Montevidéu é uma capital que não tem pressa. Não tem o ritmo acelerado nem a escala monumental de São Paulo ou de outras grandes cidades latino-americanas: tem, em vez disso, uma rambla de mais de 20 quilômetros de frente para o Rio da Prata, por onde a cidade inteira sai para caminhar, correr, pedalar e, acima de tudo, tomar mate olhando a água. Essa orla é o coração da vida montevideana, o lugar onde a cidade respira de frente para esse rio-mar barrento e imenso que parece não ter outra margem.
Mas Montevidéu é muito mais que sua rambla. É a Ciudad Vieja, seu centro histórico, com ruas de paralelepípedo, prédios art déco e ecléticos meio desgastados mas cheios de personalidade, praças com história e o cheiro de parrilla do Mercado del Puerto. É o Teatro Solís e uma cultura vivida com intensidade. É o Carnaval mais longo do mundo, com suas murgas, seus tablados e o Desfile de Llamadas, quando o candombe afro-uruguaio faz a rua tremer ao ritmo dos tambores. E é, claro, uma cidade de futebol, com o mítico Estadio Centenario, onde foi disputada a primeira final de Copa do Mundo, em 1930.
Este guia percorre o essencial de Montevidéu com um olhar prático e acolhedor: o que ver na Ciudad Vieja, como aproveitar a rambla e as praias urbanas, onde comer um bom chivito ou um churrasco, como se locomover e como usar a cidade como base para conhecer o resto do país. Montevidéu é uma capital simpática, segura nas áreas mais frequentadas e de escala humana, que conquista o viajante devagar, com seu ritmo tranquilo e sua gente calorosa.
A história de Montevidéu começa como uma jogada no tabuleiro do Rio da Prata. Ao contrário de Buenos Aires, fundada pelos espanhóis, a região onde hoje fica Montevidéu foi por muito tempo terra disputada entre as coroas da Espanha e de Portugal. Os portugueses, a partir de sua Colônia do Sacramento, pressionavam a Banda Oriental, e para freá-los os espanhóis decidiram fundar uma praça-forte em um dos melhores portos naturais da região. Assim, entre 1724 e 1730, o governador Bruno Mauricio de Zabala conduziu a fundação de San Felipe y Santiago de Montevideo, que nasceu como cidade murada e militar. Sobre a origem de seu curioso nome circula uma das lendas mais famosas do Rio da Prata: a do 'Monte VI de Este a Oeste', anotado por um navegador em um mapa, embora existam várias explicações. Durante a época colonial, Montevidéu cresceu como porto rival de Buenos Aires e como sede do Real Apostadero de Marina. Nas guerras de independência foi cenário-chave; José Gervasio Artigas, o herói nacional, surgiu destas terras. Após a independência do Uruguai em 1828-1830, Montevidéu se consolidou como capital, viveu o longo e dramático Sitio Grande durante a Guerra Grande (1843-1851) e, no início do século XX, tornou-se uma capital próspera e europeizada, a do 'Uruguai batllista', com grandes obras públicas, imigração em massa e uma vida cultural efervescente. A história completa está na nossa página de história.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Ao contrário de muitas cidades hispano-americanas, Montevidéu não nasceu de um impulso colonizador inicial, e sim de uma urgência geopolítica. Durante os séculos XVII e XVIII, a Banda Oriental (o atual Uruguai) era uma terra de fronteira disputada entre as coroas da Espanha e de Portugal. Os portugueses tinham fundado em 1680 a Colônia do Sacramento, bem em frente a Buenos Aires, e de lá pressionavam o estuário do Rio da Prata, uma das chaves do comércio do Atlântico Sul. A Espanha precisava frear esse avanço.
A baía de Montevidéu oferecia um dos melhores portos naturais da região, abrigado e profundo. Por isso, quando em 1723 os portugueses tentaram se instalar ali, o governador de Buenos Aires, Bruno Mauricio de Zabala, reagiu: expulsou-os e deu início à fundação de uma praça-forte espanhola no local. O processo de fundação se desenrolou entre 1724 e 1730. Em 1726 começou a distribuição dos lotes e a chegada das primeiras famílias de povoadores — moradores trazidos de Buenos Aires e, sobretudo, famílias das Ilhas Canárias, os 'canários' que marcaram tanto a identidade montevideana — e em 1730 foi constituído o primeiro Cabildo, considerado o ato que completa a fundação.
A cidade nasceu com o nome de San Felipe y Santiago de Montevideo e como uma cidade planejada e militar: murada, com sua cidadela, sua praça, sua igreja matriz e um traçado em quadrícula. Sua razão de ser era, antes de tudo, defensiva: ser o bastião espanhol diante da ameaça portuguesa e um porto rival do de Buenos Aires no estuário.
Poucos nomes de cidade deram origem a tantas teorias e lendas quanto o de Montevidéu (Montevideo, em espanhol). A origem exata do topônimo é objeto de debate entre historiadores e linguistas, e convivem várias explicações, nenhuma delas definitivamente comprovada.
A versão mais popular e difundida — mais lenda do que história comprovada — conta que um marinheiro da expedição de Fernão de Magalhães, ao avistar o morro que domina a baía, teria exclamado em português: 'Monte vide eu!' ('Vi um monte!'). Outra explicação muito repetida sustenta que o nome vem de uma anotação nos mapas e portulanos antigos: 'Monte VI de Este a Oeste' (ou seja, o sexto monte ou acidente geográfico contado nessa direção ao longo da costa), em que o numeral romano VI e a abreviatura teriam acabado se fundindo em 'Montevideo'. Essa hipótese do 'Monte VI D[e] E[ste] [a] O[este]' é uma das mais citadas, embora também seja contestada.
Uma terceira linha, defendida por vários estudiosos, considera que o nome deriva simplesmente de uma descrição geográfica em português ou em castelhano antigo, algo como 'monte que se vê' (um 'Monte-vide-eu' ou 'Monte vi') aplicado ao morro que servia de referência aos navegantes que entravam no Rio da Prata. O que quase todas as teorias têm em comum é que o nome está ligado ao Cerro de Montevidéu, esse morro que coroa a baía e que foi, durante séculos, o farol natural da cidade. O mistério do nome faz parte do encanto e da identidade montevideana.
Durante o século XVIII, Montevidéu cresceu à sombra de sua função militar e portuária. Era uma cidade murada, com sua cidadela e suas baterias defensivas, pensada para resistir. Mas seu excelente porto natural logo a transformou também em um centro comercial movimentado, rival do de Buenos Aires do outro lado do estuário — uma rivalidade que marcaria a história rio-platense durante séculos.
A importância estratégica de Montevidéu foi consagrada em 1776, quando a cidade foi designada sede do Real Apostadero de Marina, a base naval espanhola no Atlântico Sul, encarregada de controlar e proteger a navegação em toda a região. Isso reforçou seu caráter de praça-forte e lhe deu um peso militar e administrativo notável dentro do recém-criado Vice-Reino do Rio da Prata. A cidade se encheu de funcionários, marinheiros, comerciantes e uma sociedade colonial cada vez mais diversa, que incluía uma numerosa população africana escravizada, cuja marca cultural — sobretudo no candombe — seria decisiva.
No início do século XIX, Montevidéu foi cenário direto dos conflitos do fim do período colonial. Durante as Invasões Inglesas, as tropas britânicas tomaram e ocuparam a cidade em 1807, antes de serem expulsas do Rio da Prata. Poucos anos depois, com a eclosão dos movimentos de independência a partir de 1810, a cidade se tornou um bastião realista (leal à Espanha) diante da revolução que avançava a partir de Buenos Aires e do interior oriental, antecipando as grandes lutas que viriam.
A primeira metade do século XIX foi, para Montevidéu e para toda a Banda Oriental, uma época de guerras quase contínuas. Desta terra surgiu a figura máxima da nacionalidade uruguaia: José Gervasio Artigas, o caudilho que liderou a luta dos orientais e que é venerado como herói fundamental do país, com seu ideário federalista e sua defesa dos mais humildes. A região passou por sucessivos domínios — o espanhol, a breve experiência artiguista, a ocupação portuguesa e depois a anexação ao Império do Brasil como Província Cisplatina —, numa disputa constante entre as grandes potências vizinhas.
O ponto de virada veio após a guerra entre as Províncias Unidas (Argentina) e o Império do Brasil pelo controle da Banda Oriental — a Guerra da Cisplatina, como é conhecida no Brasil. A 'Cruzada Libertadora' dos Trinta e Três Orientais, liderados por Juan Antonio Lavalleja em 1825, reacendeu a luta pela independência. O conflito foi resolvido, com mediação britânica, na Convenção Preliminar de Paz de 1828, que reconheceu a criação de um Estado independente como zona de amortecimento entre as duas potências. Em 1830 foi jurada a primeira Constituição do Estado Oriental do Uruguai, e Montevidéu foi consagrada como sua capital.
A jovem república nasceu, porém, em meio a profundas divisões internas entre dois grupos que marcariam sua história: os blancos e os colorados. Essas tensões desembocaram na Guerra Grande (1839-1851), durante a qual Montevidéu suportou o chamado Sitio Grande: um cerco que durou quase nove anos (1843-1851), em que a cidade, defendida pelos colorados e apoiada por estrangeiros, resistiu ao assédio das forças do caudilho blanco Manuel Oribe, aliado do argentino Juan Manuel de Rosas. Por sua resistência heroica, Montevidéu foi comparada a uma 'nova Troia'.
Depois das décadas turbulentas do século XIX, Montevidéu viveu sua grande transformação entre o fim daquele século e as primeiras décadas do XX. A cidade derrubou suas velhas muralhas coloniais, expandiu-se para além da Ciudad Vieja e se modernizou em ritmo vertiginoso, alimentada por uma enorme onda de imigração europeia — sobretudo espanhola e italiana — que mudou seu rosto, seu sotaque e sua cultura, dando-lhe esse ar profundamente rio-platense que ela compartilha com Buenos Aires.
O período está indissoluvelmente ligado à figura de José Batlle y Ordóñez, presidente em duas ocasiões no início do século XX e arquiteto do chamado 'Uruguai batllista'. Sob seu impulso, o país e sua capital se tornaram pioneiros de um Estado de bem-estar avançado para a época: legislação social, separação entre Igreja e Estado, educação pública, jornada de trabalho de oito horas e uma vocação democrática que renderam ao Uruguai o apelido de 'a Suíça da América'. Montevidéu era a vitrine dessa modernidade.
A cidade se encheu de obras públicas, parques, ramblas (os calçadões à beira-mar), teatros e edifícios monumentais de estilo eclético, art nouveau e, mais tarde, art déco. A rambla costeira, os grandes parques como o Prado e o Parque Rodó, o Palacio Legislativo, o Estadio Centenario (construído em 1930 para a primeira Copa do Mundo de futebol, que o Uruguai organizou e venceu) e o Palacio Salvo são filhos dessa época de prosperidade e otimismo. Montevidéu se consolidou assim como uma capital culta, europeizada e orgulhosa, cuja identidade — a do mate e da rambla, do futebol e do candombe, do tango e da murga — continua viva até hoje.
Se a história política explica como Montevidéu foi construída, sua cultura explica como ela se sente. E no coração dessa identidade pulsa o candombe, o ritmo afro-uruguaio nascido do legado dos africanos escravizados que chegaram ao porto durante a época colonial. O candombe é tocado com três tambores — chico, repique e piano —, e suas cuerdas de tamboriles percorrem as ruas de bairros como Sur e Palermo nas 'llamadas', fazendo a cidade vibrar. Em 2009, a Unesco inscreveu 'o candombe e seu espaço sociocultural' na Lista Representativa do Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade.
Esse candombe é um dos pilares do Carnaval de Montevidéu, considerado o mais longo do mundo: dura cerca de quarenta dias, entre janeiro e março. Sua grande festa é o Desfile de Llamadas, em que dezenas de comparsas de candombe desfilam pelas ruas do bairro Sur com seus tamboriles, suas dançarinas, seus personagens tradicionais (a mama vieja, o gramillero, o escobero) e uma explosão de cor e energia contagiantes. Quem conhece o carnaval brasileiro vai reconhecer a força dos tambores, mas com outro sotaque. A outra grande face do Carnaval são as murgas, grupos corais e satíricos que, dos tablados (palcos de bairro), fazem crítica social e política com humor, num gênero muito próprio do Uruguai.
A essa riqueza somam-se outras expressões que fazem parte da identidade montevideana: o tango e a milonga, que ela compartilha com Buenos Aires (Montevidéu reivindica inclusive ser o berço de 'La Cumparsita', o tango mais famoso do mundo); a cultura do mate, onipresente na rambla e em cada canto; o futebol como paixão nacional; e uma vida literária e artística intensa. Toda essa mistura — espanhola, italiana, africana, crioula — faz de Montevidéu uma capital de escala humana, mas de alma profunda, onde a história se vive nas praças, a música soa nas ruas e as pessoas a habitam com um calor tranquilo e orgulhoso.