Taupo fica às margens do maior lago da Nova Zelândia, um espelho d'água turquesa do tamanho de Singapura que, na verdade, é a cratera de um supervulcão. Sob sua superfície tranquila pulsa uma das zonas geotérmicas e vulcânicas mais poderosas do planeta: a mesma que, há cerca de 26.500 anos, protagonizou a maior erupção do mundo em tempos recentes. Hoje esse passado de fogo se traduz em cataratas de um azul impossível, campos fumegantes, águas termais e uma energia que faz de Taupo a capital da aventura da Ilha Norte.
A poucos minutos da cidade se concentram as cataratas Huka — a queda d'água mais visitada do país —, a paisagem lunar dos Craters of the Moon, piscinas termais para se banhar e um lago para navegar, pescar trutas, andar de caiaque ou ir até os monumentais entalhes maori de Mine Bay. Taupo é, além disso, a capital mundial do paraquedismo: saltar sobre o lago com os vulcões nevados ao fundo é uma das experiências mais procuradas da Nova Zelândia. E ao sul, logo ali, esperam os vulcões do Tongariro.
Este guia percorre Taupo com um olhar prático e curioso: como ver as cataratas Huka e os Craters of the Moon, onde se banhar em águas termais, como atravessar o lago até os entalhes maori, onde saltar de paraquedas e como usar a cidade como base para o Tongariro Alpine Crossing e as pistas do Ruapehu. É um destino de água, adrenalina e vulcões, no centro geográfico e espiritual da Ilha Norte.
O lago Taupo (Taupō-nui-a-Tia) ocupa a caldeira de um supervulcão cuja erupção de Oruanui, há cerca de 26.500 anos, foi a maior do mundo nos últimos 70.000 anos; outra erupção, por volta de 232 d.C. (Hatepe), foi uma das mais violentas da história humana. A região é terra ancestral do iwi Ngāti Tūwharetoa, cuja linhagem remonta ao navegador Ngātoroirangi, da canoa Te Arawa, que segundo a tradição reivindicou a região e suas montanhas. Em 1887, o chefe supremo Te Heuheu Tūkino IV (Horonuku) doou os cumes sagrados de Tongariro, Ngāuruhoe e Ruapehu à Coroa para protegê-los, dando origem em 1894 ao primeiro parque nacional do país e ao quarto do mundo. Depois, Taupo cresceu como cidade de pesca de trutas, turismo e aventura. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The geothermal and spiritual heart of the North Island: the land of the Te Arawa confederation, where New Zealand tourism was born around the legendary Pink and White Terraces, destroyed by the eruption of Mount Tarawera in 1886. Here the geysers of Rotorua bubble away and the active volcanoes of Tongariro rise up.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
O lago Taupo não é um lago qualquer: é a cicatriz, cheia de água, de uma das maiores explosões da história da Terra. Sob sua superfície serena de 616 km², do tamanho de Singapura, dorme um supervulcão que remodelou o centro da Ilha Norte várias vezes ao longo de milênios. Entender Taupo começa por entender que você está, literalmente, dentro da cratera.
A erupção mais colossal foi a de Oruanui, há cerca de 26.500 anos: a maior erupção vulcânica do mundo nos últimos 70.000 anos. Ela expeliu centenas de quilômetros cúbicos de material, cobriu grande parte da Nova Zelândia de cinzas e fez o terreno desabar, formando a caldeira que hoje abriga o lago. Milhares de anos depois, por volta do ano 232 d.C., a erupção de Hatepe voltou a sacudir a região com uma das erupções mais violentas registradas na história humana: sua coluna eruptiva chegou a dezenas de quilômetros de altura e seus fluxos arrasaram a paisagem. Curiosamente, acredita-se que essa erupção tingiu céus tão distantes quanto os da China antiga e de Roma, onde cronistas descreveram pores do sol vermelhos fora do comum.
Essa herança de fogo explica tudo em Taupo: as cataratas Huka de água turquesa, os campos fumegantes de Craters of the Moon e Wairakei, as águas termais e a usina geotérmica. O vulcão continua classificado como ativo, embora sua última erupção tenha sido há quase dois milênios. Para o viajante, saber que aquele lago tranquilo é a boca adormecida de um gigante acrescenta uma camada de assombro a cada paisagem da região.
Muito antes de a ciência medir caldeiras e erupções, os maoris já tinham sua própria explicação para esta terra de fogo, e também seu próprio domínio sobre ela. A região de Taupo e as montanhas do centro da Ilha Norte são o coração do iwi Ngāti Tūwharetoa, um dos grandes povos maoris. Sua linhagem remonta a mais de trinta gerações, e sua autoridade (mana) sobre o lago e os vulcões é central em toda a história da região.
Segundo a tradição, o grande navegador e tohunga (sacerdote) Ngātoroirangi, que chegou a Aotearoa na canoa Te Arawa, explorou o interior da Ilha Norte e reivindicou estas terras. Um relato famoso conta que, preso por um frio mortal nos cumes do Tongariro, Ngātoroirangi clamou às suas irmãs espirituais em Hawaiki que lhe enviassem fogo para se salvar. O fogo viajou por baixo da terra desde o distante Pacífico e emergiu numa cadeia de pontos vulcânicos (o vulcão da ilha White Island, Rotorua, Taupo, o Tongariro), dando origem, segundo essa tradição, a toda a atividade geotérmica da região. Esse fogo ancestral é a explicação maori para os gêiseres e as fumarolas que a geologia atribui à zona vulcânica.
De Ngātoroirangi descende Tūwharetoa, que dá nome ao iwi. O nome completo do lago, Taupō-nui-a-Tia, homenageia outro ancestral, Tia, que explorou a região: significa 'a grande capa (ou manto) de Tia'. Os entalhes monumentais de Mine Bay, esculpidos na rocha no final dos anos 70, representam justamente Ngātoroirangi. Eles lembram a todos que estas águas e estas montanhas têm donos ancestrais e um relato sagrado que antecede em séculos qualquer mapa europeu.
Os primeiros europeus chegaram ao interior da Ilha Norte no século XIX, muito depois de chegarem ao litoral. Exploradores e missionários alcançaram a região do lago quando Ngāti Tūwharetoa já era uma potência consolidada. A assinatura do Tratado de Waitangi em 1840, o acordo fundador entre a Coroa britânica e os chefes maoris, marcou o início formal da relação com o Estado colonial, embora no interior o poder real tenha ficado por muito tempo nas mãos dos iwi. Durante as Guerras da Nova Zelândia (New Zealand Wars), nas décadas de 1860 e 1870, a região viveu tensões e conflitos, e em Taupo foi instalado um posto militar (redoubt) que deu origem ao assentamento europeu da cidade atual.
O episódio mais luminoso e visionário dessa época veio em 1887. O chefe supremo de Ngāti Tūwharetoa, Te Heuheu Tūkino IV (Horonuku), enfrentava uma ameaça: a pressão dos colonos para dividir e vender as terras podia acabar fragmentando os cumes sagrados dos vulcões Tongariro, Ngāuruhoe e Ruapehu, coração espiritual de seu povo. Para protegê-los de forma permanente, Horonuku tomou uma decisão sem precedentes: doou os cumes dessas montanhas à Coroa com a condição de que fossem preservados como um parque protegido para toda a nação, maoris e pākehā por igual.
Esse gesto, um dos primeiros exemplos no mundo de conservação liderada por um povo indígena, deu origem em 1894 ao Parque Nacional Tongariro, o primeiro parque nacional da Nova Zelândia e o quarto do planeta. Foi uma forma brilhante de blindar o sagrado usando as próprias ferramentas legais do colonizador. Hoje esse parque, pertinho de Taupo, é Patrimônio da Humanidade tanto por sua natureza vulcânica quanto por seu valor cultural maori, e continua lembrando a sabedoria da decisão de Horonuku.
No final do século XIX e no começo do XX, Taupo começou a se transformar no destino que é hoje, impulsionada por dois recursos: seus peixes e sua energia. A introdução da truta arco-íris e da truta-marrom no lago e em seus rios, nas últimas décadas do século XIX, criou uma pesca de fama mundial. O lago Taupo virou um dos melhores lugares do planeta para pescar trutas e atraiu pescadores esportivos do mundo inteiro, incluindo figuras como o escritor americano Zane Grey. Isso lançou as bases da economia turística da cidade, que até hoje vive em boa parte da pesca.
O outro grande recurso foi o vapor. Em 1958 foi inaugurada, no vizinho vale de Wairakei, a usina geotérmica de Wairakei, uma das primeiras do mundo a gerar eletricidade a partir do vapor do subsolo, pioneira em nível global. Sua construção alterou a pressão da região e, entre outras coisas, intensificou a atividade de Craters of the Moon, hoje uma atração. Assim Taupo se firmou como a capital da energia geotérmica do país, mostrando como a força vulcânica podia ser aproveitada.
Com a melhoria das estradas que ligam Auckland a Wellington e passam por Taupo, bem no centro da Ilha Norte, a cidade cresceu como parada obrigatória de viajantes. Às cataratas Huka, ao lago e às termas somaram-se, nas últimas décadas, as atividades de adrenalina que tornaram a Nova Zelândia famosa: Taupo virou a capital mundial do paraquedismo, com saltos sobre o lago e os vulcões, e ganhou ainda bungy, jet boat e muito mais. De vila de pescadores e posto militar, passou a ser um centro de aventura e natureza de primeira linha.
A Taupo do século XXI combina o relax do lago com a energia da aventura. É uma cidade próspera e muito visitada, base ideal para explorar o centro da Ilha Norte. Da orla você sai para pescar trutas, navegar até os entalhes maoris, saltar de paraquedas ou fazer o lendário Tongariro Alpine Crossing, considerado a melhor trilha de um dia do país. No inverno, as pistas de esqui do Ruapehu ficam a pouco mais de uma hora. Tudo isso faz de Taupo um destino para as quatro estações.
A presença de Ngāti Tūwharetoa continua profunda e viva. O iwi mantém seu mana sobre o lago Taupo: num acordo histórico, o leito do lago e muitos de seus rios são propriedade de Ngāti Tūwharetoa, que participa de sua gestão e conservação. Os entalhes de Mine Bay, os nomes de lugares em te reo, as celebrações culturais e o papel do iwi na vida regional lembram que esta é, antes de tudo, terra Tūwharetoa. O gesto histórico de Horonuku em 1887 segue como símbolo de uma relação entre povo e montanha que antecede qualquer turista.
Para o viajante, conhecer essa história enriquece cada paisagem. O lago sereno é a boca de um supervulcão que ajudou a moldar o país. A água turquesa das cataratas Huka e o vapor de Craters of the Moon são manifestações do mesmo fogo que, segundo Ngāti Tūwharetoa, Ngātoroirangi mandou vir de Hawaiki. E os vulcões que se veem ao sul são um presente que um chefe maori deu à nação inteira para protegê-los. Taupo é água, adrenalina e vulcões, sim, mas também é uma das lições mais eloquentes de como, em Aotearoa, a natureza e a cultura dos Povos Originários são inseparáveis.