Broken Hill é a cidade mais lendária do outback de Nova Gales do Sul: a 'Silver City', nascida em 1883 sobre uma das jazidas de prata, chumbo e zinco mais ricas do mundo, e berço da BHP, hoje uma das maiores mineradoras do planeta. Plantada no meio do deserto vermelho, a mais de mil quilômetros de Sydney e mais perto de Adelaide, é um lugar único: uma cidade industrial de ruas largas e pubs históricos cercada pela imensidão do outback.
Em 2015, depois de uma década de campanha, ela se tornou a primeira cidade inteira da Austrália declarada patrimônio nacional, um reconhecimento à sua arquitetura mineira, à sua história operária e ao seu papel na identidade do país. Broken Hill combina esse passado de mineiros e sindicatos poderosos com uma vida artística surpreendente: galerias por toda parte, o legado do pintor Pro Hart e as famosas esculturas do Living Desert recortadas contra o pôr do sol do deserto.
Soma-se a isso a fama de cenário de cinema: as paisagens lunares das Barrier Ranges e a cidade fantasma de Silverton, a meia hora dali, serviram de set para filmes como Mad Max 2, Priscilla, a Rainha do Deserto e Missão Impossível II. Visitar Broken Hill é mergulhar de cabeça no coração do outback australiano, com sua luz vermelha, seus pores do sol infinitos e uma história intensa que vai dos wilyakali à grande mineração.
A terra de Broken Hill é território wilyakali, povo aborígene que habitou estas planícies áridas por milênios. Em 1883, o vaqueiro de cercas Charles Rasp encontrou numa 'colina quebrada' o que achou que fosse estanho e acabou sendo prata e chumbo: era a maior e mais rica jazida de prata-chumbo-zinco do mundo. Em 1885, Rasp e seis sócios (o 'Sindicato dos Sete') fundaram a Broken Hill Proprietary Company (BHP), que se tornaria a maior empresa da Austrália. A cidade cresceu no ritmo da mina, com condições duríssimas que deram origem a um movimento sindical poderosíssimo, coroado em 1923 pelo Barrier Industrial Council. Em 2015 foi declarada a primeira cidade patrimonial da Austrália. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The birthplace of modern Australia: the First Fleet landed at Sydney Cove in 1788, on the lands of the Eora people. The country's most populous state and home to Sydney and its Opera House, it was the trunk from which all the other colonies branched off and the setting for the first gold rush.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de existir uma 'colina quebrada' nos mapas dos mineiros, estas planícies vermelhas do oeste de Nova Gales do Sul eram, e continuam sendo, terra aborígene. A cidade de Broken Hill fica sobre as terras tradicionais do povo wilyakali, um dos grupos das Barrier Ranges, numa região semidesértica que à primeira vista parece hostil, mas que seus habitantes conheciam intimamente. Durante milênios, eles souberam ler essa paisagem árida: onde encontrar água em poços escondidos e rios efêmeros, quais plantas e animais aproveitar conforme a estação e como se deslocar por um território imenso seguindo rotas ancestrais.
Como em toda a Austrália, a terra não era um simples recurso, mas sim Country: uma trama de locais sagrados, histórias do Dreaming e responsabilidades transmitidas de geração em geração. Os desfiladeiros, os afloramentos rochosos e os poços de água permanente eram lugares de encontro e de cerimônia. Um testemunho extraordinário dessa presença milenar está preservado hoje no vizinho Parque Nacional Mutawintji, um oásis de cânions vermelhos que foi, durante milhares de anos, ponto de encontro dos povos da região e que guarda um dos conjuntos de arte rupestre e gravuras mais importantes do estado.
A chegada dos colonos europeus, primeiro com suas ovelhas nas grandes fazendas do interior e depois com a explosão da mineração, virou esse mundo de cabeça para baixo. A ocupação da terra, a perda do acesso à água e aos recursos e as doenças trazidas de fora atingiram duramente os wilyakali e os povos vizinhos. Mas a conexão com o Country não se rompeu: hoje, os guias aborígenes da região compartilham essa herança em lugares como Mutawintji, lembrando que a história de Broken Hill não começa com Charles Rasp, mas milhares de anos antes.
A história moderna de Broken Hill começa com um erro afortunado. Em 1883, Charles Rasp, um vaqueiro de cercas (boundary rider) que patrulhava a cavalo os limites de uma grande fazenda de ovelhas, deu de cara com uma curiosa formação rochosa que o pessoal chamava de 'the broken hill' (a colina quebrada), por causa do seu perfil recortado. Rasp achou que aquela rocha escura continha estanho e coletou amostras. As análises revelaram algo muito melhor: prata e chumbo. O que ele tinha encontrado, sem saber, era a ponta visível da maior e mais rica jazida de prata, chumbo e zinco já descoberta no mundo.
Rasp não ficou sozinho com a descoberta. Junto com outros seis homens — trabalhadores e funcionários da mesma fazenda —, formou um sindicato para registrar e explorar o veio, o grupo que a história lembraria como o 'Sindicato dos Sete' (Syndicate of Seven). No começo não foi fácil: as primeiras amostras eram pobres e a aventura parecia fadada ao fracasso. A sorte mudou no início de 1885, quando um dos sócios, Philip Charley, descobriu o primeiro depósito significativo de prata de altíssimo teor na propriedade. De repente, aquela colina desprezada se tornou uma das minas mais valiosas do planeta.
Nesse mesmo ano, 1885, o sindicato virou empresa: a Broken Hill Proprietary Company Limited, mais conhecida pela sigla BHP. A companhia cresceria até se tornar a maior empresa da Austrália e uma das maiores mineradoras do mundo, com operações em todos os continentes. Ao redor da mina brotou, quase do nada e numa velocidade vertiginosa, uma cidade em pleno deserto: Broken Hill, a 'Silver City', que em poucas décadas passou de um punhado de barracas a uma cidade de dezenas de milhares de habitantes, com ruas largas traçadas para os carros de boi e hotéis imponentes da época de ouro.
A riqueza de Broken Hill foi construída a um custo humano enorme, e desse sofrimento nasceu um dos movimentos operários mais fortes da história australiana. Trabalhar no subsolo das minas de chumbo era perigosíssimo: a poeira tóxica causava envenenamento por chumbo e doenças pulmonares como a pneumoconiose e a silicose, enquanto os desabamentos rondavam galerias mal escavadas. As condições de vida na cidade, em pleno deserto e com pouca água, somavam epidemias como a febre tifoide. Mais de 800 mineiros morreram ao longo da história em acidentes e doenças ligadas à mina.
Os trabalhadores responderam se organizando. Entre 1889 e 1920, Broken Hill viveu pelo menos quatro grandes conflitos que se tornaram lendários na história do trabalho na Austrália. A greve de 1892 — dezesseis semanas de conflito em meio ao medo do chumbo e do tifo — e o brutal lockout de 1909 contra a BHP marcaram a ferro a comunidade. O ponto culminante foi a 'Grande Greve' (Big Strike), que paralisou as minas entre maio de 1919 e novembro de 1920: os mineiros exigiam uma semana de trabalho mais curta, condições seguras no subsolo e indenização pelas doenças respiratórias.
Aquela luta deu frutos históricos. A Grande Greve conquistou uma jornada de trabalho reduzida e, sobretudo, a indenização por envenenamento por chumbo e silicose, um avanço pioneiro em direitos trabalhistas. Em paralelo, a Comissão Chapman (1919-1921) investigou a fundo a prevalência das doenças pulmonares entre os mineiros e documentou cientificamente o dano. Em 1923 foi fundado o Barrier Industrial Council, uma federação de 18 sindicatos que se tornaria uma das organizações mais influentes da cidade: durante décadas, controlou praticamente todos os aspectos da vida profissional de Broken Hill, impondo condições que fizeram da cidade um bastião sindical único no país.
Com o passar do século XX, Broken Hill virou muito mais do que uma mina: tornou-se um símbolo cultural. Surpreendentemente para uma cidade operária no deserto, floresceu aqui uma cena artística notável. Sua figura mais querida foi Kevin 'Pro' Hart, um ex-mineiro que se transformou num dos pintores mais populares da Austrália, retratando a vida do outback e dos trabalhadores com cores vibrantes. Nos anos 70 e 80, o coletivo 'Brushmen of the Bush' levou a pintura do deserto à fama nacional e internacional, e hoje a cidade está repleta de galerias e ateliês.
Essa mesma paisagem — planícies infinitas, luz vermelha, estradas retas até o horizonte e a vila semifantasma de Silverton, a 25 km — transformou a região num set de cinema natural. Por aqui passaram produções como Mad Max 2 (A Caçada Continua), Priscilla, a Rainha do Deserto, Razorback e Missão: Impossível 2. O Palace Hotel, com seus murais exuberantes, ficou imortalizado como 'a casa de Priscilla' e hoje é um ícone reconhecido da cultura LGBTQIA+ australiana. As esculturas do Living Desert, talhadas em 1993 por artistas do mundo todo e recortadas contra o pôr do sol, completam essa identidade criativa.
A mineração não desapareceu — a jazida continua ativa mais de 140 anos depois de Rasp, uma das de vida mais longa do mundo —, mas a cidade soube diversificar sua alma. O reconhecimento definitivo chegou em 2015, quando, depois de uma campanha de uma década, Broken Hill se tornou a primeira cidade inteira da Austrália inscrita na Lista de Patrimônio Nacional, por sua arquitetura, sua história de mineração e seu papel na formação da identidade do país.
Visitar Broken Hill hoje é percorrer todas essas camadas ao mesmo tempo: a terra wilyakali milenar, o erro afortunado de Charles Rasp, o nascimento da BHP, as lutas dos mineiros que conquistaram direitos para o país inteiro, a arte do deserto e os pores do sol de cinema. No meio do outback mais remoto, a Silver City continua sendo uma das histórias mais fascinantes da Austrália.