Cairns é a capital dos trópicos australianos e a base ideal para conhecer duas maravilhas naturais do planeta em poucos dias: a Grande Barreira de Coral, a apenas 40 minutos de barco, e a floresta tropical úmida mais antiga do mundo, que sobe pelas montanhas logo atrás da cidade. Poucos lugares do mundo permitem tomar café da manhã na cidade, fazer snorkel entre corais ao meio-dia e caminhar entre samambaias gigantes na floresta à tarde.
A cidade em si é tranquila, tropical e voltada para a vida ao ar livre. Como o mar em frente a Cairns é de manguezais e águas-vivas, em vez de praia urbana há uma enorme lagoa pública gratuita na Esplanade, o calçadão à beira-mar onde as pessoas nadam, correm, fazem piquenique e observam os pássaros do mangue. De lá saem os barcos para o reef, os ônibus para Kuranda pelo famoso Skyrail sobre a floresta e os passeios ao planalto de Atherton, às cachoeiras e às ilhas próximas.
Este guia percorre o melhor de Cairns com um olhar prático: como chegar ao reef e quanto custa, como subir a Kuranda de teleférico e descer de trem panorâmico, o que ver na cidade e arredores, quando ir para fugir da temporada de águas-vivas, como se locomover e como usar Cairns como trampolim para Port Douglas e Daintree. Tudo verificado, para você montar sem complicação sua viagem ao norte tropical.
Cairns é Gimuy, o nome dado por seus donos tradicionais, o povo Gimuy Walubara Yidinji, que junto com os Yirrganydji (de língua djabugay) habitou esta costa durante milênios. James Cook batizou a Trinity Bay em 1770, mas a cidade europeia só nasceu em 1876, como porto para exportar o ouro descoberto no rio Hodgkinson, e recebeu o nome do governador de Queensland, William Cairns. A cana-de-açúcar, a ferrovia até Kuranda e, mais tarde, o turismo da Grande Barreira moldaram a cidade. A história completa — os Yidinji e Djabugay, o ouro, a cana e o turismo — está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The state of sunshine and the tropics: land of dozens of Aboriginal nations, born as the Moreton Bay penal settlement in 1824, separated from New South Wales in 1859 and shaped by sugar cane, wool and mining. It is home to the Great Barrier Reef and the Daintree Rainforest, two World Heritage Sites.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de existir uma única rua, essa faixa de trópico entre o mar e a floresta já tinha nome: Gimuy. É assim que os donos tradicionais chamam Cairns: o povo Gimuy Walubara Yidinji, cuja presença nesta costa remonta a milhares de anos. O nome 'Gimuy' vem da língua yidiny e, segundo a tradição local, se refere a uma planta da região (uma espécie de figo ou ameixa azul), um lembrete de quão profundamente a identidade desse povo está ligada ao seu Country, a terra que o sustenta.
A região era, e continua sendo, território de mais de um povo. Ao sul do rio Barron predominavam os grupos de língua yidiny (Gimuy Walubara Yidinji); ao norte, na costa que vai do Barron em direção a Port Douglas, estavam os Yirrganydji, que falavam dialetos da língua djabugay. Eram povos de uma terra extraordinariamente rica: a floresta tropical úmida, hoje Patrimônio da Humanidade, fornecia frutas, plantas medicinais, fibras e caça, enquanto o mar, os manguezais e os rios garantiam peixes, moluscos e tartarugas.
Essa abundância sustentou culturas complexas, com calendários sazonais detalhados, um conhecimento botânico enorme e uma rede de relações com os povos vizinhos do planalto e da costa. Os Yidinji e os Djabugay tinham seus Dreamings (os relatos ancestrais que explicam a origem da terra, dos rios, das montanhas e das leis) e locais sagrados espalhados por toda a região. Nada disso desapareceu com a chegada dos europeus: os descendentes desses povos mantêm hoje reivindicações de título nativo (native title) sobre suas terras ancestrais e trabalham para preservar suas línguas e sua cultura, presentes em muitos dos passeios que os visitantes fazem hoje.
O primeiro europeu a deixar um nome foi, como em tantos pontos da costa leste, James Cook. Em 1770, navegando o HMB Endeavour rumo ao norte, ele batizou a baía de Trinity Bay porque passou por ali no domingo da Santíssima Trindade. Cook seguiu viagem: um pouco mais ao norte, encalharia na Grande Barreira de Corais. Durante quase um século, a costa de Gimuy continuou sendo território Yidinji e Djabugay, só uma linha nos mapas imperiais.
Os primeiros europeus que ficaram chegaram no fim da década de 1860: eram pescadores de beche-de-mer (pepino-do-mar), que coletavam e secavam esse produto muito procurado na Ásia. A presença deles marcou o início do contato contínuo e também do conflito. Em 1872 houve um confronto violento entre o povo Yidinji e o pescador Phillip Garland pelo uso de um grande poço de água nativo; o episódio deu nome ao lugar conhecido como 'Battle Camp'. Foi apenas um entre tantos choques da fronteira colonial, que em todo o norte de Queensland foi especialmente sangrenta, com massacres e expropriações que dizimaram os povos originários.
Por trás da beleza tropical que hoje atrai os turistas existe, portanto, uma história dura de resistência e expropriação. Os Yidinji e os Djabugay perderam o acesso a grande parte do seu Country, foram deslocados e, em muitos casos, obrigados a viver em missões e reservas longe de suas terras. Que hoje seus nomes e seus relatos voltem a ser ouvidos nos teleféricos sobre a floresta e nos centros culturais é resultado de uma longa luta por reconhecimento.
A cidade europeia nasceu de repente, e por causa do ouro. Em 1875 foi descoberto ouro nas jazidas do rio Hodgkinson, no planalto a oeste. Esse ouro precisava de um porto na costa para sair para o mundo, e em 1876 foram organizadas expedições para fundá-lo. O agrimensor Brinsley G. Sheridan escolheu um ponto na Trinity Bay e, no fim de 1876, o lugar recebeu o nome de Cairns, em homenagem a William Wellington Cairns, então governador de Queensland.
O começo foi duríssimo: um povoado enlameado entre manguezais, com calor, umidade e a concorrência de outros portos rivais, como Port Douglas. O que salvou Cairns foi a ferrovia. A partir de 1886 começou a construção de uma linha rumo ao planalto de Atherton (em direção a Herberton), uma obra de engenharia heroica que subia a montanha por túneis e viadutos escavados à mão em plena floresta: o trecho até Kuranda foi inaugurado em 1891 e hoje é a famosa Kuranda Scenic Railway, uma das grandes atrações turísticas da cidade.
Com o trem, Cairns garantiu seu futuro. A terra fértil do trópico se encheu de plantações de cana-de-açúcar, banana e outras culturas, e a cidade se consolidou como o centro comercial do extremo norte. Nesse desenvolvimento, a comunidade chinesa teve um papel enorme (e muitas vezes esquecido): presente desde cedo na agricultura e no comércio, deixou uma marca profunda na economia e na vida da cidade. A cana, com seus engenhos e seu trabalho pesado (incluindo, no início, o tráfico de trabalhadores das ilhas do Pacífico, o chamado 'blackbirding'), moldou a paisagem e a sociedade do norte durante gerações.
O século XX transformou Cairns de vila açucareira em cidade. Durante a Segunda Guerra Mundial, sua posição estratégica no norte fez dela uma importante base das forças aliadas: foram instalados aeródromos, quartéis e depósitos, e milhares de soldados australianos e americanos passaram pela cidade a caminho do Pacífico. A guerra deixou infraestrutura e um impulso que a cidade aproveitaria depois.
No pós-guerra, Cairns cresceu com a cana, a pesca e, cada vez mais, o turismo. Mas o grande salto veio em 1984, com a abertura do Aeroporto Internacional de Cairns. De repente, viajantes da Austrália, da Ásia, da Europa e das Américas podiam chegar direto às portas de duas maravilhas naturais: a Grande Barreira de Corais, a 40 minutos de barco, e a floresta tropical úmida dos Wet Tropics. A cidade se reinventou como capital do turismo do norte tropical.
As décadas seguintes trouxeram uma explosão de operadoras de mergulho e snorkel, resorts, o Skyrail (o teleférico sobre a floresta, inaugurado em 1995), a renovação da Esplanade com sua grande lagoa pública e o reconhecimento internacional da região: a Grande Barreira de Corais é Patrimônio da Humanidade desde 1981, e os Trópicos Úmidos de Queensland, desde 1988. Cairns passou a receber todos os anos centenas de milhares de visitantes do mundo inteiro.
Hoje a cidade vive um duplo desafio. De um lado, cuidar dos tesouros que a sustentam: a Grande Barreira de Corais está ameaçada pelo branqueamento dos corais e pelas mudanças climáticas, e boa parte da economia e da identidade de Cairns depende da saúde dela. De outro, continuar reconhecendo e devolvendo protagonismo aos povos Yidinji e Djabugay, cuja cultura milenar é parte essencial do que torna único este canto do trópico. A história de Cairns, do ouro e da cana ao coral e à floresta, é, no fundo, a história de um lugar que aprendeu que sua maior riqueza estava na natureza.