Canberra é a capital da Austrália e, ao mesmo tempo, a cidade mais incompreendida do país: os próprios australianos a veem como um lugar de burocratas e políticos, mas quem a visita descobre uma capital verde, tranquila e surpreendentemente rica em cultura. É uma cidade única, inteiramente planejada no início do século XX pelos arquitetos americanos Walter Burley Griffin e Marion Mahony Griffin, com um desenho de círculos, eixos e avenidas radiais organizados em torno de um grande lago artificial, o lago Burley Griffin, e cercada de colinas e reservas naturais.
Seu grande atrativo são as instituições nacionais, quase todas gratuitas e de primeira linha: o comovente Australian War Memorial (um dos museus de guerra mais importantes do mundo), o Parlamento com seu gramado onde se pode pisar, a Galeria Nacional, o Museu Nacional da Austrália, a Galeria Nacional de Retratos, a Biblioteca Nacional e o interativo Questacon para as crianças. Somam-se a isso jardins, mirantes sobre a cidade, uma cena gastronômica e de vinhos de clima frio em alta, e o festival de tulipas Floriade, que na primavera transforma a capital em um mar de flores.
Este guia percorre Canberra com olhar prático e curioso: como aproveitar os museus nacionais gratuitos, visitar o Parlamento e o War Memorial, passear de bicicleta ou de barco pelo lago Burley Griffin, subir aos mirantes do Monte Ainslie e da Black Mountain, e curtir o Floriade e as vinícolas próximas. É uma capital pensada nos mínimos detalhes, ideal para dois ou três dias de cultura, história e natureza, e muito mais divertida do que sua fama de 'cidade de governo' sugere.
Canberra é Country tradicional dos povos ngunnawal e ngambri, que habitaram as 'Limestone Plains' (planícies calcárias) por mais de 20.000 anos e se reuniam na região para grandes encontros cerimoniais, entre eles a temporada das mariposas bogong. O nome derivaria de 'Kamberra/Nganbra', associado à ideia de 'lugar de encontro'. Os colonos europeus chegaram na década de 1820 e a área virou terra de pastores. Quando, em 1901, as colônias australianas se federaram, Sydney e Melbourne disputaram o posto de capital, e a solução foi criar uma capital nova e neutra em um território próprio: em 1908 o local foi escolhido, em 1911-1912 foi lançado o concurso internacional vencido pelos Griffin, e em 1913 Canberra foi fundada e oficialmente batizada. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The small territory created from scratch to house the national capital: ancestral land of the Ngunnawal people, chosen in 1908 as a compromise in the rivalry between Sydney and Melbourne, and planned by the architect Walter Burley Griffin. Its city, Canberra, is the seat of federal power.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de existir uma capital, antes mesmo de existir a ideia da Austrália como nação, as suaves planícies onduladas onde hoje fica Canberra eram Country dos povos ngunnawal e ngambri, junto com grupos vizinhos como os ngarigo e os walgalu. Eles viveram ali por mais de 20.000 anos, numa região que os colonos chamariam depois de 'Limestone Plains' (planícies calcárias), por causa dos afloramentos de calcário do vale do rio Molonglo.
O próprio nome da cidade guarda essa memória: 'Canberra' vem de uma palavra local —registrada como 'Kamberra', 'Nganbra' ou 'Canberry'— que costuma ser traduzida como 'lugar de encontro' ou 'lugar de reunião'. E era isso, literalmente: todo verão, quando as mariposas bogong migravam em enxames e se abrigavam aos milhões nas fendas das montanhas próximas (as Brindabellas e os Alpes), diferentes grupos aborígenes de uma vasta região se reuniam nas alturas para festejar e se banquetear com essas mariposas ricas em gordura, em grandes encontros cerimoniais, de comércio e de casamentos. A região era um ponto de reunião sazonal de enorme importância cultural.
Essa vida seguia um calendário finamente ajustado à terra: a caça, a pesca nos rios, a coleta e as cerimônias marcavam o ano. A paisagem não era um vazio a ser 'colonizado', e sim um território cheio de nomes, histórias do Dreaming e responsabilidades de cuidado transmitidas por incontáveis gerações. Reconhecer que Canberra é, antes de tudo, um 'lugar de encontro' ngunnawal e ngambri é o ponto de partida para entender por que, milênios depois, foi justamente aqui que se escolheu o coração da nação.
A chegada dos europeus ao vale foi relativamente tardia e, no começo, ligada à pecuária. O explorador Charles Throsby percorreu a região por volta de 1820-1821 e batizou a área de Limestone Plains. Poucos anos depois começaram a chegar os colonos: em 1823-1824, Joshua John Moore obteve terras às margens do Molonglo e chamou sua fazenda de 'Canberry', pegando o nome que os aborígenes locais davam ao lugar. Outras famílias de criadores —os Campbell em Duntroon, os Murray em Yarralumla— foram ocupando o vale com grandes propriedades de ovelhas.
Durante quase todo o século XIX, a região foi um tranquilo distrito rural da colônia de Nova Gales do Sul: fazendas, igrejas de pedra (como a histórica St John's, de 1845, ainda de pé em Reid) e pequenos povoados. A vida dos ngunnawal, por outro lado, foi devastada: a ocupação de suas terras e águas, as doenças trazidas pelos europeus e a violência de fronteira reduziram drasticamente a população originária e a empurraram para fora de seu Country, mas ela nunca desapareceu: os descendentes ngunnawal e ngambri continuam presentes e reivindicam hoje sua conexão ininterrupta com a terra.
Nada naquele vale pacato de fazendas indicava que um dia ele se tornaria a capital de um país. Mas a política nacional, no início do século XX, tinha outros planos.
Em 1 de janeiro de 1901, as seis colônias britânicas da Austrália se uniram numa federação e nasceu a Commonwealth of Australia. Mas logo surgiu uma briga: qual seria a capital do novo país? As duas grandes cidades rivais, Sydney e Melbourne, disputavam ferozmente essa honra, e nenhuma aceitava que fosse a outra. A solução, consagrada na própria Constituição, foi salomônica: seria criada uma capital nova, num território federal próprio, localizada em Nova Gales do Sul, mas a no mínimo 100 milhas (cerca de 160 km) de Sydney. Enquanto ela era construída, Melbourne seria a capital provisória.
Depois de anos de busca e de disputas sobre o local, em 1908 foi escolhido o terreno das Limestone Plains, no vale do Molonglo. Em 1911 foi criado o Território da Capital Federal (hoje ACT) e lançado um concurso internacional para projetar a cidade do zero. Venceu, em 1912, a proposta do arquiteto paisagista de Chicago Walter Burley Griffin, elaborada com sua esposa e sócia, a também arquiteta Marion Mahony Griffin, cujos desenhos primorosos foram decisivos para convencer o júri. Os Griffin, formados na órbita de Frank Lloyd Wright e do movimento das 'cidades-jardim', imaginaram uma capital de eixos geométricos, círculos concêntricos e avenidas radiais, integrada à paisagem de colinas e organizada em torno de um grande lago artificial.
Em 12 de março de 1913 aconteceu a cerimônia de fundação e a cidade recebeu seu nome oficial: Canberra, resgatando a antiga palavra aborígene do 'lugar de encontro'. Nascia assim, sobre planícies de ovelhas, uma das poucas capitais do mundo totalmente planejadas antes de existir.
Construir Canberra foi uma tarefa lenta e cheia de tropeços. Os Griffin esbarraram na burocracia e em conflitos administrativos, e Walter deixou a direção do projeto em 1920, com boa parte de sua visão ainda no papel. A Primeira Guerra Mundial e a Grande Depressão frearam as obras. Em 1927 foi inaugurada a Casa Provisória do Parlamento (a atual Old Parliament House), um prédio branco pensado como solução temporária que acabaria abrigando o Parlamento por mais de sessenta anos, e o governo federal começou a se mudar de Melbourne para a nova capital.
Durante décadas, Canberra foi uma cidade pequena, espalhada e pela metade, alvo de piadas por seu caráter artificial e sua falta de vida. O grande impulso veio nas décadas de 1950 e 1960, quando a National Capital Development Commission acelerou seu desenvolvimento. O marco simbólico foi a criação, em 1963-1964, do lago Burley Griffin, com o represamento do rio Molonglo: finalmente se concretizava a peça central do plano dos Griffin, e ao redor do espelho d'água foram se instalando, ano após ano, as grandes instituições nacionais —a Biblioteca Nacional, a Galeria Nacional, o Supremo Tribunal, o Museu Nacional— e o comovente Australian War Memorial, inaugurado em 1941 ao pé do Monte Ainslie.
Em 1988, no bicentenário da Austrália, foi inaugurado o novo Parliament House na Capital Hill, com seu projeto revolucionário de prédio 'dentro da colina', coberto de grama onde dá para pisar. Com ele, Canberra finalmente completava seu grande eixo cerimonial: War Memorial, ANZAC Parade, lago e Parlamento alinhados numa única linha reta, exatamente como os Griffin tinham sonhado.
Hoje Canberra é uma cidade de cerca de 460.000 habitantes, a maior do interior da Austrália, e uma capital madura que deixou para trás boa parte da sua fama de chata. Sede do governo federal, dos ministérios, de embaixadas do mundo todo, da Universidade Nacional Australiana (ANU) e das grandes instituições culturais, ela combina um altíssimo nível educacional e de qualidade de vida com um entorno excepcionalmente verde: é chamada de 'a bush capital' pela quantidade de reservas naturais, parques e árvores que a cercam e se infiltram nela, onde é comum cruzar com cangurus no fim da tarde.
A cidade ganhou vida própria nas últimas décadas: bairros gastronômicos como Braddon, a orla de Kingston Foreshore, uma cena de cafés e bares, a região vinícola de clima frio do distrito de Canberra e grandes festivais como o Floriade, o maior festival de flores do hemisfério sul, que toda primavera enche de tulipas as margens do lago. Continua sendo, é claro, uma capital tranquila e de escala humana, bem diferente da agitação de Sydney ou Melbourne.
Ao mesmo tempo, Canberra vem assumindo sua história mais incômoda. Em frente à Old Parliament House, a Aboriginal Tent Embassy —um acampamento de protesto montado por ativistas aborígenes em 1972— continua de pé como símbolo permanente da luta dos Primeiros Povos por seus direitos e sua terra, e é um dos lugares políticos mais significativos do país. O reconhecimento do Country ngunnawal e ngambri, a presença da cultura aborígene em museus e cerimônias e a reflexão sobre o passado colonial fazem parte hoje da vida da capital.
Para o viajante, entender que Canberra foi, milênios antes de ser uma capital planejada, um 'lugar de encontro' dos povos originários —e que essa mesma ideia de reunião acabou definindo a cidade projetada para unir uma nação— torna muito mais profunda a visita a esta capital verde, jovem e singular.