A Baía das Ilhas é um daqueles cantos onde natureza e história se abraçam. Numa baía subtropical de águas turquesa se espalham cerca de 144 ilhas verdes, lar de golfinhos, baleias e colônias de aves, onde se navega, se mergulha e se cruza de veleiro até o famoso Hole in the Rock. É a Nova Zelândia de cartão-postal marinho, a poucas horas ao norte de Auckland.
Mas essa baía também é o berço da nação. Em Waitangi, em 6 de fevereiro de 1840, chefes maoris e a Coroa britânica assinaram Te Tiriti o Waitangi, o tratado fundador do país. Em frente, a cidadezinha de Russell (a antiga Kororāreka) foi o primeiro povoado europeu e chegou a ser chamada de 'o inferno do Pacífico' pela fama de porto sem lei. E em Kerikeri estão os edifícios mais antigos da Nova Zelândia. Poucas regiões concentram tanta história.
Este guia percorre a Baía das Ilhas com olhar prático e acolhedor: quais passeios e experiências não perder, como se locomover entre Paihia, Russell e Waitangi, quanto custam de verdade o passeio de barco ao Hole in the Rock, a entrada no Treaty Grounds e as excursões (em dólares neozelandeses e verificado em julho de 2026), e onde comer e dormir. É um destino onde paisagem, golfinhos e história se combinam como em nenhum outro lugar do país.
A Baía das Ilhas é 'o berço da nação': aqui, no coração do território do poderoso iwi Ngāpuhi, aconteceram os primeiros contatos contínuos entre maoris e europeus. Em Kororāreka (Russell) prosperou o primeiro porto europeu, famoso pela vida sem lei; em Kerikeri se instalou a primeira missão e foram erguidos os edifícios mais antigos do país; e em Waitangi, em 6 de fevereiro de 1840, dezenas de rangatira maoris e a Coroa assinaram Te Tiriti o Waitangi. Pouco depois, o descontentamento com a colonização desencadeou a Guerra do Norte de Hōne Heke. A história completa está na página de história.
Ler a história completa ↓The cradle of the nation: at Waitangi, in the Bay of Islands, New Zealand's founding treaty was signed in 1840, on the land of Ngāpuhi, the country's largest iwi. This is where the first missionaries arrived, where the rowdy port of Kororāreka thrived and where the first of the New Zealand Wars broke out.
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Origem, formação e o que dizem as fontes.
Antes que chegasse um único navio europeu, a Baía das Ilhas era o coração do território dos Ngāpuhi, o iwi (tribo) mais numeroso e poderoso do norte da Nova Zelândia. Os maoris tinham chegado a Aotearoa vindos da Polinésia Oriental por volta de 1250-1300, navegando em grandes waka (canoas oceânicas) pelo Pacífico, e nas baías subtropicais do norte encontraram um lugar ideal: mar rico em peixes, terra fértil, clima temperado e florestas generosas.
Nas margens e nas ilhas da baía, os diferentes hapū (subtribos) dos Ngāpuhi ergueram pā (aldeias fortificadas) e kāinga (aldeias abertas). Viviam da pesca, da coleta de frutos do mar, da caça de aves e do cultivo da kūmara (batata-doce). A vida deles era organizada segundo o whakapapa — a genealogia que conecta cada pessoa a seus antepassados, à terra e ao mundo espiritual — e regida por conceitos como o mana (prestígio, autoridade) e o tapu (o sagrado), pilares do Te Ao Māori, a cosmovisão maori.
A baía tinha, além disso, uma posição estratégica: suas águas protegidas e suas muitas ilhas faziam dela um porto natural. Quando os primeiros navios europeus começaram a aparecer no fim do século XVIII, foi justamente aqui, em território ngāpuhi, que aconteceram alguns dos primeiros e mais intensos contatos entre maoris e pākehā (europeus) em toda a Nova Zelândia.
O navegador holandês Abel Tasman tinha avistado a Nova Zelândia em 1642, mas não desembarcou, e seu encontro com os maoris terminou em violência. Foi o capitão britânico James Cook quem, em 1769, mapeou o litoral e batizou a região de Bay of Islands pela enorme quantidade de ilhas. A partir daí, e sobretudo desde o começo do século XIX, a baía virou um ímã para baleeiros, caçadores de focas, comerciantes e aventureiros de todo o Pacífico.
O centro dessa atividade era Kororāreka, o povoado que hoje se chama Russell. Na década de 1830, era o maior assentamento europeu do país e um porto sem lei onde baleeiros, marinheiros, desertores e condenados fugidos da Austrália se misturavam aos maoris locais. Álcool, brigas e prostituição eram coisa de todo dia, e o lugar ganhou o apelido de 'hell hole of the Pacific', o inferno do Pacífico. Enquanto isso, os chefes maoris faziam um comércio intenso: trocavam alimentos, madeira e linho por armas, ferramentas e produtos europeus.
Esse comércio teve uma consequência terrível. Os mosquetes que os Ngāpuhi conseguiram primeiro, especialmente sob a liderança do astuto e feroz chefe Hongi Hika, deram a eles uma vantagem militar decisiva sobre outros iwi. A partir de sua base no pā de Kororipo, em Kerikeri, Hongi Hika lançou campanhas devastadoras rumo ao sul nas chamadas Guerras dos Mosquetes (1810-1840), que causaram enorme mortandade em todo o país e mudaram para sempre o mapa tribal.
No meio daquele mundo turbulento chegaram os missionários. Em 1814, o reverendo Samuel Marsden fundou a primeira missão cristã da Nova Zelândia na Baía das Ilhas, e em 1819 a Church Missionary Society criou uma estação missionária em Kerikeri, bem ao lado do poderoso pā de Kororipo, com o consentimento e a proteção de Hongi Hika, que via nos europeus uma fonte de tecnologia, alfabetização e comércio.
Daquela missão sobrevivem os dois edifícios mais antigos da Nova Zelândia. A Kemp House (Mission House), construída em 1822, é o edifício mais antigo ainda de pé no país; e a Stone Store, de 1836, erguida com basalto local e arenito trazido de Sydney, é o edifício de pedra mais antigo e continua funcionando como loja. Os dois, junto ao sítio do pā de Kororipo, formam o coração histórico da Nova Zelândia dos primeiros contatos.
Os missionários fizeram algo de enorme impacto: colocaram a língua maori por escrito. Ao criar um alfabeto para o te reo, traduziram a Bíblia e ensinaram a ler e escrever, e a alfabetização se espalhou rapidamente entre os maoris. Essa capacidade de ler e escrever seria fundamental poucos anos depois, quando chegasse a hora de discutir e assinar um tratado com a Coroa britânica.
Por volta de 1840, a situação na Baía das Ilhas — e em toda a Nova Zelândia — era caótica. Chegavam cada vez mais colonos e especuladores de terras, o povoado de Kororāreka era um foco de desordem, e tanto os chefes maoris quanto a Coroa britânica queriam pôr algum tipo de ordem na relação entre os dois povos. O resultado foi Te Tiriti o Waitangi, o Tratado de Waitangi.
Em 6 de fevereiro de 1840, nos jardins da casa do residente britânico em Waitangi, de frente para a baía, o capitão William Hobson, representando a Coroa, e cerca de 43 rangatira (chefes), a maioria Ngāpuhi, assinaram o tratado depois de um debate intenso. Os discursos a favor de figuras como Tāmati Wāka Nene e do próprio Hōne Heke Pōkai — o primeiro chefe a assinar — foram decisivos. Nos meses seguintes, o documento percorreu o país e reuniu mais de 500 assinaturas de chefes maoris.
O problema, que o país arrastaria por um século e meio, foi que as duas versões do tratado não diziam a mesma coisa. Na versão em inglês, os maoris cediam a 'soberania' à Coroa; na versão em te reo maori — a que quase todos assinaram — cediam o 'kāwanatanga' (governo), mas mantinham seu 'tino rangatiratanga' (plena autoridade) sobre suas terras e taonga. Essa diferença, e o descumprimento posterior das promessas da Coroa, seriam a raiz de inúmeros conflitos e reivindicações, muitas das quais ainda estão sendo resolvidas hoje.
O descontentamento não demorou a explodir. Depois da assinatura do tratado, a capital colonial foi transferida primeiro para Okiato (perto de Russell) e depois para Auckland, o que desviou o comércio e arruinou os chefes da Baía das Ilhas que tinham enriquecido com as trocas. As tarifas alfandegárias e as promessas não cumpridas da colonização alimentaram a frustração, principalmente a de Hōne Heke, o mesmo chefe que tinha sido o primeiro a assinar.
O símbolo desse protesto foi o mastro da bandeira na colina de Maiki (Flagstaff Hill), acima de Kororāreka. Heke tinha doado esse mastro para hastear a bandeira das Tribos Unidas, mas depois do tratado passou a tremular ali a Union Jack britânica, para sua indignação. Entre 1844 e 1845, Hōne Heke derrubou o mastro quatro vezes. A quarta, em março de 1845, coincidiu com um ataque a Kororāreka liderado por Heke e pelo chefe Te Ruki Kawiti, que terminou com o saque e o incêndio da cidade.
Assim começou a Guerra do Norte (Northern War ou Flagstaff War, 1845-1846), o primeiro dos conflitos conhecidos como Guerras da Nova Zelândia (New Zealand Wars). As forças britânicas, mais bem armadas, esbarraram na engenharia militar maori: Kawiti construiu pā fortificados com trincheiras e abrigos contra bombardeios (como o famoso pā de Ruapekapeka) que anteciparam a guerra de trincheiras moderna. A guerra terminou sem um vencedor claro, mas deixou evidente que a colonização da Nova Zelândia não seria pacífica.
Com o passar das décadas, a Baía das Ilhas deixou de ser o centro político e comercial do país — esse papel passou para Auckland e depois para Wellington — e se transformou no que é hoje: um destino turístico voltado para a natureza e a história. Russell, o antigo 'hell hole', é uma cidadezinha tranquila e encantadora; Kerikeri conserva seus edifícios coloniais; e Waitangi virou o grande local de memória da nação.
Todo 6 de fevereiro, o Dia de Waitangi (Waitangi Day) é feriado nacional, e as cerimônias nos Treaty Grounds são ao mesmo tempo celebração e palco de protestos, porque o tratado continua sendo um documento vivo e disputado. Em 1975 foi criado o Tribunal de Waitangi (Waitangi Tribunal) para investigar as violações históricas do tratado pela Coroa, e desde então vários iwi — incluindo os Ngāpuhi — apresentaram reivindicações e receberam reparações, pedidos oficiais de desculpas e devoluções de terras. É um dos processos de reconciliação com povos originários mais ambiciosos do mundo.
Por isso, percorrer a Baía das Ilhas hoje é muito mais do que navegar entre golfinhos e arcos de rocha. É caminhar pelo lugar onde nasceu a Nova Zelândia moderna: a terra ancestral dos Ngāpuhi, o porto sem lei dos baleeiros, a primeira missão e seus edifícios centenários, os jardins onde o tratado foi assinado e as colinas da Guerra do Norte. Todas essas camadas convivem sobre as mesmas águas azul-turquesa do extremo norte.