A Península de Mornington é o quintal de fim de semana de Melbourne: uma faixa de terra a pouco mais de uma hora da cidade que reúne vinhedos premiados, águas termais fumegantes ao ar livre, praias de baía com águas calmas, falésias castigadas pelo estreito de Bass e as famosas casinhas de banho coloridas. Num mesmo dia dá para degustar Pinot Noir, mergulhar em piscinas minerais com vista para a mata e caminhar até um farol de 1859.
A península tem duas caras. Do lado da baía de Port Phillip, praias tranquilas de areia, píeres e as coloridas 'bathing boxes' de Dromana, Safety Beach e Mornington; do lado do estreito de Bass (a 'back beach'), um litoral selvagem de falésias, ondas e trilhas como a de Cape Schanck. No meio, colinas cobertas de vinhedos, pomares, olivais e restaurantes de campo que transformaram a região num destino gastronômico de primeira linha.
Este guia percorre a Península de Mornington com olhar prático: onde se banhar nas Peninsula Hot Springs, como subir ao Arthurs Seat de teleférico, o que ver em Point Nepean e Cape Schanck, como funcionam as vinícolas e suas degustações, o ferry para Queenscliff e como se locomover com o cartão myki. Tudo com preços em dólares australianos verificados e dicas para aproveitar cada estação do ano.
O território da Península de Mornington é o Country ancestral do povo Boonwurrung (Bunurong), parte da nação Kulin, que viveu por milhares de anos das baías, dos estuários e dos recursos marinhos da região. Após o desembarque britânico na baía de Port Phillip no começo do século XIX — incluindo o efêmero assentamento de Sullivan Bay em Sorrento em 1803, a primeira tentativa de colônia europeia no que hoje é Victoria —, a península se encheu de fazendas, pomares e balneários vitorianos. Sorrento e Portsea viraram destinos de veraneio da elite de Melbourne, com seus grandes hotéis e banhos de mar; o farol de Cape Schanck foi aceso em 1859 e a fortaleza de Point Nepean vigiou a entrada da baía em tempos de guerra. No século XX a península ganhou vinhedos — hoje célebres pelo Pinot Noir e pelo Chardonnay de clima frio —, e no XXI as águas termais geotérmicas a transformaram na capital do bem-estar do sul da Austrália. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The smallest state on the mainland and the richest during the gold rush: land of the Kulin nations, colonised from 1835 around Melbourne, transformed by the gold of Ballarat and Bendigo and by the Eureka rebellion of 1854, seen as the cradle of Australian democracy.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Muito antes de os vinhedos cobrirem as colinas e de surgirem as cabines de banho coloridas, a Península de Mornington já era um lugar habitado, cuidado e amado. É o Country ancestral do povo Boonwurrung (também escrito Bunurong ou Boon wurrung), um dos cinco povos que formam a nação Kulin do centro-sul do que hoje é Victoria. Seu território abrangia cerca de 7.800 quilômetros quadrados em torno da baía de Western Port e da Península de Mornington, e eles se definem, antes de tudo, como 'saltwater people': gente da água salgada, profundamente ligada ao mar, aos estuários, às marés e ao litoral.
Durante dezenas de milhares de anos, os clãs Boonwurrung —entre eles o Mayone-bulluk e o Boonwurrung-balluk— viveram da fartura das duas baías. Coletavam mariscos, pescavam, caçavam nas áreas alagadas e nas florestas do interior e se deslocavam pelo território conforme as estações, seguindo um calendário finíssimo de ciclos naturais. Os grandes sambaquis (middens) que ainda existem no litoral —montes de conchas acumuladas ao longo de gerações— são testemunho material dessa vida junto ao mar e são sítios sagrados, hoje protegidos.
A cultura Boonwurrung, como a de todos os Primeiros Povos australianos, se apoia no Dreaming (Tempo do Sonho): a trama de histórias, leis e responsabilidades que explicam como a paisagem foi criada e como as pessoas devem cuidar dela. A baía, os cabos, os riachos e os morros não eram 'recursos', e sim parentes e presenças vivas dentro dessa ordem. Esse vínculo não se rompeu com a colonização: os Boonwurrung continuam sendo os Traditional Owners desta terra, mantêm sua cultura viva e participam do cuidado de sítios e parques da península.
Em outubro de 1803, quase três décadas antes da fundação de Melbourne, a Península de Mornington foi palco da primeira tentativa de assentamento europeu em todo o território que hoje é o estado de Victoria. O tenente-coronel David Collins chegou a Sullivan Bay, ao lado da atual Sorrento, à frente de uma expedição britânica que trazia funcionários, soldados, colonos livres e cerca de 300 condenados, com a ordem de estabelecer uma colônia penal na entrada da baía de Port Phillip.
O encontro com os donos daquela terra foi violento desde o início. Ao desembarcar, os recém-chegados toparam com um grupo de Boonwurrung; eles os perseguiram, atiraram neles —matando pelo menos um homem— e queimaram seus abrigos. Depois, Collins tentou acalmar a situação distribuindo cobertores e biscoitos, um gesto que não apagava a brutalidade do primeiro contato. Esse episódio inaugural antecipou o padrão de espoliação e sofrimento que a colonização traria para os Primeiros Povos de toda a Austrália.
A colônia de Sullivan Bay fracassou rápido. A região não oferecia água doce de fácil acesso nem solos que Collins considerasse adequados, e em fevereiro de 1804 o assentamento foi abandonado e transferido para o que hoje é Hobart, na Tasmânia. Assim, o primeiro assentamento europeu de Victoria durou apenas alguns meses. Mas deixou uma marca: hoje o sítio de Sullivan Bay, em Sorrento, é um local histórico que lembra esse começo passageiro e seu custo humano. A colonização de fato da península chegaria décadas depois, após a fundação de Melbourne em 1835.
Depois da fundação de Melbourne em 1835 e da separação de Victoria como colônia em 1851, a Península de Mornington foi sendo povoada por colonos. O território Boonwurrung, tomado sem tratado, foi dividido em fazendas de gado e sítios; surgiram pomares, vinhedos primitivos e serrarias que exploravam as florestas costeiras. A colonização trouxe doenças, espoliação e deslocamento para os Primeiros Povos, cuja população caiu drasticamente em poucas décadas, embora eles nunca tenham desaparecido.
A entrada da baía de Port Phillip, com seu perigoso canal conhecido como The Rip, exigiu infraestrutura marítima. Em 1859 foi aceso o farol de Cape Schanck, na costa selvagem do estreito de Bass, um dos mais antigos de Victoria, para guiar os navios que se aproximavam de Melbourne. Em Point Nepean, na ponta oeste, foram erguidas fortificações e uma estação de quarentena: o Fort Nepean vigiava a boca da baía e, segundo a tradição, dali foi disparado um dos primeiros tiros aliados da Primeira Guerra Mundial, em 1914.
Com o boom de Melbourne durante a corrida do ouro e a prosperidade vitoriana, a península virou o destino de veraneio da cidade. Sorrento e Portsea floresceram como balneários elegantes, com grandes hotéis, píeres, banhos de mar e mansões da elite. Dessa época de banhos recatados nasceram as 'bathing boxes', as cabines de madeira onde os banhistas trocavam de roupa e que hoje —pintadas de cores vivas— são um dos símbolos mais queridos do litoral. A chegada da balsa e, mais tarde, do automóvel aproximou a península das multidões e consolidou sua vocação turística.
O século XX transformou a península de balneário vitoriano em destino de estilo de vida. A partir das décadas de 1970 e 1980, um punhado de pioneiros plantou vinhedos nas colinas do interior apostando em variedades de clima frio —Pinot Noir, Chardonnay, Pinot Gris—, e o clima marítimo e os solos fizeram o resto: hoje a Península de Mornington é uma das regiões vinícolas boutique mais prestigiadas da Austrália, com dezenas de vinícolas familiares, cellar doors e restaurantes no campo que atraem gourmets do país inteiro.
O século XXI acrescentou um segundo motor: a água. Em 2005 foram inauguradas as Peninsula Hot Springs, que aproveitam a água mineral geotérmica do subsolo para criar um complexo de banhos ao ar livre que transformou a península na capital do bem-estar do sul da Austrália. Depois vieram outros centros termais, e o 'wellness' —termas, spa, ioga, retiros— passou a ser parte central da oferta, ao lado do vinho e das praias.
Ao mesmo tempo, cresceu a consciência sobre a história profunda do lugar. Os Boonwurrung, Traditional Owners da península, mantêm sua cultura viva e participam cada vez mais da interpretação de sítios, do cuidado de parques e sambaquis e do reconhecimento público de seu Country. Muitos parques e órgãos públicos abrem seus eventos com um Welcome to Country ou um Acknowledgement of Country, que homenageia os guardiões ancestrais desta terra.
Hoje a Península de Mornington é, ao mesmo tempo, o quintal de fim de semana de Melbourne e um destino por si só: falésias e faróis do lado do estreito de Bass, praias calmas e cabines coloridas do lado da baía, vinhedos e termas no meio, e uma história que vai dos saltwater people ao turismo de bem-estar. Percorrê-la é ler, numa mesma paisagem, dezenas de milhares de anos de vida junto ao mar.