Napier é uma cidade que renasceu das ruínas transformada numa joia única no mundo. Em 1931, um terremoto devastador arrasou o centro; nos poucos anos seguintes, a cidade foi reconstruída de uma vez só no estilo mais moderno da época, o art déco, e ficou congelada no tempo. O resultado é uma das coleções de arquitetura art déco mais completas e coerentes do planeta: ruas inteiras de prédios com linhas geométricas, motivos em zigue-zague, cores pastel e detalhes maoris, que fazem de Napier um cenário dos anos 30 que virou realidade.
Mas Napier é muito mais do que sua arquitetura. A cidade se debruça sobre o Pacífico com a elegante orla Marine Parade, ladeada de pinheiros-de-norfolk, jardins, fontes e a famosa estátua de Pania of the Reef. Ela fica no coração de Hawke's Bay, uma das grandes regiões vinícolas da Nova Zelândia — com mais de 30 vinícolas, entre elas a mais antiga do país — e de um interior ensolarado de pomares e olivais. E a meia hora dali, em Cape Kidnappers, fica a maior colônia continental de atobás (gannets) do mundo, um espetáculo natural imperdível.
Este guia percorre Napier com um olhar prático e curioso: como descobrir o seu art déco (com tour guiado ou por conta própria), o que ver na orla, como visitar as vinícolas de bicicleta, como chegar à colônia de atobás e como aproveitar o sol e o bom vinho de Hawke's Bay. Por trás da sua beleza retrô há uma história dramática — o terremoto de 1931 — e uma cultura maori profunda, a dos Ngāti Kahungunu, na terra que a lenda chama de anzol de Māui.
Napier (Ahuriri) fica no território do iwi Ngāti Kahungunu, que se estabeleceu como povo dominante de Hawke's Bay por volta do século XVI; a região é Te Matau-a-Māui, 'o anzol de Māui', por causa da lenda do semideus que pescou a Ilha Norte. O navegador James Cook passou pela costa em 1769 e batizou Cape Kidnappers depois de um incidente com maoris. A colonização europeia do século XIX transformou Napier num porto de lã e frutas. Em 3 de fevereiro de 1931, um terremoto de magnitude 7,8 — o pior desastre natural do país — destruiu o centro de Napier e da vizinha Hastings, matou 256 pessoas e elevou o terreno costeiro em vários metros. A cidade foi reconstruída em poucos anos no estilo art déco, o que a deixou famosa. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓The eastern coast where Cook first landed in 1769, ancestral land of Ngāti Kahungunu, the country's third-largest iwi. A wine and fruit-growing region, famous for Napier, the art deco city rebuilt after the devastating 1931 earthquake, and for Gisborne, the first city in the world to see the sun.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes de ser uma cidade art déco, este lugar tinha nome e donos. Para os maoris, toda a região de Hawke's Bay é Te Matau-a-Māui, 'o anzol de Māui'. Segundo a tradição, o semideus Māui, de sua canoa, pescou do fundo do mar um enorme peixe que se transformou na Ilha Norte da Nova Zelândia (Te Ika-a-Māui, 'o peixe de Māui'), e a curva da baía de Hawke's Bay tem a forma daquele anzol mágico com que ele o pescou. Napier, cujo nome maori é Ahuriri, fica nessa terra carregada de mito.
O povo predominante na região é o iwi Ngāti Kahungunu, um dos maiores de todo o país, que se firmou como potência da costa leste por volta do século XVI. Sua whakapapa (genealogia) remonta à grande canoa Tākitimu, uma das waka da migração polinésia, e a uma linhagem de antepassados ilustres: Rongokako, famoso por seus saltos gigantescos; seu filho Tamatea; e o neto Kahungunu, que dá nome ao iwi, um chefe conhecido pelo carisma, pela liderança e pelas muitas alianças matrimoniais, que teceram uma rede de parentesco por toda a costa leste. Dele descende o povo que até hoje tem o mana sobre estas terras.
Antes da chegada dos europeus, a área de Ahuriri era uma paisagem rica de laguna, áreas alagadas, mar e planícies. A grande laguna de Ahuriri era uma despensa natural — um mahinga kai (local de obtenção de alimentos) fundamental —, com peixes, frutos do mar e aves em abundância, e os hapū (subtribos) locais, como os de Te Whanganui-a-Orotū, viviam de seus recursos. Reconhecer que Napier é Ahuriri, terra dos Ngāti Kahungunu no anzol de Māui, é o ponto de partida para entender tudo o que veio depois.
O primeiro europeu a avistar esta costa foi o navegador britânico James Cook, que percorreu as águas da Nova Zelândia em 1769 a bordo do Endeavour. Ao passar diante do promontório que hoje leva sua marca, aconteceu o incidente que lhe deu nome: alguns maoris que negociavam de suas canoas tentaram, segundo os ingleses, levar um jovem taitiano da tripulação (Taiata). O rapaz conseguiu escapar e voltar ao navio, e Cook batizou o lugar de Cape Kidnappers ('cabo dos sequestradores'). Foi um dos muitos mal-entendidos violentos do primeiro contato entre europeus e maoris.
A colonização europeia de Hawke's Bay ganhou força em meados do século XIX. Missionários, baleeiros, comerciantes e colonos se instalaram na região, e em 1851 a Coroa adquiriu terras dos maoris em circunstâncias que, como em tantas partes do país, foram desfavoráveis para os iwi. Napier foi fundada como porto e recebeu esse nome em homenagem a Sir Charles Napier, um general britânico. Traçada sobre e ao redor de uma colina cercada pela laguna de Ahuriri, a cidade cresceu como porto de exportação de lã, carne e, mais tarde, frutas e vinho da fértil planície de Hawke's Bay.
No início do século XX, Napier era uma próspera cidade vitoriana e eduardiana de prédios de tijolo e pedra, com sua vida portuária, seu comércio e sua sociedade colonial. Enquanto isso, os Ngāti Kahungunu e seus hapū iam perdendo terras e o controle sobre seus recursos tradicionais, incluindo boa parte da laguna de Ahuriri, no longo processo de espoliação que acompanhou a colonização. Nada indicava que, em poucos segundos, toda aquela cidade de tijolo viria abaixo.
Na manhã da terça-feira, 3 de fevereiro de 1931, às 10h47, a terra de Hawke's Bay tremeu com uma violência inédita. Um terremoto de magnitude 7,8, com epicentro a cerca de 15 km ao norte de Napier, sacudiu a região durante dois minutos e meio intermináveis. Foi — e continua sendo — o pior desastre natural da história da Nova Zelândia. Os prédios de tijolo e alvenaria de Napier e da vizinha Hastings, despreparados para tamanha força, desabaram em massa sobre ruas cheias de gente.
O pior veio depois: os incêndios. Com os encanamentos de água rompidos e os bombeiros sobrecarregados, o fogo se espalhou pelo centro de Napier e devorou o que o tremor tinha deixado de pé. Durante dias, a cidade ardeu. O saldo foi devastador: 256 mortos (161 em Napier, 93 em Hastings e outros nos arredores), milhares de feridos e uma cidade praticamente arrasada. Os sobreviventes acamparam nos parques e nos arredores, atendidos por marinheiros de um navio da marinha que, por sorte, estava no porto e coordenou o resgate.
O terremoto não apenas destruiu: transformou a própria geografia. O soerguimento do terreno elevou a costa em cerca de 2,7 metros e drenou a enorme laguna de Ahuriri, trazendo à superfície cerca de 3.000 hectares de antigo fundo do mar. De repente, surgiu terra nova onde antes havia água — terra sobre a qual hoje ficam bairros, indústrias e o próprio aeroporto de Napier. Para os Ngāti Kahungunu e os hapū de Te Whanganui-a-Orotū, essa mudança foi mais um golpe: a laguna que tinha sido sua despensa ancestral, seu mahinga kai, secou, alterando para sempre seu modo de vida, e boa parte das novas terras foi reivindicada pelo Estado sem compensação. A catástrofe teve assim, para os maoris, uma dimensão de perda cultural que a história oficial muitas vezes esquece.
Das ruínas e das cinzas surgiu algo extraordinário. Em vez de reconstruir aos pedaços, Napier se refez quase inteira e de uma vez, em apenas dois ou três anos (entre 1931 e 1933), no estilo arquitetônico mais moderno da época: o art déco. A urgência da reconstrução coincidiu com o auge mundial desse estilo de linhas geométricas, e um grupo de arquitetos locais — trabalhando contra o relógio — projetou dezenas de prédios novos no centro com uma linguagem em comum.
As decisões também foram práticas e ficaram gravadas na cidade: os prédios foram feitos baixos (de poucos andares) por segurança antissísmica, com estruturas de concreto armado mais resistentes que o tijolo que tinha desabado, e fachadas decoradas com os motivos típicos do art déco — zigue-zagues, sóis nascentes, fontes, chevrons, linhas retas —, muitas vezes pintadas em suaves tons pastel. Alguns arquitetos incorporaram ainda padrões decorativos maoris (kōwhaiwhai), fundindo o moderno com o local em um estilo quase único. Somaram-se toques de Spanish Mission e de Stripped Classical.
O resultado, que na época era simplesmente 'a cidade reconstruída', revelou-se com as décadas um tesouro: uma das coleções de arquitetura art déco mais completas, coerentes e bem conservadas do mundo, comparável apenas a Miami Beach. A partir dos anos 80, quando o mundo começou a valorizar esse patrimônio, Napier abraçou sua identidade art déco: foi criado o Art Deco Trust para protegê-lo, as fachadas foram restauradas e nasceu o Art Deco Festival de fevereiro, que enche as ruas de carros antigos, moda dos anos 30 e música swing. O que começou como uma tragédia acabou dando a Napier sua alma e sua fama.
Hoje Napier é uma das cidades mais encantadoras da Nova Zelândia, que vive com orgulho sua dupla identidade: a joia art déco nascida do desastre e o centro de uma das grandes regiões vinícolas e frutícolas do país. Suas ruas retrô, sua orla de pinheiros-de-norfolk, seus vinhedos ensolarados e a colônia de atobás de Cape Kidnappers fazem dela um destino ao mesmo tempo cultural, gastronômico e natural, no canto mais luminoso da Ilha Norte. O Art Deco Festival de fevereiro atrai visitantes do mundo inteiro.
A memória do terremoto de 1931 continua viva e presente. A cidade a homenageia em museus, monumentos e relatos: cada prédio do centro é, de certa forma, uma lembrança daquela manhã e da incrível capacidade de renascer de uma comunidade. Ao mesmo tempo, a Nova Zelândia vem reconhecendo as injustiças históricas contra os Ngāti Kahungunu: os processos de acordo do Tratado de Waitangi trataram de reivindicações como a perda da laguna de Ahuriri e de terras ancestrais, em um caminho de reparação e de reconhecimento do mana do iwi sobre estas terras.
Para o viajante, conhecer essa história dá profundidade à beleza de Napier. As linhas art déco deixam de ser apenas bonitas para falar de uma tragédia e de uma reconstrução heroicas; a terra plana sob o aeroporto e alguns bairros lembra que até 1931 ali havia uma laguna que alimentava um povo; e o nome maori, Ahuriri, no anzol de Māui, mantém viva a conexão com os Ngāti Kahungunu. Napier é a prova de que até da pior catástrofe pode nascer algo bonito e único, desde que não se esqueça tudo o que havia — e quem havia — antes.