Existe uma imagem que resume o Japão para meio mundo: um grande portal de madeira vermelhão, alto e solitário, que parece flutuar sobre o mar diante de uma ilha verde e montanhosa. Esse torii é o de Itsukushima, na ilha de Miyajima, e vê-lo pessoalmente, sobretudo ao entardecer, quando a luz o tinge de dourado e a maré sobe até cobrir sua base, é uma daquelas experiências que justificam sozinhas uma viagem ao Japão. Não é à toa que, há séculos, Miyajima figura entre as três paisagens mais belas do país.
Mas a ilha é muito mais do que seu famoso portal. Miyajima é considerada sagrada desde tempos imemoriais: tão sagrada que, durante séculos, não se permitia nascer nem morrer nela, e por isso o santuário de Itsukushima foi construído sobre a água, na faixa entre marés, para não profanar a terra santa. Atrás do santuário se ergue o monte Misen, uma floresta primária povoada de cervos mansos, templos escondidos e mirantes com vista para o mar interior de Seto salpicado de ilhas. E na vila se come maravilhosamente bem: ostras enormes na brasa e o momiji manju, o doce em formato de folha de bordo.
Este guia percorre Miyajima com olhar prático e acolhedor: como chegar a partir de Hiroshima, como aproveitar as marés para as melhores fotos do torii, o que ver no santuário e no templo Daisho-in, como subir o monte Misen e por que vale a pena dormir na ilha. Miyajima é um destino que combina espiritualidade, natureza e boa comida num tamanho fácil de abraçar, e que deixa uma lembrança inesquecível.
Miyajima, oficialmente Itsukushima, foi venerada como ilha sagrada desde a Antiguidade: acreditava-se que era morada dos deuses, e por isso durante séculos foi proibido cortar árvores e até nascer ou morrer nela. O santuário de Itsukushima, dedicado a três deusas do mar, remonta, segundo a tradição, ao ano 593, mas sua forma atual (os pavilhões vermelhão construídos sobre pilares na faixa entre marés, ligados por passarelas sobre a água) se deve a Taira no Kiyomori, o poderoso líder do clã Taira, que por volta de 1168 reconstruiu e ampliou o santuário, transformando-o no templo familiar do seu clã e num símbolo do seu poder. O grande torii que parece flutuar diante do santuário teve várias versões ao longo dos séculos; o atual data de 1875. Em 1555, a ilha foi palco da batalha de Miyajima, na qual o senhor Mori Motonari derrotou um rival e assumiu o controle do oeste do Japão. Considerada durante séculos uma das três paisagens mais belas do país (Nihon Sankei), Miyajima foi declarada Patrimônio da Humanidade pela Unesco em 1996. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Western Honshu: Hiroshima, reborn after the atomic bomb as a city of peace, and the sacred island of Miyajima with its floating torii.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Para entender Miyajima, é preciso começar por uma ideia que explica quase tudo: a ilha inteira é sagrada. Muito antes da construção do primeiro santuário, os habitantes da região veneravam a ilha de Itsukushima como morada dos deuses, um lugar santo demais para ser pisado de qualquer jeito. Sua montanha, o Misen, suas florestas e suas rochas eram objeto de culto, segundo a crença xintoísta de que as divindades (kami) habitam a natureza. Essa sacralidade era tão rigorosa que, durante séculos, vigoraram tabus extraordinários: não se podia cortar as árvores da floresta sagrada, e era proibido nascer ou morrer na ilha, porque a vida e a morte eram consideradas fontes de impureza ritual. Mulheres grávidas e idosos doentes tinham que atravessar para o continente, e nem sequer havia cemitérios na ilha.
Dessa concepção nasce a característica mais singular de Miyajima: seu santuário construído sobre a água. Como não era possível edificar sobre o solo sagrado sem profaná-lo, a solução foi erguer o santuário de Itsukushima na faixa entremarés, sobre pilares, na área que o mar cobre e descobre com as marés. Assim, o templo não fica nem totalmente em terra nem totalmente no mar, mas num limiar entre os dois mundos, flutuando literalmente entre o humano e o divino. O grande torii fincado na água marcava a entrada 'pelo mar' ao recinto sagrado: os peregrinos chegavam de barco e passavam por baixo dele antes de se aproximar do santuário, num gesto de purificação.
Segundo a tradição, o santuário foi fundado no ano 593 e dedicado a três deusas, filhas do deus das tempestades Susanoo, protetoras dos mares e da navegação, muito apropriadas para uma ilha do mar interior de Seto. Essa devoção antiga lançou as bases do que, séculos depois, se tornaria um dos lugares mais venerados e bonitos do Japão.
O santuário que hoje admiramos, com seus pavilhões vermelhão unidos por passarelas sobre o mar, deve-se em grande parte a um único homem: Taira no Kiyomori, um dos personagens mais poderosos do Japão do século XII. Kiyomori era o líder do clã Taira, uma família de guerreiros que, em meados daquele século, alcançou um poder político sem precedentes: chegou a controlar a corte imperial e a governar o país na prática, no ocaso da era aristocrática. Kiyomori tinha uma devoção especial pelas deusas de Itsukushima, a quem atribuía sua fortuna, e decidiu transformar o santuário no templo protetor de seu clã e numa obra à altura de sua glória.
Por volta de 1168, Kiyomori financiou uma grande reconstrução e ampliação do santuário, dando-lhe sua forma atual: um elegante conjunto de pavilhões no refinado estilo arquitetônico da aristocracia da época (o estilo shinden das mansões nobres), estendido sobre o mar por longas galerias. Sob seu patrocínio, Itsukushima se tornou um centro religioso de primeira ordem, que recebia tesouros e doações, entre eles magníficos rolos de sutras decorados que são preservados como Tesouros Nacionais. O santuário refletia, em sua beleza sofisticada, o mundo cortesão e estético que os Taira encarnavam.
O esplendor dos Taira foi, como o de tantos outros, efêmero. Poucos anos após a morte de Kiyomori, seu clã foi aniquilado pelos Minamoto nas guerras Genpei (1180-1185), que abriram caminho para a era dos xoguns. Mas o santuário que Kiyomori havia engrandecido sobreviveu à queda de seu clã e continuou sendo venerado e mantido pelos poderosos que vieram depois. Sua forma, fixada no século XII, chegou até nós por meio de sucessivas reconstruções fiéis ao projeto original, já que os edifícios de madeira sobre o mar sofreram incêndios, tufões e o desgaste constante das marés.
Apesar de seu caráter sagrado, ou talvez por seu valor estratégico, Miyajima não escapou da guerra. Em 1555, em plena era das guerras civis (Sengoku), a ilha foi palco da batalha de Miyajima, um confronto decisivo em que o astuto senhor Mori Motonari, com um exército menor, armou uma armadilha para seu rival Sue Harukata e o derrotou completamente. A vitória consolidou Mori Motonari como o grande senhor do oeste do Japão. Travar uma batalha, com todo o sangue e a morte que ela traz, numa ilha onde era proibido morrer foi considerado uma grave profanação: conta-se que, após a vitória, Motonari mandou purificar o santuário e a ilha, e até retirar os corpos e limpar o sangue, para restaurar sua pureza sagrada.
Superado aquele episódio, Miyajima continuou crescendo como destino de peregrinação. Figuras poderosas como Toyotomi Hideyoshi deixaram sua marca: ele mandou construir o grande pavilhão Senjokaku, ao lado do pagode de cinco andares, embora a obra tenha ficado inacabada com sua morte. Durante o período Edo, com a paz dos Tokugawa, a ilha se tornou um lugar popular de peregrinação e turismo religioso, para onde iam visitantes de todo o Japão para venerar o santuário e admirar sua beleza.
Foi justamente essa beleza que lhe rendeu um reconhecimento célebre. No século XVII, o erudito Hayashi Gaho registrou a ideia das 'Três paisagens do Japão' (Nihon Sankei), as três vistas consideradas mais bonitas do país: o banco de areia de Amanohashidate, a baía de ilhas de Matsushima e, justamente, o torii flutuante de Miyajima. Essa consagração estética, repetida durante séculos em pinturas, gravuras e guias de viagem, fixou Miyajima no imaginário japonês como um dos lugares mais bonitos da nação, muito antes de as câmeras do mundo inteiro apontarem para seu portal vermelhão.
Atrás do santuário, dominando a ilha, ergue-se o monte Misen, cuja sacralidade é ainda mais antiga que a do próprio santuário e faz parte essencial da identidade espiritual de Miyajima. Seus 535 metros são cobertos por uma floresta primária protegida, com árvores centenárias e rochas gigantescas veneradas como objeto de culto. A montanha foi, durante séculos, um lugar de prática religiosa, tanto xintoísta quanto budista, e seu cume oferece uma das vistas mais celebradas do Japão sobre o mar interior de Seto e suas incontáveis ilhas.
A tradição liga o Misen a uma das grandes figuras do budismo japonês: Kobo Daishi (Kukai), fundador do budismo Shingon e do Monte Koya. Conta-se que, por volta do ano 806, Kukai subiu o Misen para praticar rituais ascéticos e acendeu ali um fogo sagrado que, segundo a crença, continua ardendo sem interrupção há mais de mil e duzentos anos no salão chamado Reikado. Esse fogo, carregado de simbolismo, teve um papel comovente na história recente: de sua chama eterna foi retirada, em parte, a Chama da Paz que arde no Parque Memorial de Hiroshima, unindo assim a espiritualidade milenar de Miyajima à memória da tragédia da bomba atômica, a poucos quilômetros de distância.
Hoje, subir o monte Misen — de teleférico e depois a pé, ou caminhando pelas trilhas — é completar a visita a Miyajima com sua dimensão mais natural e contemplativa. Na floresta convivem cervos e macacos selvagens, pequenos templos e ermidas, e a sensação de estar num lugar onde a natureza e o sagrado se confundem há séculos. A montanha lembra que Miyajima não é só seu famoso torii, mas uma ilha inteira venerada como divina.
Em 1996, a Unesco inscreveu o santuário de Itsukushima na lista do Patrimônio da Humanidade, reconhecendo seu valor excepcional como obra-prima da arquitetura que integra de forma sublime construção e paisagem, história e espiritualidade. A área protegida inclui não só os pavilhões sobre o mar, mas também a floresta virgem do monte Misen, que serve de pano de fundo, deixando claro que o que se protege é a relação entre o santuário e seu entorno natural sagrado.
Esse reconhecimento consolidou Miyajima como um dos destinos imperdíveis do Japão. Todos os anos, milhões de visitantes atravessam de balsa para fotografar o torii, percorrer as passarelas do santuário, passear entre os cervos e subir o Misen. A proximidade com Hiroshima faz com que muita gente combine a ilha com a visita ao Parque Memorial da Paz, num mesmo dia que une beleza serena e memória histórica. Essa popularidade, porém, traz os desafios típicos do turismo de massa: o movimento se concentra nas horas centrais do dia e pressiona uma ilha pequena e frágil. Como resposta, em 2023 foi criada uma taxa turística destinada a financiar a conservação do entorno e a gestão dos visitantes.
Miyajima enfrenta hoje o mesmo desafio de outros grandes tesouros do país: continuar sendo um lugar vivo e sagrado, e não apenas um cenário para fotos. Quem consegue visitá-la com calma — dormindo na ilha, madrugando ou passeando ao entardecer, quando os grupos de excursão já foram embora — descobre a ilha que encantou peregrinos e poetas durante séculos: o torii iluminado refletido no mar, o silêncio do santuário ao amanhecer, os cervos recortados contra a baía e a montanha sagrada envolta em neblina. Nessa Miyajima serena continua pulsando, mil e quinhentos anos depois, a velha crença que a fundou: a de uma ilha onde moram os deuses.