópole sofisticada e clima descontraído.
Às margens do rio Yarra e da baía de Port Phillip, Melbourne reúne o melhor de vários mundos: a alta cultura da National Gallery of Victoria e de seus teatros, a energia multicultural de bairros como Carlton (a Little Italy), Richmond (Little Saigon) ou Brunswick, os jardins botânicos, a praia e as casinhas de banho coloridas de St Kilda, e uma vida noturna e de cafés que ditou tendências. É a cidade do brunch, do flat white e dos rooftops.
Com uma história que vai da nação kulin e do povo wurundjeri à corrida do ouro que a transformou na 'Marvellous Melbourne' vitoriana — uma das cidades mais ricas do mundo no século XIX —, Melbourne é ideal para caminhar, descobrir laneways escondidas, sentar num café e usar como base para explorar a Great Ocean Road, a península de Mornington ou as vinícolas do vale do Yarra.
O território de Melbourne é terra da nação kulin, em particular do povo wurundjeri (woi wurrung), que o habitou por dezenas de milhares de anos em torno do rio que chamavam de Birrarung (o Yarra). Em 1835, o colono John Batman firmou com anciãos aborígenes um 'tratado' pela terra que as autoridades britânicas declararam nulo, mas que marcou o início da ocupação europeia; a cidade foi fundada naquele ano e recebeu o nome de Melbourne em 1837. A corrida do ouro de Victoria, a partir de 1851, a transformou de repente em uma das cidades mais ricas do mundo, a 'Marvellous Melbourne' dos grandes edifícios vitorianos. Foi inclusive a primeira capital da Austrália federada (1901-1927). A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The smallest state on the mainland and the richest during the gold rush: land of the Kulin nations, colonised from 1835 around Melbourne, transformed by the gold of Ballarat and Bendigo and by the Eureka rebellion of 1854, seen as the cradle of Australian democracy.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes dos bondes e dos arranha-céus, o vale onde hoje se estende Melbourne era o lar da nação kulin, uma aliança de vários povos aborígenes que habitavam essa região do sudeste da Austrália. Seus ancestrais viviam aqui havia, segundo as estimativas, entre 31.000 e 40.000 anos. Na área da atual Melbourne conviviam principalmente o povo wurundjeri (woi wurrung), junto com os boonwurrung (bunurong) e os wathaurong, cada um com seu território, sua língua e suas responsabilidades sobre a terra.
O coração da vida wurundjeri era o rio que hoje chamamos de Yarra e que eles conheciam como Birrarung, 'o rio das brumas e das sombras'. Em suas águas pescavam, em suas margens acampavam e, ao longo de seus meandros, celebravam cerimônias que honravam a terra e os ancestrais. O rio, as áreas alagadas da baía de Port Phillip e as planícies ao redor forneciam enguias, peixes, aves, plantas e raízes em abundância. Como em toda a Austrália, isso não era uma simples paisagem, mas sim Country: uma trama viva de lugares sagrados, histórias do Dreaming, leis e laços de parentesco.
A nação kulin tinha uma organização social e territorial complexa, com grandes encontros intertribais para trocas, cerimônias e resolução de conflitos. Os wurundjeri, guardiões das terras do Yarra, tinham entre os Wurundjeri-willam figuras de autoridade reconhecidas. Todo esse mundo, tecido ao longo de milênios, estava prestes a ser completamente transformado com a chegada dos colonos europeus na década de 1830. Hoje, os wurundjeri continuam sendo reconhecidos como os guardiões tradicionais do lugar, e sua presença é honrada em cada 'Welcome to Country' da cidade.
A chegada europeia a Melbourne tem uma data e um episódio tão concretos quanto polêmicos. Em 6 de junho de 1835, John Batman, membro de um consórcio de negócios da Tasmânia chamado Port Phillip Association, assinou um 'tratado' com oito anciãos wurundjeri pelo qual afirmava ter 'comprado' cerca de 600.000 acres de terra ao redor da atual Melbourne (e outros 100.000 perto de Geelong), em troca de cobertores, machados, facas, farinha e outros bens. Batman chegou a escrever em seu diário a frase que ficaria famosa: 'Este será o lugar para um vilarejo'.
O chamado 'tratado de Batman' é único na história colonial australiana: foi a única tentativa documentada de um colono de negociar formalmente a terra com os povos aborígenes, em vez de simplesmente tomá-la. Mas foi um acordo profundamente desigual e, para os wurundjeri, incompreensível: em sua visão de mundo, a terra não podia ser comprada nem vendida, e provavelmente eles entenderam a cerimônia como um rito de boas-vindas temporário (tanderrum), e não como uma cessão de propriedade. O governo de Nova Gales do Sul, que na época governava todo o leste do continente, anulou o tratado em 26 de agosto de 1835, declarando que toda a terra pertencia à Coroa.
A anulação, porém, não freou a colonização: apenas a colocou sob controle oficial. O assentamento às margens do Yarra cresceu rapidamente e, em 1837, recebeu o nome de Melbourne, em homenagem a William Lamb, visconde de Melbourne, então primeiro-ministro britânico. Para os povos kulin, por outro lado, a fundação da cidade significou o início de uma catástrofe: a perda acelerada de suas terras, a ruptura de seu modo de vida e a devastação causada pelas doenças trazidas de fora. A população aborígene da atual Victoria, estimada em menos de 20.000 pessoas no momento da colonização, despencaria nas décadas seguintes.
O destino de Melbourne mudou para sempre em 1851. Em julho daquele ano, após a pressão dos colonos de Port Phillip, Victoria se separou de Nova Gales do Sul e se tornou uma colônia própria. Poucas semanas depois, foi descoberto ouro nas vizinhas Ballarat e Bendigo, desencadeando uma das maiores corridas do ouro da história mundial. A notícia correu o planeta e provocou uma avalanche humana: caçadores de fortuna da Grã-Bretanha, da Irlanda, da Europa continental, dos Estados Unidos e da China chegaram às dezenas de milhares pelo porto de Melbourne.
O efeito sobre a cidade foi explosivo. Em 1850, a colônia de Victoria tinha cerca de 23.000 pessoas; em 1860, esse número havia subido para cerca de 700.000. Melbourne se transformou quase da noite para o dia em uma metrópole vibrante e multicultural, porta de entrada e centro de abastecimento das minas. A riqueza do ouro financiou uma expansão urbana gigantesca: foram erguidos grandes edifícios comerciais, bancos, hotéis suntuosos, os famosos 'coffee palaces', mansões e quilômetros de casas vitorianas com ferro forjado, além de parques, universidades e uma rede de bondes.
Em 1885, o jornalista inglês George Augustus Sala cunhou a expressão que definiria a cidade: 'Marvellous Melbourne', a Melbourne maravilhosa. Durante a década de 1880, Melbourne chegou a ser uma das cidades mais ricas do mundo, comparada às grandes capitais europeias por sua opulência, sua energia e sua modernidade. Boa parte do centro histórico que os visitantes admiram hoje — as grandes galerias, os edifícios ornamentados, os teatros — data dessa época dourada. O boom terminou de repente com o colapso financeiro da década de 1890, mas a 'Marvellous Melbourne' deixou gravadas para sempre a escala e o estilo da cidade.
O prestígio acumulado na era do ouro deu a Melbourne um papel de protagonista no nascimento da Austrália moderna. Quando as seis colônias australianas se uniram na Federação em 1º de janeiro de 1901, formando a Commonwealth da Austrália, Melbourne foi escolhida como sede provisória do governo nacional. O primeiro parlamento federal se reuniu em 9 de maio de 1901 no imponente Royal Exhibition Building — hoje Patrimônio da Humanidade — e depois funcionou no Parliament House de Victoria. Melbourne foi a capital de fato da Austrália até 1927, quando o governo se mudou para a recém-construída Canberra, a cidade de meio-termo entre as eternas rivais Melbourne e Sydney.
Ao longo do século XX, Melbourne foi se reinventando. Recebeu sucessivas ondas de imigrantes que lhe deram seu caráter profundamente multicultural: italianos e gregos depois da Segunda Guerra Mundial (Melbourne chegou a ter uma das maiores populações gregas fora da Grécia), vietnamitas, chineses, pessoas do Oriente Médio, da África e do sul da Ásia. Cada comunidade deixou sua marca nos bairros, na comida e na vida da cidade: a Lygon Street italiana de Carlton, a Victoria Street vietnamita de Richmond, a Sydney Road de Brunswick. Os Jogos Olímpicos de 1956, os primeiros do hemisfério sul, foram outro marco.
De tudo isso surgiu a Melbourne contemporânea: uma cidade que se orgulha de ser a capital cultural, gastronômica e esportiva da Austrália. A cidade dos laneways e da arte de rua, da cultura do café que exportou tendências para o mundo, da National Gallery of Victoria e dos grandes festivais, do MCG e do Australian Open, eleita durante anos como uma das mais habitáveis do planeta. Percorrer Melbourne é atravessar todas essas camadas ao mesmo tempo: o Birrarung da nação kulin, o polêmico tratado de Batman, o esplendor vitoriano do ouro, a capital federal e a metrópole multicultural e criativa de hoje, sempre com o rio Yarra — o velho Birrarung — cortando seu coração.