Broome é um daqueles lugares que parecem inventados: uma cidade tropical no extremo norte da Austrália Ocidental onde camelos caminham por uma praia infinita ao pôr do sol, onde o mar de Cable Beach fica vermelho enquanto o sol mergulha no Índico, e onde a lua cheia cria a ilusão de uma escada prateada sobre a lama da baía. É a capital do Kimberley, uma das últimas grandes fronteiras selvagens do planeta, e uma cidade com uma história tão rica quanto sua paisagem.
Essa história é a das pérolas. No começo do século XX, Broome era o maior porto de pérolas do mundo, com centenas de barcos (luggers) vasculhando o fundo do mar em busca da cobiçada madrepérola. Mergulhadores japoneses, trabalhadores malaios, filipinos, chineses, timorenses e aborígenes conviveram e morreram numa cidade multicultural, dura e fascinante, cujo legado aparece hoje em Chinatown, no cemitério japonês e nas joalherias de pérolas de luxo. Broome também é Rubibi, terra do povo yawuru, e guarda pegadas de dinossauro de 130 milhões de anos.
Este guia percorre Broome com olhar prático: Cable Beach e seu pôr do sol de camelo, Gantheaume Point e suas pegadas de dinossauro, Chinatown e o cinema ao ar livre mais antigo do mundo, o parque de crocodilos, a escada para a lua, como chegar de Perth e como se locomover. E homenageia sua história enorme e única: a de um porto de pérolas multicultural sobre a terra ancestral yawuru.
Broome é Rubibi, terra tradicional do povo yawuru, que habitou este litoral por milhares de anos e cujo uso da madrepérola (os rijis) quase certamente chamou a atenção para as pérolas da região. A cidade foi fundada e oficialmente demarcada em 1883, com o nome do governador da WA, Sir Frederick Napier Broome; em 1889 chegou a Cable Beach o cabo telegráfico submarino que ligava a Austrália a Java (daí o nome da praia). No começo do século XX, Broome se tornou o maior porto de pérolas do mundo, com cerca de 400 luggers e uma força de trabalho multicultural: mergulhadores japoneses (que chegaram a ser quase metade dos trabalhadores), malaios, filipinos, chineses, timorenses e aborígenes, muitos destes últimos forçados ou enganados para mergulhar em condições duríssimas. O perigo do mergulho deixou centenas de mortos, lembrados no cemitério japonês. A indústria entrou em declínio em meados do século XX com as pérolas cultivadas e a Segunda Guerra Mundial (Broome foi bombardeada pelo Japão em 1942); hoje a cidade vive do turismo e continua produzindo pérolas cultivadas de luxo. A história completa está na nossa página de história.
Ler a história completa ↓Australia's largest state, covering almost a third of the continent: the ancestral land of the Noongar people and dozens of desert nations, colonised from the Swan River Colony in 1829, transformed by Kalgoorlie gold and today a global iron ore powerhouse. Its capital, Perth, is the most isolated major city on the planet.
Ler a história de Western Australia →Se você reservar por aqui ganhamos uma comissão e você não paga nada a mais. Preços e disponibilidade são da Civitatis.
Sem preços exatos: escala de $ (econômico) a $$$$$ (luxo), com 2 ou 3 opções por categoria.
Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes das pérolas, antes dos luggers e de Chinatown, esta costa de manguezais e planícies de lama na baía de Roebuck já tinha donos e nome: era Rubibi, o país do povo yawuru. Os yawuru habitaram esta região do Kimberley durante milhares de anos, com um conhecimento profundo do mar, das marés, dos manguezais e das estações, e uma organização social e espiritual ligada ao seu Country. A baía de Roebuck era um importante ponto de encontro, onde se trocavam presentes, se combinavam casamentos e se resolviam disputas entre grupos.
Os yawuru viviam da riqueza do mar e da terra e, um dado-chave para a história que viria depois, usavam a madrepérola na sua cultura. As conchas de nácar eram entalhadas e polidas para fazer adornos, entre eles os rijis, peças de concha usadas como cobertura ou ornamento, que tinham valor cerimonial e comercial e eram trocadas ao longo de enormes distâncias por todo o continente. Esse uso ancestral da madrepérola quase certamente foi o que chamou a atenção dos primeiros europeus para a abundância de conchas perlíferas nestas águas.
Assim, a história perlífera de Broome, que costuma ser contada como uma aventura de colonos, mergulhadores japoneses e magnatas, tem na verdade suas raízes no conhecimento e na cultura yawuru. Hoje, depois de anos de reivindicação, o povo yawuru é reconhecido como guardião tradicional de Broome (Rubibi), com determinação de Native Title sobre grande parte da região, e sua voz e sua língua voltam a ocupar um lugar central na identidade da cidade.
A presença europeia permanente na região se consolidou no fim do século XIX, graças às pérolas. Por volta da década de 1880, as margens da baía de Roebuck eram pouco mais que um punhado de colonos brancos e acampamentos de pesca de pérolas espalhados entre os manguezais, quando o povoado foi traçado e declarado oficialmente cidade em 27 de novembro de 1883. Recebeu o nome de Broome em homenagem a Sir Frederick Napier Broome, governador da Austrália Ocidental na época.
Poucos anos depois aconteceu um fato que marcaria a geografia simbólica da cidade. Em 1889 chegou à costa, na praia que hoje chamamos de Cable Beach, um cabo telegráfico submarino que ligava Broome a Java (nas Índias Orientais Holandesas) e, por meio dessa rede, ao resto do mundo. Esse cabo (daí o nome "Cable Beach") tirou Broome do isolamento e a conectou aos mercados e às comunicações globais, algo vital para uma cidade que estava prestes a se tornar um centro econômico de importância mundial.
Broome nasceu, então, como um povoado de fronteira a serviço de uma indústria muito específica e muito lucrativa: não a pérola em si (que era um prêmio ocasional), mas a madrepérola, ou nácar das conchas, matéria-prima cobiçadíssima na era anterior ao plástico para fabricar botões, cabos, fivelas e incrustações. Nas águas quentes e turvas do noroeste australiano crescia a ostra Pinctada maxima, a maior do mundo, com as conchas de nácar mais valiosas. Sobre esse recurso seria construído todo o resto.
No começo do século XX, Broome tinha se tornado o maior porto perlífero do mundo. No auge, cerca de 400 barcos (os luggers, veleiros pequenos e ágeis) vasculhavam o fundo do mar em busca da valiosa concha de nácar, e a cidade fornecia a maior parte da madrepérola do planeta. Era uma indústria extremamente rentável, mas também brutalmente perigosa.
O trabalho mais duro e mortal era o mergulho. No início, foram muito usados mergulhadores aborígenes, muitos deles forçados ou enganados para trabalhar longe de suas terras, mergulhando sem equipamento. Com a chegada dos escafandros (pesados trajes de mergulho com capacete de cobre e botas de chumbo que permitiam descer a águas mais profundas), passaram a ser recrutados sobretudo mergulhadores japoneses, que ganharam fama pela destreza e pela coragem. Por volta de 1900 eles já eram 18% da força de trabalho perlífera de WA; por volta de 1920, um terço; e na Segunda Guerra Mundial, quase a metade. Ao lado deles trabalhavam malaios, filipinos, chineses, timorenses (de Koepang) e gente de todo o Sudeste Asiático, nos conveses e nas oficinas.
O mergulho com escafandro matava: a doença descompressiva (a "doença dos mergulhadores"), os afogamentos e os ciclones que pegavam as frotas de surpresa no mar deixaram centenas de mortos. O cemitério japonês de Broome, com quase mil túmulos, é o testemunho comovente desse custo humano. Broome se tornou assim uma das cidades mais multiculturais da Austrália, em pleno auge da política racista da "Austrália Branca", justamente porque a indústria perlífera não funcionava sem esses trabalhadores asiáticos, para quem eram abertas exceções nas leis de imigração.
O coração dessa Broome multicultural e agitada era Chinatown, o bairro comercial e de diversão da cidade. De dia, suas ruas concentravam os negócios dos mestres perlíferos (pearling masters), as oficinas e os armazéns; à noite, era um lugar bem mais barra-pesada, a zona boêmia da cidade, com bordéis, casas de jogo e antros de ópio onde os tripulantes dos luggers gastavam o pagamento quando desembarcavam depois de semanas no mar. Em poucos quarteirões conviviam chineses, japoneses, malaios, filipinos, europeus e aborígenes, cada comunidade com sua vida, suas tensões e suas histórias. Daquela época sobrevive o Sun Pictures, o cinema ao ar livre em funcionamento mais antigo do mundo, inaugurado em 1916, que nos tempos de segregação tinha setores separados para os diferentes grupos.
A era de ouro da pérola natural começou a declinar por várias frentes. A invenção do botão de plástico reduziu a demanda por nácar. As guerras mundiais bateram forte: durante a Primeira, mercados foram cortados; e durante a Segunda, em 1942, Broome foi atacada por aviões japoneses num bombardeio que afundou hidroaviões com refugiados abrigados na baía e deixou dezenas de mortos, em um dos ataques aéreos mais letais em solo australiano. A comunidade japonesa, espinha dorsal do mergulho, foi internada ou expulsa. A indústria da pérola natural nunca mais voltou a ser o que tinha sido.
O que salvou Broome de desaparecer foi uma reinvenção: a pérola cultivada. A partir de meados do século XX, com técnicas de cultivo, a região passou a produzir pérolas dos mares do sul (South Sea pearls) cultivadas, entre as maiores e mais finas do mundo, em fazendas perlíferas na costa do Kimberley. A pérola continuou, e continua, sendo parte da identidade e da economia de Broome, ainda que de outro jeito.
A Broome de hoje vive principalmente do turismo e de sua condição de capital e porta de entrada para o Kimberley, uma das últimas grandes áreas selvagens do planeta. Na estação seca (de maio a outubro), a cidade se enche de viajantes que vêm ver o pôr do sol de Cable Beach, andar de camelo na areia, contemplar a escada para a lua sobre a baía de Roebuck, passear por Chinatown e usar Broome como base para passeios pelo Kimberley: Cape Leveque, a Gibb River Road, os cruzeiros de expedição pela costa.
Esse turismo convive com o legado das três grandes camadas da história de Broome: a milenar cultura yawuru, a epopeia perlífera multicultural e as pegadas de dinossauro de 130 milhões de anos preservadas nas rochas vermelhas de Gantheaume Point, entre os sítios paleontológicos mais notáveis do mundo. Broome é, em poucos quilômetros, um cruzamento único de tempos e culturas.
Nas últimas décadas, o reconhecimento do povo yawuru ganhou força. A determinação de Native Title devolveu aos yawuru o reconhecimento legal de sua ligação com Rubibi, e hoje eles participam da gestão do território e da vida cultural da cidade, com nomes, língua e saberes que voltam a ocupar o espaço público. Broome é contada, cada vez mais, não só como o velho porto perlífero, mas como Rubibi: uma terra yawuru sobre a qual se sobrepuseram, com suas luzes e sombras, a pérola, o mundo e o tempo. Visitá-la é espiar todas essas histórias ao mesmo tempo, tendo como pano de fundo o pôr do sol mais famoso da Austrália.