Margaret River é, para muitos, o destino mais completo do sudoeste australiano: num raio de poucos quilômetros se juntam mais de 200 vinícolas e cellar doors de nível mundial, praias de surfe que são parada do circuito profissional, cavernas de calcário com estalactites milenares, florestas altíssimas de karri e uma costa selvagem onde se avistam baleias. É uma região para ir com calma, dirigir por estradas rurais entre vinhedos e sair de cada degustação com um sorriso no rosto.
Embora o vinho seja sua grande fama — a região produz apenas 1% do vinho australiano, mas cerca de 20% do vinho premium do país —, Margaret River é muito mais do que vinícolas. É terra wadandi, o "povo da água salgada" da nação noongar, que habitou esta costa por dezenas de milhares de anos e para quem as cavernas têm um profundo significado espiritual. É também um lugar de surfistas, produtores gourmet, queijeiros, cervejeiros artesanais e chocolateiros, numa paisagem que vai do oceano Índico às florestas do interior.
Este guia percorre o melhor da região com um olhar prático: quais vinícolas e cavernas visitar, o imponente farol de Cape Leeuwin, onde dois oceanos se encontram, as melhores praias e picos de surfe, quando ver baleias, como chegar de Perth e como se locomover. Ideal para uma escapada de 2 a 4 dias que combina bom vinho, boa comida, natureza e mar.
A região de Margaret River é Wadandi Boodja, o país do povo wadandi (os "saltwater people") da nação noongar, que viveu no sudoeste da Austrália Ocidental por dezenas de milhares de anos e para quem as inúmeras cavernas de calcário têm um profundo valor espiritual. A colonização europeia chegou com a fundação de Augusta em 1830, quando desembarcaram as famílias Bussell e Molloy; Alfred Bussell estabeleceu a fazenda leiteira de Ellensbrook em 1857 e depois Wallcliffe. Em dezembro de 1876, Grace Bussell e o cavaleiro aborígene Sam Isaacs ficaram famosos ao resgatar náufragos do vapor Georgette. A região viveu da pecuária e da extração de karri e jarrah a partir da década de 1870; a cidade de Margaret River foi traçada em 1912 e declarada oficialmente em 1913. A indústria do vinho só nasceu nas décadas de 1960-70, quando estudos climáticos mostraram que a área era ideal para uvas premium, e hoje é uma das regiões vinícolas mais prestigiadas do mundo. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Australia's largest state, covering almost a third of the continent: the ancestral land of the Noongar people and dozens of desert nations, colonised from the Swan River Colony in 1829, transformed by Kalgoorlie gold and today a global iron ore powerhouse. Its capital, Perth, is the most isolated major city on the planet.
Ler a história de Western Australia →Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de existirem as vinícolas, as cavernas turísticas e os surfistas, esta faixa de litoral entre o oceano Índico e o Antártico já tinha donos e nome: era, e continua sendo, Wadandi Boodja, o país (boodja) do povo wadandi. Os wadandi — cujo nome costuma ser traduzido como "povo da água salgada" ou saltwater people — são um dos grupos da grande nação noongar, que ocupa todo o sudoeste da Austrália Ocidental, desde perto de Geraldton até além de Esperance. Os noongar habitaram esta região por dezenas de milhares de anos; as estimativas arqueológicas falam de uma presença contínua de pelo menos 45.000 anos, uma das culturas vivas mais antigas do planeta.
A vida wadandi tradicional era organizada em torno das seis estações noongar (e não quatro, como no calendário europeu), cada uma associada a determinados alimentos, deslocamentos e cerimônias. Grupos familiares se deslocavam de forma seminômade por trechos específicos do território, da costa à floresta, acompanhando os recursos de cada época: peixes, frutos do mar e focas no mar; zâmias, tubérculos, animais de caça e mel no interior. A queima controlada da mata — o chamado "fire-stick farming" — era uma ferramenta central para regenerar a terra e facilitar a caça, e moldou durante milênios a paisagem que os europeus julgaram "virgem" ao chegar.
Para os wadandi, o litoral não era um simples recurso, mas uma trama de significados espirituais herdados do Dreaming (o tempo da criação). Suas histórias explicam a origem dos rios, dos cabos e das estações, e organizam a relação entre as pessoas, os animais e a terra. Ainda hoje, descendentes wadandi mantêm viva essa conexão e oferecem passeios guiados pelo seu país, nos quais se lê a paisagem — a flora, os rastros, o mar — com os olhos de uma cultura de milhares de anos.
Sob a cordilheira Leeuwin-Naturaliste, que percorre este litoral de ponta a ponta, esconde-se um dos sistemas de cavernas de calcário mais ricos da Austrália: centenas de cavidades formadas ao longo de milhões de anos, com estalactites, rios subterrâneos e câmaras que hoje recebem milhares de turistas. Para o povo wadandi, essas cavernas nunca foram uma curiosidade geológica: são lugares profundamente sagrados, e algumas tradições as consideram a passagem para o além, o lugar por onde transitam os espíritos dos mortos.
A mais famosa de todas, a Ngilgi Cave (perto de Yallingup), leva o nome de uma lenda do Dreaming. Segundo o relato, um espírito maligno chamado Wolgine aterrorizava as pessoas, até que o bom espírito Ngilgi o enfrentou numa batalha feroz travada dentro e ao redor da caverna; Ngilgi venceu e expulsou Wolgine, deixando o lugar sob sua proteção. Histórias como essa mostram que, para os wadandi, a paisagem não era neutra: cada formação tinha uma explicação, uma moral e um dono espiritual.
A arqueologia confirmou a enorme antiguidade da presença humana nessas cavernas. Na Mammoth Cave, mais ao sul, foram encontrados fósseis de megafauna extinta — animais gigantes do Pleistoceno — junto com evidências de atividade humana muito antiga, o que fez da região um sítio-chave para entender a convivência dos primeiros australianos com essa fauna desaparecida. Visitar essas cavernas hoje, com audioguia e passarelas, é também espiar um lugar que para os Primeiros Povos foi — e continua sendo — sagrado, algo que vale a pena percorrer com respeito.
A colonização europeia do sudoeste chegou apenas um ano depois da fundação da colônia do rio Swan (Perth), em 1829. Em 1830, desembarcou na foz do rio Blackwood um grupo de colonos que fundou Augusta, no extremo sul da atual região de Margaret River. Entre eles estavam duas famílias que marcariam a história da área: os Bussell e os Molloy, liderados pelo capitão John Molloy e sua esposa Georgiana Molloy, lembrada como uma das primeiras botânicas da Austrália Ocidental, que coletou e catalogou a flora nativa do sudoeste para cientistas ingleses.
A vida em Augusta foi duríssima. A floresta de karri e jarrah era quase impenetrável, o solo difícil de trabalhar e o isolamento, extremo. Muitos colonos acabaram se mudando para o norte, para terras mais adequadas perto de Busselton (Vasse). Alfred Pickmore Bussell, que tinha chegado adolescente em 1830, casou-se em 1850 com Ellen Heppingstone — nascida em Augusta — e em 1857 o casal se instalou em Ellensbrook, junto a um riacho perto da costa, para montar uma fazenda leiteira. Ellensbrook, hoje preservada pelo National Trust, tinha sido por gerações um acampamento de verão dos wadandi, um dado que resume o choque entre duas formas de habitar o mesmo país.
Poucos anos depois, por volta de 1855-1865, a família ergueu a Wallcliffe House, sobre o rio Margaret perto de Prevelly, construída com pedra local e madeira serrada à mão por uma equipe de trabalhadores que, segundo a tradição, incluía desertores de baleeiros americanos, um stockman aborígene e ex-presidiários. Esses primeiros assentamentos de pecuária e laticínios foram o núcleo da presença europeia permanente na região, embora a relação com os wadandi, expulsos de suas terras e de suas fontes de alimento, tenha sido marcada pelo conflito, pela doença e pela perda.
Um dos episódios mais lembrados da história colonial da região aconteceu em dezembro de 1876, quando o vapor Georgette naufragou diante deste litoral bravio. Em meio à tempestade e às ondas, Grace Bussell, uma jovem da família, e Sam Isaacs, um stockman aborígene que trabalhava para os Bussell, entraram a cavalo no mar revolto e resgataram vários sobreviventes que, de outra forma, teriam se afogado. A façanha rendeu a Grace a medalha da Royal Humane Society e a Isaacs um reconhecimento oficial; o episódio virou lenda e hoje dá nome a lugares como Gracetown, um pouco ao norte.
A partir da década de 1870, a economia da região passou a girar cada vez mais em torno da madeira. As enormes florestas de karri e jarrah — madeiras de lei muito valorizadas — atraíram serrarias e turmas de lenhadores, e foram construídas linhas férreas para levar os troncos até os portos. O corte foi intenso e transformou grandes extensões da paisagem. Esse ciclo do "timber" foi, junto com a pecuária, o motor econômico da região durante décadas.
A cidade de Margaret River propriamente dita é relativamente jovem: os primeiros lotes foram demarcados em 1912 e o townsite foi declarado oficialmente em 1913, tomando o nome do rio Margaret, batizado décadas antes pelos primeiros exploradores europeus. Durante boa parte do século XX, Margaret River foi uma pacata cidadezinha rural de pecuaristas, produtores de leite e madeireiros, sem nenhum indício do prestígio internacional que a aguardava. Sua fama ainda estava por ser escrita, e chegaria pelas mãos de uma uva.
O destino de Margaret River mudou por completo graças a um relatório científico. Em meados da década de 1960, o agrônomo John Gladstones publicou estudos que comparavam o clima do sudoeste australiano com o das grandes regiões vinícolas do mundo, como Bordeaux, e concluiu que a área de Margaret River tinha um clima ideal para produzir uvas de altíssima qualidade: verões secos, influência moderadora de dois oceanos e pouquíssimas geadas. Foi uma revelação.
Em 1967, o médico Tom Cullity plantou as primeiras videiras comerciais e fundou a Vasse Felix, a primeira vinícola da região. Logo vieram outros pioneiros, muitos deles médicos e profissionais de Perth apaixonados por vinho: os Cullen fundaram a Cullen Wines, os Pannell criaram a Moss Wood e, em 1973, a família Horgan estabeleceu a Leeuwin Estate, que ficaria célebre pelo seu Art Series Chardonnay e pelos seus shows ao ar livre. Em poucos anos, um punhado de vinhedos experimentais se transformou numa indústria em pleno crescimento.
O extraordinário foi a velocidade com que Margaret River alcançou reconhecimento mundial. Seus Cabernet Sauvignon de estilo bordalês e seus Chardonnay começaram a ganhar prêmios internacionais e a figurar entre os melhores do mundo. Hoje a região produz apenas cerca de 1% do vinho australiano, mas perto de 20% do vinho premium do país, e reúne mais de 200 vinícolas e cellar doors. O vinho trouxe consigo toda uma economia de turismo gastronômico: restaurantes de vinícola, cervejarias artesanais, chocolaterias, queijarias, azeites e destilarias.
Hoje Margaret River é um dos destinos turísticos mais completos da Austrália Ocidental. Ao prestígio do vinho somaram-se, ao longo das décadas, duas outras grandes atrações. De um lado, o surfe: a onda de Main Break, em Surfers Point, é tão potente e consistente que durante anos sediou uma etapa do circuito profissional mundial da WSL e colocou a região no mapa do surfe internacional. Do outro, a natureza: as cavernas, as florestas de karri, a trilha Cape to Cape Track, que liga os faróis de Cape Naturaliste e Cape Leeuwin, e a observação de baleias-jubarte e baleias-francas-austrais entre junho e dezembro.
Essa combinação — vinho, gastronomia, praias, surfe e natureza — transformou a região num ímã para viajantes do mundo todo e num bate-volta clássico a partir de Perth. A economia local, antes baseada na madeira e na pecuária, hoje gira em grande parte em torno do turismo e da produção premium de alimentos e bebidas, com uma preocupação crescente com a sustentabilidade e com a proteção do litoral e das florestas que são o seu maior patrimônio.
E nas últimas décadas ganhou força algo essencial: o ressurgimento da voz dos Primeiros Povos. Descendentes wadandi, por meio de associações como a Undalup e de guias culturais, oferecem tours em que ensinam a ler o país (boodja), suas estações, sua flora e sua história, e trabalham para que o relato da região não comece em 1830, mas milhares de anos antes. O Shire de Augusta-Margaret River reconhece oficialmente os wadandi como guardiões tradicionais desta terra. Conhecer Margaret River por inteiro é, cada vez mais, escutar também essa voz: a do povo da água salgada que caminhou por estas praias muito antes de qualquer outro.