Salinas de Guaranda (oficialmente paróquia de Salinas, no cantão de Guaranda, província de Bolívar) é um povoado andino encravado a cerca de 3.550 metros de altitude que ficou famoso em todo o Equador por um motivo singular: seu bem-sucedido modelo de economia solidária. A partir da década de 1970, seus moradores — antes muito pobres e dedicados à exploração de minas de sal — organizaram dezenas de cooperativas e microempresas comunitárias que hoje produzem queijos, chocolates, embutidos, tecidos de lã e outros produtos artesanais reconhecidos em todo o país.
O nome do povoado vem justamente dessas antigas minas de sal (as salinas), que durante séculos foram o principal sustento da região. A transformação de Salinas em referência do cooperativismo e do comércio justo, impulsionada pela comunidade com apoio da Igreja e de cooperantes, é uma história inspiradora que atrai visitantes interessados em turismo rural, comunitário e solidário.
Este guia percorre o essencial de Salinas: a visita às fábricas comunitárias (a queijaria, a fábrica de chocolate, a de embutidos, as oficinas de tecelagem), as antigas minas de sal, as paisagens de páramo e montanha dos arredores, e como chegar a partir de Guaranda para conhecer de perto um dos projetos de desenvolvimento comunitário mais emblemáticos do Equador.
Durante séculos, os moradores de Salinas viveram da exploração de minas de sal em condições de grande pobreza e dependência de latifundiários. No começo da década de 1970, com o impulso do padre salesiano Antonio Polo e de voluntários e cooperantes (entre eles italianos da Operazione Mato Grosso), a comunidade iniciou um processo de organização cooperativa que transformou a economia local: em 1978 nasceu a primeira queijaria, com apoio técnico suíço, e depois vieram a fábrica de chocolate, a de embutidos e dezenas de microempresas comunitárias. Hoje Salinas, com a marca El Salinerito, é um modelo nacional e internacional de economia solidária. A versão completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The central highland province of Guaranda, the 'City of the Seven Hills': land of the Chimbo and the Waranka at the foot of Chimborazo, of the most traditional carnival in Ecuador with its Taita Carnaval and its Pájaro Azul, and of the town of Salinas, a world model of solidarity economy under the El Salinerito brand.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Hoje Salinas de Guaranda é sinônimo de queijos e chocolates vendidos em todo o Equador, mas há meio século era exatamente o contrário: um dos povoados mais pobres e esquecidos do país. Durante séculos, sua vida girou em torno de um único recurso, o mesmo que lhe deu o nome: o sal. Nessa paróquia andina isolada da província de Bolívar, a cerca de 3.500 metros de altitude, brotavam nascentes de água salgada das quais os moradores extraíam sal por meio de um trabalhoso processo de evaporação. Essas salinas eram o principal sustento da comunidade.
No entanto, a exploração do sal não se traduzia em bem-estar. Pelo contrário: durante muito tempo Salinas foi um dos lugares mais pobres e esquecidos do Equador. A terra e as minas pertenciam em boa parte a poucas pessoas, e a população indígena e camponesa trabalhava em condições muito precárias e de dependência, com altos índices de analfabetismo, desnutrição e mortalidade infantil. O sal, paradoxalmente, era ao mesmo tempo a riqueza do lugar e o símbolo da sua miséria.
Esse ponto de partida — um povoado de altitude, frio, isolado e empobrecido, preso à exploração do sal — é essencial para entender o tamanho da transformação que viria depois. A história de Salinas é, antes de tudo, a história de como uma comunidade mergulhada na pobreza conseguiu mudar seu destino por meio da organização coletiva.
A grande virada na história de Salinas começou no início da década de 1970, com a chegada de um missionário salesiano de origem italiana, o padre Antonio Polo, e o apoio de voluntários e cooperantes. Em vez de se limitar à assistência, a proposta foi estimular a organização da própria comunidade para que ela assumisse seu desenvolvimento econômico, com base nos princípios do cooperativismo e da economia solidária.
Os primeiros passos foram a criação de uma cooperativa de poupança e crédito e, sobretudo, a instalação de uma pequena queijaria comunitária, que aproveitava o leite da região para produzir queijos de qualidade. Essa queijaria pioneira mostrou que a organização coletiva podia gerar renda e emprego de forma sustentável, e virou a semente de todo o modelo. A partir dela, foram surgindo novas microempresas comunitárias: chocolateria, embutidos, fiações e têxteis de lã, desidratadoras, geleias e muito mais.
A chave do modelo foi que a propriedade e os lucros ficassem nas mãos da comunidade, organizada em cooperativas e grupos, em vez de se concentrarem em poucos donos. A educação, a capacitação e o reinvestimento dos lucros na própria comunidade permitiram romper o ciclo da pobreza. Em poucas décadas, Salinas deixou de ser um povoado miserável das minas de sal para se tornar um conglomerado dinâmico de empresas solidárias, sob a marca guarda-chuva 'El Salinerito'.
A consolidação do modelo de Salinas não teria sido possível sem uma rede de apoio técnico e solidário que se somou à organização da própria comunidade. A cooperação internacional teve um papel decisivo, em especial a suíça: técnicos queijeiros vindos da Suíça ensinaram os moradores a fazer queijos maturados de estilo europeu, o que permitiu um salto de qualidade e a abertura de mercados nas cidades do país. A primeira queijaria comunitária, instalada por volta de 1978, foi o modelo depois replicado em dezenas de comunidades da serra equatoriana.
A essa cooperação se juntaram voluntários italianos ligados à Operazione Mato Grosso e à família salesiana, além de organizações de comércio justo que ajudaram a colocar os produtos de Salinas nos mercados nacional e internacional. Com o tempo, as diferentes atividades foram reunidas em organizações de segundo grau — como a Fundación Familia Salesiana Salinas, a cooperativa de produção e a corporação que agrupa as microempresas — sob a marca guarda-chuva 'El Salinerito'.
Essa estrutura institucional foi fundamental para que o modelo não dependesse de uma única pessoa nem de ajuda externa permanente. A capacitação constante, o reinvestimento dos lucros e a criação de uma identidade de marca própria permitiram que Salinas passasse de experimento local a referência replicada em boa parte do Equador rural, exportando não só queijos e chocolates, mas também uma metodologia de desenvolvimento comunitário.
Hoje Salinas de Guaranda é citada no Equador e além como um dos exemplos mais bem-sucedidos de desenvolvimento comunitário e economia solidária da América Latina. Seus produtos — principalmente os queijos maturados, os chocolates, os embutidos e os têxteis de lã — são vendidos em todo o país e ganharam reconhecimento pela qualidade. O conjunto de microempresas emprega boa parte da população e permitiu elevar de forma notável o padrão de vida, a educação e a saúde da comunidade.
Esse sucesso transformou o próprio povoado em um destino de turismo rural e comunitário. Cada vez mais visitantes — estudantes, pesquisadores, viajantes, delegações — chegam a Salinas para conhecer de perto como o modelo funciona, percorrer as fábricas, ver os processos de produção, comprar os produtos e aprender com uma experiência que já foi estudada como caso de desenvolvimento. Assim, a comunidade montou uma oferta turística que inclui passeios guiados, hospedagem e gastronomia.
A história de Salinas vai além do econômico: é um relato sobre dignidade, organização e esperança, sobre como uma comunidade conseguiu transformar sua realidade sem esperar soluções de fora. Para o viajante, visitar Salinas não é só conhecer um povoado bonito de páramo, mas se aproximar de uma experiência humana inspiradora, onde o sal de outros tempos deu lugar ao queijo, ao chocolate e à lã de um futuro construído em conjunto.
O sucesso de Salinas não significa que sua história esteja livre de desafios. Como toda experiência de economia solidária, o modelo enfrenta tensões próprias do crescimento: a concorrência de produtos industriais mais baratos, a necessidade de manter a qualidade e a segurança alimentar para competir em mercados exigentes, a renovação de gerações na liderança das cooperativas e o risco de que o sucesso comercial dilua o espírito comunitário original. Manter o equilíbrio entre ser empresas competitivas e continuar sendo organizações solidárias é um desafio permanente.
A partida ou a aposentadoria de figuras fundadoras, como o próprio padre Antonio Polo — que dedicou décadas ao projeto —, levanta ainda a pergunta de como sustentar o modelo ao longo do tempo sem depender de pessoas específicas. A resposta de Salinas tem sido apostar na institucionalidade, na formação de novas lideranças locais e na diversificação das atividades, incluindo o turismo comunitário, que traz renda e divulga a experiência.
Além dos números, o legado de Salinas é sobretudo simbólico. Sua história mostrou que uma comunidade rural andina, partindo da pobreza extrema e da exploração do sal, podia construir coletivamente um futuro digno. Esse relato de organização, dignidade e esperança fez de Salinas uma referência estudada por universidades, governos e organizações de desenvolvimento do mundo todo. Para o viajante que chega hoje a este povoado de páramo, conhecer sua história é entender que por trás de cada queijo, cada chocolate e cada peça de lã existe uma das experiências de transformação social mais inspiradoras do Equador.