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Última atualização: outubro de 2026
Esta é a viagem que me ensinou tudo o que sei sobre ir para o nada. Eu tinha dezoito anos, tinha acabado de terminar o primeiro ano da faculdade e fui para o Brasil passar uma temporada. Conto tudo porque as partes úteis estão no meio da bagunça.
No primeiro ano viajei para o Congresso Internacional de Turismo, que acontece todo ano em uma cidade diferente da Argentina. Naquele ano era em San Martín de los Andes, em Neuquén. Ali ouvi uns caras do quarto ou quinto ano contando que iam para o Brasil trabalhar na temporada, e pensei uma coisa só:
Se esses caras conseguem, eu também consigo.
Terminei o primeiro ano em novembro e fui embora. Era 2016.
Fiz minha mãe acreditar que ia encontrar esses caras lá. Era mentira. Fui sozinho, só com a passagem de ida e com mil pesos, que em 2016 já era muito pouco dinheiro.
De Posadas a Puerto Iguazú de ônibus, e de lá o internacional até Foz do Iguaçu, que me deixou no aeroporto. E ali subi em um avião pela primeira vez na vida. Eu, que era fanático por aviões desde criança, tinha dezoito anos e nunca tinha voado.
Foram três voos pela Azul: Foz do Iguaçu → Curitiba, Curitiba → Porto Alegre, Porto Alegre → Florianópolis. O primeiro foi em um ATR-72, que é um avião pequeno, de uns setenta passageiros, com as turbo-hélices ali do lado, à vista. Quem já voou em um sabe do que estou falando: é como um teco-teco transformado em avião comercial. Senti cada turbulência. Foi uma mistura de graça e de medo, e foi o melhor começo possível.



Cheguei a Florianópolis à noite e não tinha para onde ir. Literalmente. Tinha reservado um hostel para algumas noites e o plano ia só até aí. Táxi, cheguei tardíssimo, fui dormir.
Acordei às onze da manhã do dia seguinte, e só então comecei.
Redigi uma mensagem dizendo que era estudante de turismo da Argentina, falante nativo de espanhol, português básico e inglês intermediário. O lance do português era mentira: eu não falava uma palavra.
Com essa mensagem comecei a escrever pelo Facebook para os hostels de Florianópolis, que são muitíssimos. Devo ter escrito para uns cinquenta. À tarde, quatro ou cinco tinham respondido, e um me chamou para uma entrevista.



O primeiro era um hostel pequeno administrado pela dona. Ali conheci três garotas de Montevidéu. Ela queria voluntariado puro: trabalhar em troca de hospedagem e mais nada. Mesmo assim me tratou incrivelmente bem: foi me buscar com o próprio carro para eu poder pegar minha mala.
No dia seguinte fui ao House Sport Hostel, no Campeche. A proposta era melhor: hospedagem e comida em troca de trabalhar cinco dias, e o sexto eles pagavam. Fui aceito.
E aqui aconteceu uma coisa de que ainda me lembro. Contei para a primeira senhora que tinham me aceitado no outro, e ela não só entendeu: disse que era melhor para mim porque lá iam poder me pagar, e ela mesma me levou até o outro hostel, no carro dela.
No Campeche fiquei três semanas e conheci gente que ainda tenho comigo: dois alemães com quem saí para conhecer o centro e que continuo tendo no Instagram, uma garota de São Paulo e um cara dos Estados Unidos com quem viramos parceiros. As dunas da Joaquina, a Lagoa da Conceição.
Eu entrava às oito da noite. Naquele dia estava na Lagoa, meu celular tinha apagado, e eu olhava o sol, que estava bem alto, então estava tranquilo. Quando perguntei a hora, me disseram que eram oito e meia da noite.
E aí está a questão: em Misiones o sol se põe cedo. Na minha cabeça era impossível que em pleno entardecer fossem oito e meia. Confiei no sol, literalmente. Cheguei atrasado e me disseram que não precisava fazer o turno, que eu estava despedido.
Entendo perfeitamente a parte que me cabe: cheguei atrasado e a responsabilidade era minha. O que nunca entendi foi a falta de empatia. Eu estava trabalhando de graça, em troca de uma cama — nem sequer de um quarto — e não houve uma única pergunta sobre o porquê.

Pedi para ficar mais uma noite. Naquela noite estavam hospedados uns homens de Entre Ríos com quem fiz amizade na hora. Contei o que tinha acontecido e que não tinha dinheiro. Naquela mesma noite pagaram meu jantar.
Eles iam para Bombinhas de carro e sobrava um lugar. Fui. E no caminho continuei fazendo o de sempre: escrevendo para os hostels. Uma hora antes de chegar me respondeu o Hostel do Mangue Branco e disse que me receberia naquela mesma noite.
Quando me deixaram ali, um daqueles senhores me deu 50 reais e me disse algo que nunca mais esqueci:
Você precisa mais do que eu. Tudo na vida volta, então tomara que se multiplique para você.
Entenda o que era aquilo naquele momento. Eu estava prestes a escrever para o meu pai para dizer: fiz uma besteira, vim parar no nada, não tenho dinheiro, não tenho o que comer e não tenho como voltar. Eu não tinha nada. E um cara que me conhecia havia um dia me deu cinquenta reais.
No Mangue Branco me pediram seis horas em vez de quatro. Não tinha alternativa, disse que sim. Mas o dono me deu algo que valia muito mais do que o trabalho: me indicou um grupo de Facebook chamado «Empregos em Bombinhas».
E ali descobri o truque, que é a coisa mais útil que tenho para te dar de toda essa viagem:
Escreva «Empregos em» seguido do nome da cidade, e você vai encontrar grupos de Facebook cheios de trabalho, publicado o tempo todo.
Funciona em qualquer cidade do Brasil. Se você vai passar uma temporada lá, este parágrafo é o que te serve.
Em um desses grupos vi que um hotel bacana procurava recepcionistas. Fui de bicicleta — o hostel tinha — e o chefe da recepção não estava: era o dia de folga dele. Tinham me feito ir à toa.
Na volta, numa rotatória, vi uma pizzaria e pensei: vou perguntar aqui também, só por precaução. Entrei, perguntei se estavam contratando e disseram que sim. Quer começar agora?
Eu estava de chinelo e bermuda. Me explicaram — tudo em português, que eu mal conseguia mastigar — que eu deixava a bicicleta no depósito deles e que um funcionário me levaria até onde eu morava para eu me trocar. Saí para a garagem para ver quem ia me levar e apareceu um cara em uma moto grande. Eu já tinha medo de moto no Brasil, porque dirigem feito loucos, se enfiando entre os carros.
Subi, coloquei o capacete, afivelei. O cara arrancou em alta velocidade cruzando a rotatória. Em frente havia um posto de gasolina, e de lá saiu uma caminhonete. Batemos nela em cheio.
A moto quicou para trás e voamos, mas nenhum dos dois se soltou dela: eu estava agarrado atrás e ele no guidão. A moto caiu com a gente em cima. Bati a cabeça e caí de costas. O que vi depois foi tudo embaçado: gente se aproximando para nos levantar. Meu pé estava debaixo da moto, estiquei para tirá-lo e torci ali mesmo, embora no desespero nem tenha sentido. Tentaram me colocar de pé, fiquei tonto e fui para trás.
E aí cometi o erro:
Tirei o capacete. Isso nunca se faz. Se você machucou a cabeça, o capacete está segurando ela. Nunca o tire depois de um acidente de moto.
O que de verdade me assustou foi olhar para o motorista e ver que ele não se mexia. Só quando estavam me colocando na ambulância o vi se mexer. Estava bem.
Me levaram com o pescoço imobilizado. Radiografias de cabeça e de pernas: não tinha nada, só a pancada. A mãe do rapaz me pediu desculpas e me levou de volta ao hostel. Cheguei mancando e contei ao dono que tinha subido em uma moto e que tínhamos batido em uma caminhonete.
Me preguntó por la bicicleta. Foi isso que importou.
Passei três ou quatro dias sem conseguir andar. Escrevi para o hotel, expliquei e me esperaram. Fui à entrevista e passei.
Era o Atlântico Hotel & Convenções, em Mariscal, Bombinhas. Novecentos ou mil reais por mês, mais hospedagem e comida. Depois de dois meses trabalhando por uma cama, aquilo era outro mundo. O hotel tinha uma coisa que o tornava inconfundível: dois prédios, um de cada lado da rua, unidos por um teto que atravessava por cima até a recepção.
Me deram uniforme e uma cama em um apartamento compartilhado com gente de Foz do Iguaçu. Foi bastante chocante: era uma bagunça, consumia-se de tudo ali dentro e estava muito sujo. Não falei nada. Tinha acabado de conseguir o trabalho. No trabalho, em compensação, me saí muito bem.



En el hotel conocí a Meyve, que trabalhava com recreação. Ficamos amigos rápido, e não por acaso: ela também estudava turismo, em Blumenau.
No fim da temporada começaram a cortar contratos. O dela terminou numa segunda; o meu, na terça. Ela ia para a casa da tia, em Meia Praia, e insistiu até eu dizer que sim.
Ela foi na terça. Eu tinha que chegar sozinho na quarta, com a mala, sem internet e sem saber como. Ela deixou tudo anotado: ônibus até Porto Belo, que passava uma ou duas vezes por dia, e ali outro que ia para Balneário Camboriú passando por Meia Praia, descendo na avenida Nereu Ramos na altura do 297. Andei uma quadra e ela estava me esperando do lado de fora, sem que eu tivesse conseguido avisar nada.
Me apresentou à tia dela e à amiga Duda. E acontece que a tia não era a tia: era a mãe da Duda. Chamavam-se de tia e sobrinha porque entre elas eram como irmãs. Era uma professora aposentada que vivia da aposentadoria e alugava um apartamento para passar ali a vida de aposentada.
Fiquei três ou quatro dias e disse que já estava bom, muito obrigado. E a senhora disse que não, que eu ficasse: que gostava de mim, que eu parecia um filho, e que fosse com elas para a cidade dela.
Mas antes aconteceu o que ainda hoje me parece inacreditável: elas foram embora e me deixaram sozinho no apartamento. A única que me conhecia de verdade era a Meyve, do hotel; a senhora me conhecia havia três dias e me confiou a casa dela. Eu acordava, fazia um café, ia para a praia.
Depois me levaram para Timbó, e ali conheci o irmão da senhora, que trabalhava para o Banco do Brasil inspecionando casas em construção. Disse que no dia seguinte saía cedíssimo para percorrer várias cidades a trabalho, e que se eu quisesse me levava.
Eu fui. E assim, sem planejar, fiz o melhor roteiro da viagem: Timbó, Rodeio, Indaial, Blumenau, Itajaí, Penha, São Francisco do Sul, Joinville, Jaraguá do Sul y Pomerode.
Blumenau é a cidade de raiz alemã de Santa Catarina, onde acontece a Oktoberfest mais famosa do Brasil. Naquele dia só passamos, mas depois voltei: me levaram à Vila Germânica.
E acontece que a Meyve era de Pomerode e a Duda de Timbó, cidades coladas, e as duas estudavam em Blumenau. A Meyve me levou à universidade dela e me enfiou de penetra em uma aula do curso de turismo. Um estudante de turismo argentino sentado em uma aula de turismo brasileira, sem falar bem o idioma. Isso você não planeja.

No dia 5 de março, meu aniversário, me levaram ao Beto Carrero World, em Penha. Eu tinha o ingresso de graça e queria ir de qualquer jeito. Me deixaram lá e eu disse que depois eu daria um jeito de voltar.
Comecei a fazer os brinquedos sozinho e cruzava toda hora com uma garota. Perguntei de onde ela era: de Córdoba. Disse que eu também era de Córdoba. Não era verdade. Mas passei o dia inteiro com ela e a família, brinquedo atrás de brinquedo.
À tarde me perguntaram como eu ia voltar e eu disse a verdade: que não sabia e que não tinha como avisar ninguém. Eles iam para Bombinhas e era caminho. Essa família cordobesa me levou até a porta da casa em Meia Praia e eu não tenho o contato de nenhum deles. Nunca vou poder agradecer.
Isso não foi um curso: foi uma corrente. Começou no hostel de Campeche, com a garota de São Paulo e o estadunidense. Continuou no hotel, com meus colegas de recepção, praticando o dia todo. E quem terminou de fechar foram Meyve, Duda e a senhora, porque pedi que falassem comigo só em português e que, se eu não entendesse, me explicassem. Quando não saía, a gente quebrava o galho com o inglês.
Fui embora sem falar uma palavra e voltei falando.

Comprei a passagem para o dia 7 de março, do terminal de Balneário Camboriú até Foz do Iguaçu. Me despedi delas e agradeci tudo o que tinham me dado, que foi muitíssimo.
No dia 8 de março cheguei em casa. Queria chegar de surpresa para minha mãe no Dia da Mulher. Cheguei de surpresa, sim, mas, para ser honesto, uma coisa não tinha nada a ver com a outra: ficava bonito na minha cabeça e pronto.
Eu tinha ido embora com mil pesos e a passagem de ida. Voltei falando português.
Os relatos vão em ordem: isto é o que aconteceu em volta deste.
Em nenhuma viagem eu fiquei sem internet. Eu chego e o meu celular se conecta à rede mais forte do país que estou visitando: já posso avisar que cheguei, combinar o transporte, reservar passeios e continuar publicando conteúdo por um preço mega em conta (super barato!). Eu sempre uso o eSIM da Maya Mobile, confira os planos clicando no banner. Ver planos da Maya Mobile →
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