O Parque Nacional Tongariro é o coração vulcânico e espiritual da Ilha Norte: uma paisagem de outro planeta onde três vulcões ativos (o maciço do Ruapehu, o cone perfeito do Ngāuruhoe e as cristas do Tongariro) se erguem sobre um planalto de lava, crateras fumegantes e lagos de um turquesa impossível. É o parque nacional mais antigo da Nova Zelândia (1887) e um dos poucos lugares do mundo declarados Patrimônio da Humanidade duas vezes: pela natureza e pelo valor cultural para os maoris, que veneram essas montanhas como ancestrais vivos.
A grande atração é o Tongariro Alpine Crossing, considerado a melhor trilha de um dia da Nova Zelândia e uma das melhores do mundo: 20 quilômetros que cruzam crateras, campos de lava, fumarolas e os deslumbrantes Emerald Lakes (Ngā Rotopounamu), com o Ngāuruhoe, a 'Montanha da Perdição' de O Senhor dos Anéis, dominando o horizonte. No inverno, o mesmo parque vira a maior área de esqui do país, com as pistas de Whakapapa e Tūroa nas encostas do Ruapehu.
Este guia percorre o Tongariro com um olhar prático e curioso: como fazer o Alpine Crossing e por que você precisa de um shuttle, que outras trilhas e atividades o parque oferece, onde se hospedar (Whakapapa, National Park, Ohakune), como esquiar no Ruapehu e, acima de tudo, como visitá-lo com o respeito que uma terra sagrada merece. Por trás de cada cratera e de cada lago existe uma cosmologia maori e a história de um chefe que doou estas montanhas à nação para salvá-las.
Os vulcões do Tongariro são sagrados (tapu) para os iwi Ngāti Tūwharetoa e Ngāti Rangi, que os consideram ancestrais (tūpuna) vivos e locais de sepultamento de chefes. Segundo a tradição, o navegador Ngātoroirangi pediu fogo às irmãs em Hawaiki para não morrer de frio nestes cumes, e esse fogo deu origem à atividade vulcânica da região. Em 1887, para evitar que as montanhas fossem divididas e vendidas a colonos, o chefe supremo Te Heuheu Tūkino IV (Horonuku) doou os cumes do Tongariro, do Ngāuruhoe e do Ruapehu à Coroa, com a condição de que fossem protegidos para sempre. Isso deu origem, em 1894, ao primeiro parque nacional do país e ao quarto do mundo. Em 1990 ele foi declarado Patrimônio Mundial natural e, em 1993, tornou-se o primeiro sítio do mundo inscrito como paisagem cultural segundo os critérios revisados. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The geothermal and spiritual heart of the North Island: the land of the Te Arawa confederation, where New Zealand tourism was born around the legendary Pink and White Terraces, destroyed by the eruption of Mount Tarawera in 1886. Here the geysers of Rotorua bubble away and the active volcanoes of Tongariro rise up.
Ler a história de Bay of Plenty and the Central Plateau (Rotorua) →Saem de Taupo, a 79 km daqui. Se você reservar por este link ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Para entender o Tongariro, não basta a geologia: é preciso começar pela cosmologia maori, porque, para os povos desta terra, os vulcões não são montanhas, e sim ancestrais vivos. Os iwi Ngāti Tūwharetoa e Ngāti Rangi consideram o Ruapehu, o Ngāuruhoe e o Tongariro tūpuna (antepassados) com mana, personalidade e vontade próprias, seres sagrados (tapu) que fazem parte da sua whakapapa (genealogia) tanto quanto qualquer ancestral humano. Os picos também foram locais de sepultamento de chefes e lugares de enorme poder espiritual.
A tradição explica o fogo dessas montanhas com uma história famosa. O grande navegador e tohunga (sacerdote) Ngātoroirangi, que havia chegado a Aotearoa na canoa Te Arawa, subiu para explorar os cumes do centro da Ilha Norte e ficou preso em uma nevasca mortal. Prestes a morrer de frio, clamou às suas irmãs espirituais, que tinham ficado na distante Hawaiki, que lhe enviassem fogo para se salvar. O fogo viajou por baixo do mar e da terra desde o Pacífico e surgiu em uma cadeia de pontos ardentes — a ilha vulcânica de Whakaari (White Island), Rotorua, Taupo — até brotar no Tongariro e salvar Ngātoroirangi. Assim, diz a tradição, nasceu toda a atividade vulcânica da região.
Há também histórias que contam como os vulcões, em tempos ancestrais, eram seres que se moviam e lutavam entre si pelo amor de uma montanha, e como acabaram se fixando onde estão hoje. Essas histórias não são 'mitos' pitorescos para o visitante: são a forma como os Ngāti Tūwharetoa e os Ngāti Rangi conhecem, nomeiam e respeitam sua paisagem há séculos. Por isso, para eles, pisar no cume do Ngāuruhoe ou entrar nos lagos esmeralda é uma profanação. Visitar o parque com respeito começa por reconhecer que essas montanhas estão vivas para o seu povo.
No fim do século XIX, o mundo dos Ngāti Tūwharetoa estava ameaçado. Depois da assinatura do Tratado de Waitangi (1840) e das Guerras da Nova Zelândia nas décadas seguintes, a pressão dos colonos europeus sobre as terras maori era enorme. O sistema da Native Land Court fragmentava os títulos comunais em lotes individuais, mais fáceis de comprar, vender e perder. O chefe supremo dos Ngāti Tūwharetoa, Te Heuheu Tūkino IV, conhecido como Horonuku, temia que os cumes sagrados dos vulcões — o coração espiritual do seu povo — acabassem divididos e vendidos a especuladores pākehā, profanados e perdidos para sempre.
Em 1887, Horonuku tomou uma decisão visionária e sem precedentes. Em vez de deixar que as montanhas fossem fragmentadas, decidiu colocá-las sob uma proteção que nenhum colono pudesse quebrar: doou-as à Coroa com a condição expressa de que fossem conservadas como um parque protegido para o desfrute de todos, maori e pākehā por igual. Os picos do Tongariro, do Ngāuruhoe e parte do Ruapehu foram transferidos formalmente em setembro de 1887 (segundo alguns relatos, a ideia foi selada simbolicamente no marae). Foi uma jogada brilhante: usar as próprias ferramentas legais do colonizador para blindar o sagrado.
Daquele gesto nasceu, em 1894, o Parque Nacional Tongariro, o primeiro parque nacional da Nova Zelândia e apenas o quarto do mundo, depois de Yellowstone. É considerado um dos primeiros exemplos de conservação liderada por um povo indígena na história. Horonuku não 'deu' as montanhas no sentido de abrir mão delas: ele as protegeu e, na prática, garantiu que continuassem sendo um espaço compartilhado e respeitado. Sua decisão ecoa até hoje em cada visitante que percorre o parque.
O século XX transformou o entorno do parque, embora os cumes continuassem protegidos. A grande obra que abriu a região para o mundo foi a North Island Main Trunk, a linha ferroviária que ligou Auckland a Wellington, concluída em 1908, e que passa bem na borda oeste do parque. A ferrovia deu origem a cidadezinhas como National Park (Waimarino) e Ohakune, e levou pela primeira vez viajantes, montanhistas e, mais tarde, esquiadores até o sopé dos vulcões.
O turismo de montanha floresceu no período entre as guerras. Em 1929 foi inaugurado o majestoso Chateau Tongariro, um grande hotel em estilo georgiano ao pé do Ruapehu, no que viria a ser Whakapapa Village, símbolo do parque como destino de montanha. O esqui se desenvolveu nas encostas do Ruapehu, que com o tempo se tornaria a maior área esquiável do país, com as estações de Whakapapa e Tūroa. O Ruapehu, porém, lembrou periodicamente que é um vulcão muito ativo: suas erupções e lahares (avalanches de lama e água vindas do lago da cratera) marcaram a história do parque, incluindo a tragédia ferroviária de Tangiwai, em 1953, quando um lahar destruiu uma ponte e descarrilou um trem, causando 151 mortes, um dos piores desastres do país.
Durante essas décadas, a relação entre o Estado, que administrava o parque, e os iwi que o tinham doado nem sempre foi equilibrada: a voz maori ficou muitas vezes em segundo plano nas decisões sobre a 'sua' terra sagrada. Ainda assim, o parque cresceu como orgulho nacional e como uma das grandes paisagens da Nova Zelândia, atraindo montanhistas, esquiadores e, com o tempo, milhões de caminhantes para a trilha que se tornaria lendária: o Tongariro Alpine Crossing.
O reconhecimento internacional do Tongariro veio em dois momentos, e nesse duplo reconhecimento há uma história importante. Em 1990, o parque foi inscrito na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO por seus valores naturais: vulcões ativos, paisagens de lava e ecossistemas alpinos únicos. Era o reconhecimento clássico, centrado na geologia e na biologia.
Mas faltava o essencial para o seu povo. Em 1993, o Tongariro deu um passo histórico: tornou-se o primeiro lugar do mundo inscrito na lista de Patrimônio Mundial sob os critérios revisados que reconhecem as 'paisagens culturais'. Ou seja, a UNESCO reconheceu que o valor do parque não está apenas em suas rochas e em sua flora, mas no vínculo espiritual, cultural e ancestral que os maori têm com essas montanhas: os vulcões como tūpuna sagrados, as histórias de Ngātoroirangi, o mana dos Ngāti Tūwharetoa e dos Ngāti Rangi. Foi a primeira vez que o mundo protegeu formalmente um lugar, dessa maneira, pelo seu significado para um povo indígena.
Esse status duplo — Patrimônio natural e cultural — faz do Tongariro um caso quase único no planeta e consagra internacionalmente o que Horonuku entendeu em 1887: que essas montanhas são, ao mesmo tempo, maravilha geológica e catedral espiritual. O reconhecimento de 1993 também refletiu uma mudança de época na Nova Zelândia, com uma valorização crescente da cultura maori e dos princípios do Tratado de Waitangi na gestão da terra e do patrimônio.
Hoje o Parque Nacional Tongariro recebe centenas de milhares de visitantes por ano, atraídos sobretudo pelo Tongariro Alpine Crossing, considerado a melhor caminhada de um dia do país e uma das melhores do mundo. Atravessar suas crateras fumegantes, subir até a Red Crater e descer até os lagos esmeralda, com o cone do Ngāuruhoe — a Montanha da Perdição do cinema — dominando o horizonte, é uma das experiências que definem uma viagem à Nova Zelândia. No inverno, o parque se transforma no maior centro de esqui da Ilha Norte.
A gestão do parque envolve cada vez mais os iwi. Os Ngāti Tūwharetoa e os Ngāti Rangi participam das decisões sobre sua terra ancestral, e a voz deles mudou a forma de visitá-lo: hoje se pede que ninguém suba aos cumes sagrados — por isso não se sobe mais o Ngāuruhoe —, que não se toque nem se entre nas águas dos lagos tapu e que se tenha o respeito que um lugar espiritual merece, e não apenas um parque de aventura. Os alertas de atividade vulcânica do Ruapehu lembram, além disso, que esses ancestrais continuam bem vivos e podem despertar.
Para o viajante, conhecer essa história muda tudo. A paisagem deixa de ser um simples cenário espetacular e se revela como o que é: uma terra onde a geologia do fogo e a cosmologia de um povo se fundem, protegida pela sabedoria de um chefe que, há mais de um século, preferiu doar suas montanhas a perdê-las. Caminhar pelo Tongariro é caminhar sobre ancestrais, entre o vapor do enxofre e o verde impossível dos lagos, em um dos poucos lugares do mundo que a humanidade reconheceu, ao mesmo tempo, como maravilha natural e como sagrado. Ir com esse respeito é a melhor forma de honrar quem nos permite estar ali.