Phillip Island é a ilha da vida selvagem de Victoria: todo fim de tarde, centenas de pequenos pinguins-azuis — os menores do mundo — saem do mar e cruzam a praia rumo às suas tocas no famoso Penguin Parade, um dos espetáculos naturais mais queridos da Austrália. Mas a ilha é muito mais: coalas selvagens, a colônia de lobos-marinhos de Seal Rocks, praias de surfe, um circuito de MotoGP e uma fazenda histórica.
A pouco mais de 90 minutos de Melbourne, Phillip Island (Millowl na língua boonwurrung) mistura natureza e adrenalina num território pequeno e fácil de percorrer. Boa parte das atrações de fauna é administrada pelo Phillip Island Nature Parks, uma organização sem fins lucrativos que reinveste o que arrecada na conservação dos pinguins, dos coalas e do ecossistema costeiro.
Este guia percorre Phillip Island com olhar prático: como funciona o Penguin Parade e qual ingresso compensa, onde ver coalas e lobos-marinhos, o que é Churchill Island, como chegar de Melbourne (e por que o myki não serve para o ônibus), como pagar num espaço sem dinheiro em espécie e quando acontece o MotoGP. Tudo com preços em dólares australianos verificados e dicas para você não perder o pôr do sol.
Phillip Island é Millowl para o povo boonwurrung (bunurong) da nação Kulin: o clã Yallock-Bulluk vinha à ilha no verão para se alimentar de mariscos, peixes, pequenos marsupiais e mutton birds (pardelas). Com a costa aberta para a baía de Western Port, os bunurong estiveram entre os primeiros aborígenes de Victoria a ter contato com navegadores europeus. O explorador George Bass avistou a região em 1798 e, na vizinha Churchill Island, foi plantada em 1801 aquela que é considerada a primeira horta europeia de Victoria. A ilha, batizada em homenagem ao governador Arthur Phillip, depois foi ocupada por fazendas e balneários. No século XX ganhou dois ícones: o Penguin Parade, que passou a atrair visitantes a partir da década de 1920 e hoje é um fenômeno turístico e de conservação, e o automobilismo, com o primeiro Grande Prêmio da Austrália disputado aqui em 1928 e o circuito permanente inaugurado em 1956. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The smallest state on the mainland and the richest during the gold rush: land of the Kulin nations, colonised from 1835 around Melbourne, transformed by the gold of Ballarat and Bendigo and by the Eureka rebellion of 1854, seen as the cradle of Australian democracy.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de ser chamada de Phillip Island, esta ilha em frente à baía de Western Port tinha (e ainda tem) outro nome: Millowl (também registrado como corriong) na língua do povo boonwurrung (bunurong), um dos cinco povos da nação Kulin do centro-sul de Victoria. E não era um lugar qualquer: era território do clã Yallock-Bulluk, que a habitava e cuidava dela muito antes da chegada de qualquer europeu.
Os Yallock-Bulluk, como o restante dos bunurong, eram saltwater people, gente da água salgada. Vinham a Millowl sobretudo nos meses de verão, quando a ilha oferecia um banquete sazonal: frutos do mar e peixes da costa, pequenos marsupiais e, muito especialmente, os mutton birds — as pardelas-de-cauda-curta (short-tailed shearwaters) —, aves migratórias que fazem ninhos aos milhões nas dunas e cujos filhotes e ovos eram um alimento importante. Esse ir e vir conforme as estações fazia parte de uma gestão sofisticada do território, guiada pelo conhecimento acumulado ao longo de milhares de anos.
Como todos os Primeiros Povos, os bunurong entendiam a ilha dentro do Dreaming: a paisagem, os animais e os ciclos naturais faziam parte de uma ordem criada no Tempo do Sonho, que as pessoas tinham a responsabilidade de respeitar e manter. Millowl não era uma posse, e sim um parente e uma responsabilidade. Por sua localização em uma costa aberta e com baías protegidas, os bunurong estiveram, além disso, entre os primeiros aborígenes de Victoria a cruzar com navegadores europeus, o que antecipou as enormes mudanças que estavam por vir.
A chegada europeia a esta parte da costa foi precoce. Em janeiro de 1798, o explorador George Bass, a bordo de uma pequena baleeira, percorreu e mapeou a baía de Western Port, sendo um dos primeiros europeus a documentar a região. Pouco depois, em 1801, o tenente James Grant, no comando do bergantim Lady Nelson, parou em uma pequena ilha vizinha e ali plantou trigo, milho e outras plantas: essa horta de 1801 em Churchill Island é considerada o primeiro jardim/cultivo europeu de todo o território que hoje é Victoria.
A ilha maior recebeu o nome de Phillip Island em homenagem a Arthur Phillip, primeiro governador de Nova Gales do Sul e fundador da colônia de Sydney. Durante as primeiras décadas do século XIX, a região foi frequentada por caçadores de focas e baleeiros, cuja atividade — brutal e predatória — teve um impacto devastador sobre a fauna marinha e sobre os próprios bunurong, muitos dos quais sofreram violência, sequestros e deslocamento.
Com a fundação de Melbourne em 1835 e a expansão da colonização por Victoria, Phillip Island foi sendo povoada por colonos que estabeleceram fazendas, criaram gado e ovelhas e exploraram os recursos da ilha. O território bunurong foi ocupado sem tratado nem compensação, e a população aborígene — dizimada pela violência, pelas doenças e pela espoliação — foi empurrada para fora de suas terras ancestrais, embora sua conexão com Millowl nunca tenha se extinguido por completo.
O século XX deu a Phillip Island os dois ícones pelos quais ela é conhecida hoje no mundo todo. O primeiro foram os motores: em 1928 foi disputado aqui o primeiro Grande Prêmio da Austrália, em um circuito improvisado nas estradas públicas da ilha. A paixão pelo automobilismo se consolidou em 1956 com a inauguração de um circuito permanente, que com o tempo se tornaria o Phillip Island Grand Prix Circuit, sede da MotoGP e considerado um dos traçados mais bonitos do planeta por sua localização à beira-mar.
O segundo ícone foram os pinguins. Os pequenos pinguins-azuis sempre fizeram ninhos nas dunas da ilha, mas ao longo do século XX seu desfile noturno ao sair do mar começou a atrair curiosos e, aos poucos, multidões. O que começou como um fenômeno informal foi organizado no Penguin Parade, que com as décadas se transformou em uma das maiores atrações de fauna da Austrália. Esse sucesso, porém, trouxe um dilema: o crescimento urbano em Summerland ameaçava as colônias de pinguins.
A resposta foi notável. A partir das décadas de 1980 e 1990, o governo de Victoria comprou e demoliu progressivamente as casas do bairro de Summerland para devolver o hábitat aos pinguins, em um raro caso de 'desurbanização' em nome da conservação. A gestão dos locais de fauna ficou nas mãos do Phillip Island Nature Parks, uma organização sem fins lucrativos que reinveste a receita do turismo em pesquisa e conservação de pinguins, coalas, lobos-marinhos e do ecossistema costeiro.
Hoje Phillip Island é ao mesmo tempo um destino de natureza de primeira linha e um modelo de conservação bem administrada. O Penguin Parade recebe centenas de milhares de visitantes por ano, mas sob regras rígidas — sem flash, sem fotos, com plataformas que mantêm a distância — pensadas para que o turismo não prejudique os animais. A receita financia programas de pesquisa sobre pinguins, o monitoramento da colônia de lobos-marinhos de Seal Rocks (a maior da Austrália) e a proteção dos coalas selvagens.
A ilha combina essa vocação conservacionista com uma vida turística intensa: Cowes como cidade principal, praias de baía e de surfe, a fazenda histórica de Churchill Island, as falésias dos Nobbies e do Cape Woolamai, e o circuito da MotoGP, que todo mês de outubro enche a ilha de fãs de velocidade. É, em escala pequena, um catálogo das muitas faces de Victoria: fauna, mar, história e adrenalina.
Ao mesmo tempo, cresce o reconhecimento da história profunda de Millowl. O povo bunurong (boonwurrung), Traditional Owners da ilha, participa cada vez mais da interpretação cultural, do cuidado dos sítios e da narrativa oferecida aos visitantes, e muitos eventos começam com um Welcome to Country ou um Acknowledgement of Country. Recuperar o nome Millowl e a voz de seus guardiões ancestrais faz parte de uma reconciliação ainda em andamento.
Visitar Phillip Island é, assim, muito mais do que ver pinguins: é conhecer um lugar onde a vida selvagem, a história colonial, a paixão pelos motores e a cultura milenar dos saltwater people convivem em uma ilha pequena, pertinho de Melbourne mas com um pulso próprio, marcado pelo ritmo do mar e das estações.