Akaroa é o vilarejo mais encantador e peculiar de Canterbury: um porto natural de águas mansas encaixado na cratera de um vulcão extinto, com ruas que se chamam Rue Lavaud ou Rue Jolie e casinhas de madeira coloridas de frente para o mar. É a única colônia francesa que chegou a se estabelecer na Nova Zelândia e, embora a história tenha terminado sob bandeira britânica, o ar francês — as bandeiras tricolores, as boulangeries, os nomes das ruas — continua sendo sua marca registrada. A apenas uma hora e meia de Christchurch, é a escapada de fim de semana favorita dos moradores de Canterbury.
A grande atração do vilarejo está na água: o porto de Akaroa é um dos melhores lugares do mundo para ver o golfinho-de-Hector, o menor e mais raro golfinho marinho do planeta, endêmico da Nova Zelândia. Os cruzeiros de natureza saem do píer e, em duas horas, levam você para ver esses golfinhos, além de focas, pinguins-de-nadadeira-branca e as espetaculares paredes vulcânicas e cavernas marinhas do porto. Segundo muitos rankings, é a atividade de fauna número um do país.
Akaroa fica em Onawe e nas terras de Ōnuku, coração do território de Ngāi Tahu, o principal iwi (povo) da Ilha Sul. Foi justamente em Ōnuku, a poucos quilômetros do vilarejo, que em maio de 1840 o Tratado de Waitangi foi assinado pela primeira vez na Ilha Sul. Entre a história maori, o episódio francês e a paisagem vulcânica salpicada de baías escondidas, Akaroa combina como poucos lugares um vilarejo pitoresco, boa comida e uma das melhores experiências de vida selvagem marinha da Oceania.
Akaroa se ergue em Whangaroa, um porto que é a cratera inundada de um vulcão extinto, em terras do povo Ngāi Tahu, cujo pā de Takapūneke foi palco de um massacre em 1830. Em 1838, o baleeiro francês Jean-François Langlois comprou terras de chefes kāi tahu com a ideia de fundar uma colônia francesa; quando os colonos do Comte de Paris chegaram em 1840, a Coroa britânica já havia proclamado soberania sobre toda a Nova Zelândia após o Tratado de Waitangi — assinado na vizinha Ōnuku naquele mesmo ano. Akaroa ficou britânica, mas sua alma francesa perdura. A história completa, do Sonho de Ngāi Tahu à corrida anglo-francesa, está na página de história.
Ler a história completa ↓The great plain of the South Island, settled by the Anglican “Canterbury Pilgrims” in 1850 around Christchurch, “the garden city”. Land of Ngāi Tahu, of the roof of the country (Aoraki/Mount Cook) and of the dark skies of Tekapo, marked by the devastating earthquakes of 2010-2011.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes das ruas com nomes franceses, antes das bandeiras tricolores e dos passeios de barco para ver golfinhos, este porto em forma de ferradura (uma cratera vulcânica inundada pelo mar) tinha outro nome e outros donos. Os maoris o chamavam de Whangaroa, 'o porto longo', e toda a península de Banks era Te Pātaka o Rākaihautū, 'a despensa de Rākaihautū'. O nome homenageia o lendário ancestral que, segundo a tradição, explorou a Ilha Sul cavando seus lagos com um ko (bastão de cavar) gigante.
A península é um vulcão duplo extinto com mais de oito milhões de anos. Suas duas crateras principais afundaram e se encheram de mar, formando os portos de Akaroa e Lyttelton. As encostas férteis, as baías protegidas e as águas ricas em peixes e frutos do mar fizeram dela um lugar habitado durante séculos. Ondas sucessivas de povos maoris a ocuparam: primeiro os Waitaha, depois os Kāti Māmoe e, por fim, os Ngāi Tahu, o iwi que até hoje é tangata whenua (povo da terra) de quase toda a Ilha Sul.
Para os Ngāi Tahu, a península de Banks era um território central. Havia aldeias de pesca e cultivo nas baías, áreas de coleta de mahinga kai (recursos alimentares), rotas de troca e pā (fortes) no alto dos promontórios. O porto de Akaroa, abrigado e farto, era um lugar de vida. Essa presença profunda, de gerações entrelaçadas com a paisagem vulcânica e o mar, é a primeira camada da história de Akaroa. Ela já estava ali muito antes de qualquer europeu olhar para a cratera e achá-la pitoresca.
A história de Akaroa tem um episódio sombrio e decisivo. Ele aconteceu antes da chegada de qualquer colono europeu e ajudou a mudar o destino de toda a Nova Zelândia. No começo do século XIX, a chegada de baleeiros e comerciantes europeus, e com eles do mosquete, transformou as guerras entre os iwi. Em 1830, o chefe ngāti toa Te Rauparaha, senhor da guerra do estreito de Cook que devastava o sul com as novas armas de fogo, decidiu atacar a aldeia kāi tahu de Takapūneke, ao lado da atual Akaroa.
Te Rauparaha convenceu, ou coagiu, John Stewart, capitão do bergantim britânico Elizabeth, a levá-lo em segredo até o porto com seus guerreiros escondidos sob o convés. O chefe kāi tahu local, Te Maiharanui, foi atraído a bordo com mentiras e capturado. A aldeia de Takapūneke foi atacada de surpresa e arrasada. Foi um massacre. O episódio causou escândalo em Sydney e em Londres, porque um navio e um capitão britânicos tinham sido cúmplices de uma matança entre maoris.
O 'caso Elizabeth' foi um dos fatores que levaram a Coroa britânica a intervir formalmente na Nova Zelândia para pôr ordem no caos da fronteira. Ficou claro que os súditos britânicos agiam sem lei e que faltava uma autoridade. Dez anos depois, essa lógica desembocaria no Tratado de Waitangi. Hoje Takapūneke é uma reserva e um lugar de memória. Ela lembra que a história de Akaroa começa com uma tragédia maori, e não com um cartão-postal francês.
Em 1838, um baleeiro francês chamado Jean-François Langlois olhou para o porto de Akaroa e viu uma oportunidade. Ele precisava de uma base para reabastecer os navios baleeiros que trabalhavam nas águas do sul e achou que aquela cratera abrigada era o lugar ideal. Langlois assinou um acordo provisório com doze chefes kāi tahu para comprar boa parte da península de Banks. Deixou um sinal em mercadorias e prometeu pagar o resto mais tarde. Com esse 'título' nas mãos, voltou à França em busca de apoio.
Em novembro de 1839 foi criada na França a Compagnie Nanto-Bordelaise. O objetivo era fazer de Akaroa o núcleo de uma colônia francesa em Te Waipounamu, a Ilha Sul, que chegou a ter planos de ligação com uma colônia penal nas ilhas Chatham. O governo do rei Luís Filipe apoiou o projeto e enviou um navio de guerra, o L'Aube, para proteger os futuros colonos. Em março de 1840, o navio Comte de Paris zarpou de Rochefort com cerca de 63 colonos franceses e alguns alemães. Eles iam até o outro lado do mundo para fundar a França do Pacífico Sul.
Era um sonho ambicioso e, sem que os colonos soubessem, já estava condenado. Enquanto o Comte de Paris atravessava oceanos, aconteciam no norte da Nova Zelândia os fatos que selariam o destino de Akaroa. Em 6 de fevereiro de 1840, na Baía das Ilhas, foi assinado o Tratado de Waitangi entre a Coroa britânica e vários chefes maoris. Os franceses navegavam rumo a uma colônia que, quando chegassem, já não poderia ser francesa.
O desfecho teve ares de romance de aventura. Em maio de 1840, o vice-governador William Hobson proclamou a soberania britânica sobre toda a Nova Zelândia: sobre a Ilha Norte por cessão, via Tratado, e sobre a Ilha Sul e a Stewart Island por 'descoberta'. Quando se soube em Akaroa que um navio de guerra francês, o L'Aube, escoltava colonos rumo à península, as autoridades britânicas agiram rápido para garantir a Ilha Sul. Em 30 de maio de 1840, em Ōnuku, ao lado de Akaroa, os chefes kāi tahu Iwikau e Hōne Tikao assinaram o Tratado de Waitangi. Foi a primeira assinatura do Tratado na Ilha Sul.
Da Baía das Ilhas partiu o navio britânico HMS Britomart, com a missão de chegar a Akaroa antes dos franceses e hastear a bandeira. O Britomart entrou no porto em 10 de agosto de 1840. Seus oficiais realizaram uma audiência judicial em terra, um gesto formal para afirmar a jurisdição britânica, dias antes da chegada dos colonos franceses do Comte de Paris, em 18 de agosto. A 'corrida até Akaroa' estava decidida: quando os franceses desembarcaram, a Union Jack já tremulava.
A lenda popular exagerou o drama, porque não houve uma perseguição a vela palmo a palmo. Mas o resultado foi real: Akaroa nunca seria uma colônia francesa. Mesmo assim, os colonos ficaram. Em vez de expulsá-los, a Coroa britânica permitiu que se estabelecessem. Eles plantaram vinhas, nogueiras e jardins, construíram cottages e batizaram as ruas de Rue Lavaud, Rue Jolie e Rue Balguerie. No meio de uma Nova Zelândia cada vez mais britânica, floresceu um pequeno enclave com sotaque francês que nunca desapareceu por completo.
A Akaroa de hoje vive dessa mistura única. As bandeiras tricolores, os nomes das ruas, as boulangeries e o Festival Francês, que acontece a cada dois anos, mantêm viva a memória do sonho colonial francês. Ele virou atração turística e motivo de orgulho para a cidadezinha. Akaroa é um dos passeios preferidos a partir de Christchurch, com casinhas coloridas de frente para o porto, boa comida, passeios de barco para ver a fauna e um ar pitoresco que atrai viajantes do mundo inteiro. Muitos deles chegam nos grandes cruzeiros que ancoram no porto.
Mas a história mais profunda, e a mais reconhecida nas últimas décadas, é a dos Ngāi Tahu. O acordo de reparação (settlement) dos Ngāi Tahu, de 1998, é um dos grandes acordos ligados ao Tribunal de Waitangi. Ele reconheceu as injustiças históricas sofridas pelo iwi em toda a Ilha Sul, incluindo as da península de Banks. Hoje Ōnuku continua sendo um marae vivo e o lugar da primeira assinatura do Tratado no sul. Takapūneke é uma reserva de memória, e muitos nomes e relatos kāi tahu voltaram a aparecer na paisagem. A 'despensa de Rākaihautū' recupera sua voz.
Caminhar por Akaroa hoje é ler todas essas camadas ao mesmo tempo. Há a cratera vulcânica e o mar que atraíram os Ngāi Tahu, e a tragédia de Takapūneke que ajudou a trazer a Coroa. Há a corrida anglo-francesa que definiu sob qual bandeira a cidade cresceria. E há o dia a dia de um porto onde convivem o golfinho-de-hector, os cottages coloniais e um chá com croissant de frente para a água. Poucos lugares tão pequenos reúnem tanta história, maori, francesa e britânica, numa paisagem tão bonita.