O lago Bled é o cartão-postal da Eslovênia e uma das paisagens mais fotografadas da Europa: um lago de águas azul-esverdeadas encaixado entre montanhas, com uma ilhota no meio onde se ergue uma igreja barroca de campanário branco, e um castelo medieval pendurado num penhasco vertical. A imagem parece saída de um conto de fadas e, de fato, é cercada de lendas, a começar pela do 'sino dos desejos' que toca na igreja da ilha.
Mas Bled é muito mais que uma foto. Dá para contornar o lago a pé ou de bicicleta, remar até a ilha numa pletna —o barco tradicional a remo conduzido por famílias com licenças herdadas desde o século XVI—, subir os 99 degraus e tocar o sino fazendo um pedido, subir até o castelo para ter a melhor vista, nadar no verão em águas aquecidas por fontes termais ou provar a famosa 'kremna rezina', o doce de creme de confeiteiro com massa folhada que foi inventado aqui em 1953.
Este guia ajuda você a aproveitar Bled ao máximo e a usá-lo como acampamento-base nos Alpes Julianos: como chegar à ilha e quanto custa a pletna, como subir ao castelo, quais mirantes rendem as melhores fotos (Ojstrica e Mala Osojnica), como combinar com o desfiladeiro de Vintgar e o lago Bohinj, e como se locomover de trem SŽ e ônibus. Beleza de calendário, sim, mas com muito para fazer ao redor.
O lago Bled se formou pela ação das geleiras que desciam do vale de Bohinj no fim da última glaciação. Sua história escrita começa em 1004-1011, quando o imperador Henrique II doou as terras de Bled ao bispado de Brixen (no atual Tirol), que as governou por quase oitocentos anos; dessa época é o castelo, o mais antigo da Eslovênia. A igreja da ilha foi erguida sobre um antigo santuário pagão dedicado à deusa eslava Živa e, já no século XVII, ganhou sua forma barroca com o célebre sino dos desejos. Em 1855 o naturopata suíço Arnold Rikli abriu aqui um balneário de curas naturais que colocou Bled no mapa do turismo europeu e, no começo do século XX, o lugar virou destino de veraneio da aristocracia. Foi residência de verão do rei da Iugoslávia e, mais tarde, do marechal Tito, que recebia na Villa Bled chefes de Estado do mundo inteiro. Hoje é o destino de montanha mais famoso da Eslovênia. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Slovenia's Alpine rooftop: the island shrine of Lake Bled, the Triglav massif (a sacred mountain that became a national symbol) and the Soča valley, a battlefield on the Isonzo front and today a paradise of turquoise water.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes das lendas, houve gelo. O lago de Bled não existiria sem as enormes geleiras que, durante as glaciações do Quaternário, desciam do vale de Bohinj e das alturas dos Alpes Julianos. Ao avançar e recuar, essas línguas de gelo escavaram a bacia e deixaram, ao derreter há cerca de 14.000 anos, uma depressão que se encheu de água. Nascentes mornas no fundo, que até hoje aquecem o lago no verão, terminaram de lhe dar seu caráter. No meio ficou uma colina de rocha que a água não cobriu: a única ilha natural de toda a Eslovênia.
Essa ilha, pequena e misteriosa no meio da água, atraiu os seres humanos desde muito cedo. Os arqueólogos encontraram nela e em suas margens vestígios que remontam à pré-história e à Idade do Ferro e, sobretudo, sinais de um santuário pagão dos antigos eslavos, que chegaram à região por volta dos séculos VI-VII. Segundo a tradição, na ilha se venerava Živa (ou Ziva), deusa eslava da vida, da fertilidade e do amor. Quando o cristianismo se impôs, a igreja foi erguida, como tantas vezes, bem em cima do lugar sagrado anterior, de modo que o culto à Virgem substituiu o da deusa exatamente no mesmo ponto. A continuidade do sagrado nessa rocha cercada de água atravessa milênios.
A história escrita de Bled começa no coração do Sacro Império Romano-Germânico. Entre 1004 e 1011, o imperador Henrique II doou a propriedade de Bled (Veldes, em alemão) ao bispado de Brixen, uma diocese dos Alpes tiroleses. A partir de então, e durante quase oitocentos anos, esses príncipes-bispos alemães foram os senhores do lago, embora quase nunca morassem aqui: governavam por meio de administradores e ministeriais e cobravam rendas dos camponeses da região.
Dessa época data o castelo de Bled, o mais antigo da Eslovênia. Sua primeira menção documental é de 1011, quando se cita o 'castellum Veldes'. Empoleirado em um penhasco vertical de cerca de 130 metros acima da água, em um local impossível de tomar de surpresa, o castelo foi o centro do poder de Brixen sobre a região. O que se vê hoje é sobretudo resultado de reformas dos séculos seguintes, com um pátio superior e um inferior, muralhas, uma capela gótica e torres, mas o núcleo românico remonta àquele primeiro milênio.
Enquanto os bispos cobravam de longe, na ilha a igreja era construída e reconstruída. O templo passou do românico ao gótico e, no século XVII, adotou sua forma barroca atual, com o campanário branco de quase 52 metros que hoje coroa o cartão-postal. Foi então que a igreja da Assunção de Maria se tornou um importante local de peregrinação, aonde os fiéis chegavam atravessando o lago de barco.
Duas tradições definem a experiência de Bled até hoje, e ambas nascem nesses séculos: o sino dos desejos e as pletnas.
A lenda do sino é a mais famosa. Conta-se que no século XVI vivia no castelo uma jovem viúva, Poliksena, cujo marido tinha sido assassinado e jogado no lago. Inconsolável, ela reuniu todo o seu ouro e prata para doar à capela da ilha um sino em memória dele. Mas, quando os barqueiros o transportavam, uma tempestade terrível sacudiu o lago, o barco virou e o sino afundou para sempre, arrastando os remadores. A viúva, arrasada, vendeu seus bens, distribuiu tudo entre os pobres e foi para Roma, onde entrou para um convento. Após sua morte, o papa — comovido com sua história — mandou benzer um novo sino e o enviou à ilha de Bled. Desde então, diz-se que quem o toca com fé e de coração puro vê seu desejo realizado. O 'sino dos desejos' (zvon želja) continua pendurado na igreja, e tocá-lo é o grande ritual de todo visitante, que antes precisa subir os 99 degraus de pedra do século XVII.
A segunda tradição é a das pletnas, os barcos de fundo chato que até hoje levam os viajantes à ilha. Em 1590, um grupo de famílias do vilarejo de Mlino, às margens do lago, recebeu o privilégio de transportar peregrinos até a ilha; com o tempo, a imperatriz Maria Teresa confirmou e regulamentou esse direito no século XVIII, limitando-o a um número fixo de famílias. O ofício de pletnar passa de pai para filho desde então, e remar em pé uma pletna cheia de passageiros continua sendo uma arte hereditária. Poucas tradições turísticas da Europa têm raízes tão antigas e tão vivas.
Durante séculos, Bled foi um local de peregrinação e uma propriedade senhorial, mas não um destino turístico. Isso mudou no século XIX graças a um personagem singular: o naturopata suíço Arnold Rikli. Em 1855, Rikli se instalou às margens do lago e fundou um estabelecimento de curas naturais baseado em sua própria filosofia de saúde: ar, luz do sol e água. Seus pacientes tomavam banho no lago, se expunham ao sol, caminhavam descalços e dormiam em cabanas ventiladas, seguindo o lema com que Rikli resumia seu método: 'a água faz bem, o ar faz melhor, mas a luz é o que mais cura'.
As ideias de Rikli, avançadas para a época e não isentas de excentricidade, atraíram visitantes de toda a Europa Central. Bled se transformou em uma elegante estância climática, com hotéis, vilas e jardins que foram ocupando as margens. A chegada da ferrovia no fim do século XIX — incluindo a pitoresca linha de Bohinj, inaugurada em 1906 — aproximou o lago de Viena, Trieste e das grandes cidades do Império Austro-Húngaro e consolidou sua fama.
No século XX, Bled subiu ainda mais de patamar. Depois da Primeira Guerra Mundial e do nascimento do Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos (depois Iugoslávia), o lugar virou residência de verão da família real iugoslava, que construiu uma vila à beira do lago. Também foi sede de conferências e cúpulas diplomáticas. Bled já não era apenas uma estância: era um símbolo de prestígio nacional.
Depois da Segunda Guerra Mundial, com a Iugoslávia socialista de Josip Broz Tito, Bled manteve seu papel de palco do poder. A antiga vila real foi reconstruída e ampliada como residência de verão do marechal, a Vila Bled, onde Tito recebeu ao longo das décadas chefes de Estado, monarcas e líderes do Movimento dos Países Não Alinhados de meio mundo. O lago, com sua ilha e seu castelo, servia de pano de fundo perfeito para a diplomacia iugoslava. Hoje a Vila Bled funciona como hotel de luxo e ainda conserva os afrescos socialistas de seu grande salão.
A independência da Eslovênia em 1991, após a breve Guerra dos Dez Dias, e a entrada do país na União Europeia em 2004 abriram uma nova etapa. Bled se firmou como o destino natural mais famoso da Eslovênia e um dos cartões-postais mais reconhecíveis da Europa, com milhões de visitantes por ano. Esse sucesso também trouxe desafios: a pressão do turismo de massa sobre um lugar pequeno e frágil obrigou as autoridades a tomar medidas, como a reserva por faixas de horário no vizinho desfiladeiro de Vintgar, os planos de mobilidade sustentável com ônibus circulares e bicicleta, e o cuidado com a qualidade da água do lago.
Mesmo assim, Bled continua fiel a si mesma: a ilha com sua igreja e seu sino, o castelo pendurado no penhasco, as pletnas deslizando em silêncio, a torta de creme inventada aqui em 1953 e as montanhas do Parque Nacional Triglav como moldura. Um lugar onde o gelo pré-histórico, a deusa eslava, os bispos alemães, as lendas de amor e a história do século XX convivem em apenas dois quilômetros de água verde-azulada.