Os Grampians — Gariwerd para seus donos aborígenes — são um dos grandes segredos de Victoria: uma cadeia de serras de arenito que se ergue de repente sobre as planícies do oeste do estado, com mirantes de tirar o fôlego, cachoeiras escondidas, cangurus pastando nas ruas de Halls Gap e, acima de tudo, a maior concentração de arte rupestre aborígene do sudeste da Austrália. É o destino perfeito para quem quer natureza, trilhas e cultura milenar a apenas três horas de Melbourne.
O cartão-postal clássico é The Pinnacle, um mirante ao qual se chega depois de uma caminhada entre paredões de rocha, com vistas vertiginosas sobre o vale de Halls Gap. Mas tem muito mais: as sacadas rochosas de The Balconies, as panorâmicas de Reeds e Boroka Lookout, as cachoeiras MacKenzie e Silverband, os abrigos com pinturas de milhares de anos e uma fauna fácil de ver (cangurus, emus, cacatuas). E no centro fica Halls Gap, uma cidadezinha tranquila, ideal como base, com o centro cultural aborígene Brambuk como primeira parada obrigatória.
Este guia organiza tudo o que é prático: quais mirantes e cachoeiras ver e em que ordem, quanto custam a entrada no parque e os tours saindo de Melbourne, onde dormir em Halls Gap, quando ir para pegar tempo bom e ver a fauna e — muito importante para 2026 — quais setores estão fechados por obras. Também conta como respeitar a arte rupestre e a cultura dos povos jardwadjali e djab wurrung. Tudo verificado em julho de 2026.
Gariwerd é um lugar central no Dreaming dos povos jardwadjali (jadawadjali) e djab wurrung, seus Donos Tradicionais, presentes aqui há mais de 20.000 anos. Segundo a tradição deles, o Grande Espírito Ancestral Bunjil criou estas serras, seus lagos, rios e animais. O parque guarda uns 60 sítios de arte rupestre com mais de 4.000 motivos — 90% da arte rupestre de Victoria —, e perto dali, em Black Range, fica o Abrigo de Bunjil, a única pintura conhecida do criador Bunjil na Austrália. O nome europeu 'Grampians' foi dado pelo agrimensor Thomas Mitchell em 1836; desde 1998 vale o nome duplo Gariwerd. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The smallest state on the mainland and the richest during the gold rush: land of the Kulin nations, colonised from 1835 around Melbourne, transformed by the gold of Ballarat and Bendigo and by the Eureka rebellion of 1854, seen as the cradle of Australian democracy.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Estas serras, que se erguem de repente sobre as planícies do oeste de Victoria, têm um nome muito mais antigo que 'Grampians': Gariwerd. É assim que as chamam seus Donos Tradicionais, os povos jardwadjali (jadawadjali) e djab wurrung, que habitam esta região há mais de 20.000 anos. Para eles, Gariwerd não é uma paisagem turística, e sim um lugar central do seu Dreaming, tão carregado de sentido que quase cada pico, vale e caverna tem a sua história.
No coração dessa cosmovisão está Bunjil, o Grande Espírito Ancestral em forma de águia (Werpil). Segundo a tradição, foi Bunjil quem criou o mundo: as montanhas, os lagos, as florestas, os rios, as planícies e o mar, e também todas as plantas e todos os animais. Quando terminou de dar forma às belas serras de arenito de Gariwerd, ele costumava assumir a forma da águia para contemplar sua obra lá do alto. Por isso este lugar é sagrado: é, literalmente, uma das obras do criador.
Durante milênios, Gariwerd foi um lugar de fartura e de encontro. Suas serras davam abrigo, água, plantas medicinais e caça; suas cavernas e abrigos rochosos serviam de moradia e de tela. Os jardwadjali e djab wurrung tinham um conhecimento profundo das estações do território, e as serras eram ponto de encontro de diferentes grupos para cerimônias, trocas e casamentos. Toda essa vida ficou registrada, sobretudo, em algo que sobrevive até hoje e que faz de Gariwerd um lugar único: sua arte rupestre.
Gariwerd guarda um dos tesouros culturais mais importantes da Austrália: aqui se concentra cerca de 90% de toda a arte rupestre do estado de Victoria. Foram identificados uns 60 sítios com mais de 4.000 motivos pintados — mãos em negativo, figuras humanas, animais, linhas e símbolos — feitos em ocre pelos jardwadjali e djab wurrung ao longo de milhares de anos. Cada sítio tem seu nome em língua aborígene e seu significado: Ngamadjidj ('os brancos' ou os espíritos), Gulgurn Manja ('as mãos das crianças'), Billimina, Manja... Não são 'desenhos': são documentos vivos de uma cultura milenar, ligados a histórias, cerimônias e leis.
O mais extraordinário fica logo fora do parque, em Black Range, perto de Stawell: o Abrigo de Bunjil (Bunjil's Shelter). É a única representação rupestre conhecida de Bunjil, o ser criador, em toda a Austrália. A pintura mostra Bunjil acompanhado de seus dois dingos (Djurt-djurt e Thara), e é um dos sítios aborígenes mais significativos do sudeste do continente. Estar diante da única imagem do criador pintada por mãos ancestrais é um privilégio que impõe respeito.
Essa arte é frágil e sagrada. Por isso hoje é protegida com grades e passarelas, é proibido tocá-la ou iluminá-la com flash, e muitos sítios são mais bem visitados com guias aborígenes. O centro cultural Brambuk, em Halls Gap — administrado por comunidades jardwadjali e djab wurrung —, é o melhor lugar para entender o que tudo isso significa antes de sair para percorrer os abrigos. Compreender a arte rupestre é compreender que Gariwerd foi, e continua sendo, um lugar habitado e amado desde muito antes de chegar qualquer pessoa de fora.
O primeiro europeu a chegar foi o agrimensor e explorador escocês Thomas Mitchell (o 'Major Mitchell'), em 1836, durante sua expedição pelo oeste do que hoje é Victoria. Mitchell ficou tão deslumbrado com a fertilidade das planícies que as batizou de 'Australia Felix' (a Austrália afortunada). E, ao ver estas serras de arenito se erguendo sobre a planície, lembrou-se das montanhas Grampian da sua Escócia natal: assim, de uma canetada, chamou-as de 'the Grampians', apagando dos mapas oficiais o nome Gariwerd que elas já tinham havia milênios.
O romantismo de Mitchell teve consequências devastadoras. Seus relatórios entusiasmados sobre pastagens férteis e rios mansos funcionaram como um convite aberto à colonização: a partir do fim da década de 1830, ondas de colonos pecuaristas (pastoralists) invadiram o oeste de Victoria para se apropriar dessas terras. A própria expedição de Mitchell já tinha deixado violência pelo caminho, com confrontos e um aborígene ferido a bala. O que veio depois foi pior: o avanço das fazendas sobre Gariwerd e o Wimmera trouxe espoliação, conflitos de fronteira e massacres que dizimaram os povos jardwadjali e djab wurrung.
Em poucas décadas, a população aborígene da região despencou por causa das doenças, da violência e da perda do acesso ao seu Country. Muitos sobreviventes foram confinados em missões como Lake Condah e Ebenezer, longe de suas terras e cerimônias, onde se tentou suprimir suas línguas e sua cultura. A beleza 'selvagem' que os turistas admiram hoje é, em grande parte, uma terra que foi esvaziada de sua gente à força. Por trás de cada mirante e de cada cachoeira dos Grampians existe, portanto, uma história de espoliação que só agora começa a ser contada em voz alta.
A história recente destas serras é a de um nome e de uma cultura que voltam. Em 1984, depois de quase um século de esquecimento, foi criado o Grampians National Park, protegendo o coração das serras. E no fim dos anos 80, o governo de Victoria deu início a um processo pioneiro: restaurar os nomes aborígenes da paisagem. Em 1991, após dois anos de consulta, o parque passou a se chamar oficialmente Grampians (Gariwerd) National Park, e muitos acidentes geográficos recuperaram seus nomes jardwadjali e djab wurrung. Foi polêmico: uma mudança de governo em 1992 reverteu parte da medida. Mas a Lei de Nomes Geográficos de 1998 restabeleceu o sistema de nomes duplos, e hoje 'Gariwerd' aparece ao lado de 'Grampians' no registro de Patrimônio Nacional.
Esse gesto — devolver o nome — faz parte de um reconhecimento mais amplo. Os povos jardwadjali e djab wurrung, por meio de organizações como a Budja Budja Aboriginal Cooperative e o centro cultural Brambuk, participam cada vez mais do cuidado e da interpretação do parque, e sua cultura é hoje uma das grandes atrações de Gariwerd, não uma nota de rodapé. Nos últimos anos, a Parks Victoria elaborou planos de manejo que protegem melhor os sítios de arte rupestre e incorporam a voz aborígene às decisões, às vezes com debate sobre como equilibrar o turismo, a escalada e a conservação cultural.
Hoje Gariwerd é ao mesmo tempo um parque natural espetacular e uma paisagem cultural viva. O visitante pode caminhar até The Pinnacle, ver cangurus ao entardecer em Halls Gap e tirar fotos de Boroka, mas também parar diante de pinturas de milhares de anos, ouvir a história de Bunjil criando estas serras e entender que está pisando na obra de um criador e na terra ancestral de dois povos que nunca foram embora. Chamar este lugar pelo seu nome completo — Grampians (Gariwerd) — é, por si só, um pequeno ato de justiça.